Hot Memories
Terça-feira, Junho 14, 2011
  Meu encontro e desencontro com Henri Cartier-Bresson


Henri Cartier-Bresson desenha o seu auto-retrato. Photo© Martine Frank, 1998.


“Compreender o mundo, para um homem, é reduzi-lo ao humano.”
Albert Camus (O Mito de Sísifo)


Há quinze anos, Henri Cartier-Bresson já era um daqueles personagens que as pessoas imaginavam não existir mais. E, no entanto, aos 87 anos ele estava bem vivo, um pouco mal-humorado e completamente imerso em sua produção de desenhos. "Entrevista? Não, eu não dou entrevistas, você pode fazer uma crítica do meu trabalho, se quiser, mas não me interessa o lado anedótico das entrevistas." O grande fotógrafo francês respondeu rapidamente o pedido do jornal O Estado, representado pela minha pessoa, mas afirmou: "Já falei tudo que tinha para falar porém, como não se trata da França e sim do Brasil, talvez esteja de acordo, vamos ver..."

Quinze minutos depois ele me telefonou. Não consegui marcar o encontro para a semana seguinte. "Vivo o dia-a-dia, prefiro que nos vejamos hoje mesmo", disse ele. Vício profissional do momentâneo ou ansiedade? Os livros e catálogos sobre a sua obra gráfica e pictórica, que ele trouxe pontualmente consigo, talvez fossem a confirmação de que queria evitar qualquer discussão sobre fotografia. Com relação ao interesse do público pela "prática do instante", ele já havia comentado, por telefone: "É, eu sei, as pessoas gostam, mas a fotografia é um pequeno métier."

Essa não seria a opinião de autores como Walter Benjamin, para quem "a fotografia é o inconsciente da visão"; Susan Sontag, cujo livro On Photography é quase um hino de amor à "arte de ilusão"; ou Roland Barthes, entre outros, que decretou, em seu A Câmara Clara, que "amava a foto 'contra' o cinema", do qual, entretanto, ele não conseguia se separar. "Susan Sontag? Nunca li", confessou Cartier-Bresson. "E não sei se ela é muito visual, mas é uma senhora gentil que fotografei", disse. "Benjamin, Barthes, a mesma coisa, não me interesso por teorias sobre a fotografia."

Quando se tratava de Cartier-Bresson, contudo, era possível que a minimização do métier de fotógrafo - e a valorização da arte que ele teria gostado de dominar "como os grandes" - não fosse apenas uma questão de modéstia e sim de ambição. Me perguntei se isso era um sinal de sabedoria ou juvenilidade... Altivo e certamente mimado pelo "grande mundo" das artes e da alta sociedade que ele não decepcionou, o artista colocava o desenho (e a pintura) em oposição à fotografia. O que, segundo um de seus amigos pintores que eu freqüentava na época - Avigdor Arikha - nada mais era do que uma idéia fixa. "O Henri está convencido de que é desenhista e pintor, dizia Arikha, ele tem um olho extraordinário para a fotografia, da mesma forma como certas pessoas possuem o raríssimo ouvido absoluto para a música, mas ele é simplesmente desajeitado, não tem mão, não tem talento para o desenho."

Penso que essa era uma opinião um tanto exagerada. Talvez até mesmo animada por uma ponta de ciúme. É verdade que a “mão e o talento” quase acadêmicos de Arikha dificilmente poderiam ser igualados, mas há no trabalho pictórico e, sobretudo, gráfico de Cartier-Bresson, antigo aluno de André Lothe, a qualidade comovente de um artista "desarmado", como dizia Jean Clair, "cujo olhar nu, toda arma deposta, é ainda mais despido sem a proteção da sua máquina fotográfica". Suas paisagens e retratos, seus fragmentos eleitos e enquadrados pelo mesmo olhar extraordinário do Cartier-Bresson fotógrafo, são dissecados e acariciados pelo lápis e pelo pincel que lhes revelam a sua forma subjetiva, o seu caráter mais profundo. Com a dificuldade e a procura que às vezes nos faz até mesmo lembrar Giacometti.

Para Cartier-Bresson, a fotografia era a impulsão espontânea de uma atenção visual perpétua, que segue o instante e a sua eternidade. "O desenho, por sua grafologia, elabora aquilo que a nossa consciência procurou deste instante", dizia. "A foto é uma ação imediata; o desenho, uma contemplação." Era difícil não perceber nessas palavras uma posição orientalista que dá valor à unidade absoluta entre o corpo e o espírito que nos situa no mundo cósmico, na vacuidade que não é o vazio, onde todos os fenômenos são interdependentes (o mundo da contemplação), em detrimento da "ação" ocidental.

