Conheci Denys Vasilopoulos, no curso de cinema, quando eu ainda morava no hotel ao lado da cidade universitária. Ele tinha os cabelos lisos, a pele clara e quando sorria com os dentes alvos e regulares, seus olhos semicerravam-se enquanto uma covinha formava-se no canto direito da sua boca. Era o oposto de Jonas, o príncipe húngaro. Denys tinha tudo de um macio e sensual gato plebeu, daqueles que nas noites de lua cheia percorrem os telhados quentes de uma ilha grega à procura de aventuras. Com efeito, ele nascera na ilha de Paros, mas fora educado em Atenas e estava exilado por motivos políticos. Desde 1967, quando um golpe militar colocou no poder uma junta dirigida pelo coronel Georges Papadopoulos, o meu amigo, além de dedicar-se ao cinema documentário, militava clandestinamente em Paris. Apaixonei-me sem vacilar. E quando, nos primeiros dias de agosto, Jonas anunciou por carta que viria me buscar enviei um telegrama:
“Inútil vir. Parto hoje Itália. Não te amo mais”.
Como eu merecia aquelas férias de verão! Paguei a conta e deixei o hotel alegre e definitivamente, certa de que quando voltasse encontraria um lugar melhor para morar. Ah, se eu soubesse que seria com as duas bretãs! Enquanto arrumava livros, rádio, discos e roupas, tudo que possuía, no meu “pote de iogurte” – o qual Denys e eu havíamos combinado conduzir em rodízio - pensava que, afinal, o semestre inteiro cheirara à clausura. Nossos quartos, o Museu do Homem onde estudávamos, as salas de aula em Vincennes, Nanterre, os restaurantes universitários, a cinemateca, o metrô, o
Polly Magoo, as festas alucinantes e mesmo as ruas. Que delícia seria atravessar a França, depois a Suíça e poder respirar o ar dos Alpes para, finalmente, conhecer Florença, Roma e talvez esticar até a Sicília!
Na minha imaginação, aquelas cidades deviam emanar o perfume das flores que eu via nas reproduções da
Primavera e do
Nascimento de Vênus de Botticelli, onde a deusa do amor e da beleza recebe um manto bordado de flores das mãos de uma
Hora. Só depois que passei férias com o meu segundo marido na
Villa d’Este em Cernobbio, mudei de idéia. Hoje, para mim, a Itália possui o perfume das trepadeiras de madressilva com o qual eu ia dormir, despertava e tomava o café da manhã no terraço, ao lado de uma fonte renascentista de sonhos, olhando o lago de Como. Penso que se um historiador construísse apenas a história dos cheiros ele não se afastaria um milímetro da realidade como fazem tantos outros que se dizem “cientistas”!
Nada, por exemplo, exalava odor mais fétido do que a cinemateca de Paris. De todos os “claustros fedorentos”, aquele era a pior. Somente a gratuidade dela e o nosso amor ao cinema podia explicar um tal sacrifício. Jovens "marxistas aspirantes" que éramos, sem igreja ou sinagoga, dando valor apenas ao intelecto muito antes de freqüentar o luxo do grande mundo, a cinemateca era o nosso fausto e sagrado templo. O lugar onde “rezávamos” diariamente depois dos cursos, assistindo a todas as sessões que pudéssemos – às vezes mesmo sem pausa para uma refeição - até a hora do último metrô.
Eisenstein, Griffith, Chaplin, Buster Keaton, Jean Renoir, Orson Welles, John Ford, as imagens desfilavam enquanto analisávamos cada movimento da câmera, lance de direção, fotografia, etc, e isto sempre com deleite e uma emoção da descoberta que jamais se repetiria em nossas vidas. Sentíamo-nos poderosos, como se ninguém além de nós chegasse a um “tal conhecimento e a uma tal compreensão da vida e do cinema”. Só hoje sei o quão pouco sabíamos e o quanto reduzido era o nosso entendimento...
Além das imagens, sucediam-se as celebridades que sentavam-se a alguns metros de nós. Henri Langlois, o diretor da cinemateca, estava sempre lá. Ao lado dele, de tempos em tempos, via-se uma atriz, um cineasta ou um ator famoso. Com a febre do
Cinema novo, não só assistimos a todos os filmes de Glauber Rocha, Ruy Guerra, Cacá Diegues, Paulo Cesar Saraceni, Walter Lima Jr. e Nelson Pereira dos Santos, como avistamos alguns deles, sobretudo os dois primeiros, várias vezes na platéia. Nos intervalos discutíamos a idéia de “uma câmara na mão e uma idéia na cabeça” de Glauber, acreditando que isso mudaria o mundo! De um lado eu lia com horror as notícias sobre a ditadura no Brasil no jornal
Le Monde, de outro vibrava quando saía algo sobre o cinema brasileiro na
Cahiers du Cinéma.
Tanto que, um dia, quando eu tomava um cafezinho num self-service universitário perto do bulevar Saint Germain, aceitei conversar com um rapaz apenas porque ele disse que era crítico daquela revista. Vejo-me ainda de minissaia, capa-de-chuva e botas, dando longas baforadas no meu
Gauloise, agitando os cílios à maneira de Twiggy, as pernas cruzadas e os longos cabelos loiros saindo do chapéu em feltro vermelho de abas que possuo até hoje. Não foi à toa que ele se apresentou e pediu para sentar: “Gilbert, muito prazer!”. Quando eu disse que era brasileira e estudante de cinema, então, o rapaz quase despencou da cadeira.
As suas três armas de sedução não podiam ser melhores:
Deus e o Diabo na Terra do Sol,
Terra em Transe e
Barravento*. Gostei bastante quando ele começou a discorrer sobre a importância da “estética da fome” contra o “formalismo burguês”. Segundo o rapaz, em pouco tempo a revista romperia com os “últimos laços capitalistas” e, sob os auspícios de Mao, da cultura do proletariado e do materialismo histórico, ela se tornaria... vermelha como o meu chapéu!
Ele não tinha mentido. Não só era crítico com alta posição no expediente da
Cahiers du Cinéma, como me levou à redação da revista e me apresentou, um a um, todos os colaboradores da época que já anunciavam situar-se “fora da atualidade burguesa”. Foi assim que apertei a mão de Jean-Luc Godard, saudei o “chefe capitalista” Daniel Filippachi (proprietário da publicação que, evidentemente, caiu fora algum tempo depois), tomei café com Jean-Louis Comolli e conheci Marina Vlady. Hoje, eu mesma custo a acreditar com que naturalidade e falta de apreensão eu conversava com todos.
Como em todas as histórias de amor, Chico Buarque que o diga e cante, o meu amigo Gilbert parecia apaixonado por mim que estava apaixonada por Denys que estava apaixonado por... E isso enquanto todo mundo descobria Andy Warhol e John Cassavettes, publicava-se os textos de Sergueï Mikhailovitch Eisenstein, o que fazia não só com que a teoria e a leitura marxista-leninista não conseguisse ficar de pé como se minimizasse a importância dos namoros. Naturalmente, o meu amigo Gilbert preferia a rígida postura universitária à nossa "velha cinefilia de cinemateca". Ele me dizia:
- Chega de ficar sentada naquela sala de projeção e estude mais! O legal é poder analisar
Intolerância de Griffith plano por plano ou uma seqüência inteira do
Os Pássaros de Hitchcock em vez de ficar se extasiando diante dos filmes!
Hoje, eu que não gosto especialmente de Truffaut, até entendo porque que no ano seguinte ele deixou aquela redação que eu visitava tão regularmente para encontrar Gilbert e os seus amigos. Gostei do que ele escreveu em seguida: “A leitura da revista está ficando proibida a qualquer um que não seja universitário. Quanto a mim, jamais li uma só linha de Marx”. Deve ser por isso que até meados dos anos 70, o Gilbert não conseguiu mais do que três mil gatos pingados como assinantes... Pena que não conheci Serge Daney que foi quem redescobriu o "prazer" do cinema e salvou a revista. Mas àquelas alturas eu já tentava trabalhar como assistente e escrever sobre cinema no Brasil...
Não sei o que Gilbert pensou quando desapareci para ir à Itália. Com a viagem eu queria não só escapar da passividade e diletantismo diante dos livros e dos filmes, coisa que ele tanto reprovava. Desejava sobretudo esquecer que ele, o cinema e a literatura existiam, convencendo-me de que a tela descortinada da existência era a única realidade possível. Cinema, livros e Gilbert – fora o cheiro deles mesmos, sendo que o perfume do meu amigo não era muito diferente da cinemateca - não têm odor do manto bordado de Botticelli! Não têm perfume de vida! E lá vamos nós!
Que belo e inesquecível percurso! Atravessar os Alpes com um “deus grego” dentro de um “pote de iogurte” foi, para mim, algo tão memorável e heróico que consegui até mesmo me sentir na pele, não de Giuseppe, mas de Anita Garibaldi. Ao atravessarmos Lugano, no entanto, quando paramos arrebatados para olhar o lago uma primeira pontada no lado direito do baixo-ventre me alertou que algo estava errado. Já no camping em Florença a febre subia enquanto eu observava a cidade do alto e depois o céu e as estrelas no meu saco de dormir. E praticamente não conseguia mais ficar de pé, quando chegamos a Roma e encostamos o carro em frente a um café.
Mas o pior de tudo aconteceu depois que pagamos as nossas deliciosas
orzatas, saímos à rua e o "pote de iogurte" não estava mais lá... Denys, para quem "férias não eram ficar sem carro e com uma companheira doente", comprou um bilhete de avião e no dia seguinte voou para a Sicília deixando-me sozinha, dolorida e fechada num quarto do
Albergo del Sole, entre o
Campo de Fiori e a
Piazza Navona...
O que fazer agora? E depois? Continuarei apaixonada? Conseguirei fugir das feras bretãs? Aguarde o próximo capítulo!!
*
Deus e o Diabo na Terra do Sol,
Terra em Transe e
Barravento: filmes de Glauber Rocha