Contudo, foi justamente essa sua obsessão e rapidez dos sentidos e do olhar aliados a uma extrema sensibilidade para a imagem, e não exatamente a contemplação, que lhe trouxeram a celebridade. Se a celebridade o incomodava, como ele me confessou, pois tirava a sua liberdade, era sem dúvida apenas no pequeno caderno de croqui que carregava no bolso interno do seu colete que ele encontrava o prazer da "atitude libertária" que o forçava a se "colocar em questão, assim como a sociedade". Num pequeno texto no qual sustentava que em cada um de nós há uma parcela de Buda a cumprir, Cartier-Bresson contou que, após uma entrevista com o dalai-lama, sua mulher - a famosa Martine Frank, fotógrafa 30 anos mais jovem do que ele - concluiu que ele era “um aprendiz budista em turbulência”.


Nos encontramos num café da Rue de Rivoli, a alguns metros da estátua equestre e monumento à Joana d’Arc, que hoje ninguém mais consegue dissociar do partido da extrema direita francesa pois é lá, no dia da santa, que o Front National (FN) se reúne uma vez por ano. Ele já tinha escolhido uma mesa perto da janela e estava sentado, com a famosa bengala encostada numa cadeira. “Você está vendo este bastão? Ele se abre e vira um banquinho que eu posso usar durante mais de meia hora para observar e desenhar no Louvre...” explicou ao perceber o meu olhar sobre o estranho objeto.

O que Cartier-Bresson não podia explicar era o meu olhar sobre ele e sobre o seu rosto que, mesmo marcado, não denotava jamais os seus 87 anos. Devia sentir que eu o perscrutava com curiosidade. Só não sei se desconfiou que eu o estava achando distante, seco e cortante como os contornos de algumas de suas fotografias. De quando em quando, uma pequena arrogância se desenhava numa expressão, um pequeno desprezo em outra, uma indiferença em outra mais, um dissimulado esnobismo aparecia numa frase e finalmente um gesto blasé afivelava uma asserção. A figura nem sempre combinava com a imagem de “aprendiz budista” que ele queria passar... Ora, ele tinha o calor, a generosidade e o colorido de uma fotografia em branco e preto. O que eu estava esperando?

Em 1996 havia mais de 30 livros publicados sobre a obra do mestre, sendo que o último, de Jean-Pierre Montier, L'Art Sans L'Art d'Henry Cartier-Bresson, fora lançado no começo daquele ano pela editora Flammarion. Grande parte daquelas sensações que eu desenvolvia vendo e ouvindo o fotógrafo, sentada à sua frente no café, foram confirmadas quando Cartier-Bresson disparou sobre o trabalho de Montier: "É apenas uma tese, disse ele, não é importante."

Ele tinha colocado a pilha de livros e catálogos da sua obra gráfica e pictórica sobre a mesa. Eu teria preferido que ele não os tivesse trazido. Não pelo peso ou pelo trabalho de levá-los e ter que devolvê-los mais tarde já em seu apartamento, na mesma Rue de Rivoli. Mas porque o pouco do encanto que me restou do nosso encontro - quase que inteiramente envenenado por um mal estar indizível da parte dele em relação à fotografia - foi dissipado de vez quando Martine Frank, uma semana depois, veio me abrir a porta.

Era uma bela mulher. Elegante, fria como o marido e tão apressada que podia fazer um ministro e um entregador de pizza sentirem o mesmo grau de intrusão. “Boa tarde, vim trazer os livros e catálogos de Monsieur Cartier-Bresson... ele está?” “Não está, você pode deixar esse material que eu me encarrego de entregar”. Pela porta entreaberta, vi ao longe o corpo magro do fotógrafo vestido com o seu indefectível colete cáqui cheio de bolsos. A luz do dia refletia-se na sua cabeça calva com poucos cabelos brancos, enquanto ele apoiava-se na janela para olhar o Jardim das Tulherias. Fiz um gesto, indicando que ainda gostaria de falar com ele sobre mais algumas coisas. Tentei argumentar, mas ela arrancou os livros de minha mão e praticamente fechou a porta na minha cara sem esperar resposta: “Au revoir!” Desci as escadas pensando que nunca deveria ter devolvido aqueles malditos livros e catálogos... Depois, pensei que não há mito que resista à propria humanidade.
 


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Trechos da vida glamourosa de S.L. e seus bastidores singulares. As semelhanças com pessoas que existem ou existiram não são fortuitas. Embora não possam ser usados como documentos precisos, todos os fatos relatados são verdadeiros. Exceto certos nomes e lugares, nada foi inventado ou acrescentado e o que foi retirado espera, na gaveta de S.L., o dia de ver a luz. Blog criado no chamado "Dia dos Pais", e dedicado a todos os psicanalistas que a mãe da autora conseguiu enrolar.




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S.L agradece o maravilhoso feedback recebido e anuncia a retirada temporária da caixa de comentários pois, assim como acontece com os livros, a natureza do texto não permite, por motivos óbvios, uma atividade interativa entre autor e leitor. Por outro lado, a autora continua a receber (e a responder, quando possível) as flores de seus leitores no QOC.

Para que não se percam tão importantes comentários, no entanto, eles continuam reproduzidos aqui:

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