24
Alguém que, como Madalena, é capaz de compreender o universo só pode desculpar os erros que pertencem ao mundo. Ou, pelo menos, cometê-los e conviver com os desacertos alheios sem que os resultados lhe deixem marcas. Se nós, Terence e eu, compreendêssemos melhor as nuanças e os amálgamas da espécie humana, lá onde sentimentos e apreciações diversas, até mesmo as contraditórias, se misturam, certamente não passaríamos por um milésimo do que sofremos. Mas, qual jovem ou criança possui esta aptidão?
Com todo o fasto, alegria aparente, esplendor da cultura e história que nos cercavam, fundamentalmente, assim como os demais seres humanos, não podíamos ser felizes. Bastava sairmos da brilhante estrutura social para nos encontrarmos de imediato face à nossa própria vida e sobretudo à pesada e sombria realidade dos nossos próximos.
Esta traduzia-se pelos mais diferentes comportamentos e reações. Uma delas foi ouvirmos, à propósito de alguma ordem que nos recusávamos a obedecer, a acusação de que “eramos culpados pela morte do nosso avô”! Nós e, portanto, em nossa imaginação, Gica também. Mas como e porque Gica, Terence e eu tínhamos matado o meu avô? Minha mãe também era desobediente como nós? Desobedecer dava câncer nos outros? Se tivéssemos compreendido que os labirintos da dor levam a palavras ou atitudes impensadas e nem sempre justas, aquela incriminação teria sido esquecida. Não foi. Depois de uma infância turbulenta e de várias visitas ao consultório do Sumaré, onde a corpulenta doutora Judith, célebre psicóloga infantil alemã diagnosticou uma “fantasiosa culpabilização pela separação dos nossos pais”, coisa que, aliás, ocorre com a maior parte das crianças, era impossível arcar com uma “culpa a mais”.
Eu que já tinha nascido assustada (talvez por causa daquela perda de altitude do avião onde meus pais viajavam ou simplesmente porque, na barriga de minha mãe, fui cúmplice da desventurosa gravidez que Abe fez Gica passar) não precisava de sustos suplementares. Nasci tão amedrontada, que, até das festas com palhaço, eu fugia. Uma vez, contaram-me, foram me achar várias esquinas longe da casa de uma amiguinha que festejava o seu aniversário... Em outra ocasião, e desta lembro-me bem, ao ver uma menina defeituosa, certamente por causa dos efeitos devastadores (e até então desconhecidos) da talidomida, desabalei novamente pela rua parando apenas para me jogar nas almofadas do terraço onde fiquei muito tempo olhando o céu. Procurar configurações reconhecíveis nas nuvens era a única maneira de acalmar o horror que me davam as formas desconhecidas.
Penso que, assim como os psicanalistas criam-se a partir da própria neurose (precisam sofrer mentalmente o suficiente para procurar ajuda e tornarem-se eles mesmos terapeutas), alguns críticos de arte provavelmente devem se formar tomando por base o desafio de conformações não raro estranhas à sua sensibilidade. Analisar o incógnito é uma forma de enfrentar o medo que ele causa. No futuro, talvez eu sentisse que era muito perigoso entrar na subjetividade das obras - colocar em confronto as minhas particularidades e a dos artistas - sem instrumentos contemporizadores da mediação crítica como, entre outros, a língua, história, filosofia, semiologia e mesmo a psicanálise...
Mas as nossas desditas, minhas e de Terence, não paravam ai. Além das repreensões habituais geralmente inofensivas, havia também as manifestações de medo excessivo em relação a tudo que nos cercava e um controle exagerado, sobretudo de meus passos. Até o simples ato de fazer uma chapa de pulmão no Grande Hotel era acompanhado de advertências: “Veja onde entra! Teve uma hóspede que foi importunada por um garçom!”.
Comida, vento, pessoas. Tudo era perigoso. Como Gica não estava lá para nos afastar dos perigos do mundo e Abe tampouco, não raro meus tios eram chamados à casa de minha avó para os interinar. O que terminava invariavelmente em tapas e lágrimas. Rudolf era gentil e carinhoso quando me deixava trocar as marchas e ouvir João Gilberto no rádio da sua Romi-Isetta. Porém, se eu insistisse em voltar fora da hora permitida ele podia transformar-se em prepotente e antipático sentinela de Felícia.
Talvez fosse por estas razões que enquanto moramos com ela e já não dormíamos mais no mesmo quarto (que ficou para mim), Terence fechava-se na pequena peça dos fundos que dava para o jardim e, quando não estudava, escrevia ou desenhava, descarregava o humor dele na bateria que ficava no ateliê de nossa avó. Mais tarde, até a tentativa de fazê-lo interessar-se pelo trabalho na indústria Ponto-e-Lã foi em vão. Não demorou para que, um belo dia, ainda adolescente, ele mudasse para um apartamento no centro da cidade. Não sei porque nunca o visitei naquele estúdio, mas creio que Gica levou um susto quando viu que o seu filho havia forrado as paredes com as fotos petulantes que tirava das “modelos” encontradas na sua nova vida de boêmio precoce na noite paulista. Ainda falarei das andanças e aventuras de Terence em São Paulo, Nova York e Londres, enquanto aluno de Jerzy Grotowski em teatro; e depois, em Chicago e Barcelona, já como escritor e brilhante vice-presidente de uma multinacional americana. Terence é o que se pode chamar de um bem sucedido self-made-man. Afinal, irmão meu que ele era, não podia ter uma vida menos glamourosa do que a minha!
Na adolescência, entretanto, apesar da minha crescente popularidade, sobretudo depois que fui eleita “Miss Colégio Rio Branco” – saindo na capa da revista O Ribran - o glamour da minha vida era bastante contraditório. É preciso dizer que, aos 16 anos, o meu quarto na casa da rua Guadelupe fora decorado com vários cartazes, entre os quais um dos Beatles (em tamanho real) que eu havia trazido de Nova York, a primeira cidade estrangeira que conheci. Além disso, acrescera-se de uma antecâmara com biblioteca e escrivaninha onde eu recebia as amigas para estudar.
Eu tinha dezenas de “amigas íntimas”. As únicas que não vinham para estudar eram Marion Sabsay, Paulete Bernfeld, as duas “irmãs da juventude” e Georgia Abensur, que havia casado aos 16 anos. Esta vivia trancada em casa pelo marido, cercada de bonecas, e eu a visitava às escondidas. Naquela época, a loira Marlene Dumbstein eu só encontrava no Guarujá. Com as quatro, nada de estudo, apenas cumplicidade.
Georgia fugiu de casa, desabrochou e transformou-se em pintora de renome. No tempo da repressão, Marion, neta de um magnata do papel, entrou para a Vanguarda Popular Revolucionária e tornou-se guerrilheira urbana. Na casa dela, estive presente ao casamento do Capitão Petrarca com Yoná Sterenberg que, alguns anos depois foram assassinados. Minha amiga foi presa e torturada junto com o irmão dela, acusado pelo seqüestro de um diplomata estrangeiro e pela explosão de um restaurante na zona sul de São Paulo. Em seguida fugiu e viveu um bom tempo como exilada política em Londres, enquanto eu me mortificava pelo fato de minha avó não ter permitido que se escondesse em nossa casa. Apenas hoje, mesmo se as “conseqüências” previstas por Felícia me parecessem um pouco fantasiosas, admito que teve razão em querer proteger a família:
- Eu sei o que é ser um imigrante, dizia minha avó. Se descobrirem a sua amiga aqui em casa, seremos obrigados a deixar o país...
Por outro lado, Paulete, irmã do meu futuro noivo, ela que eu adorava pela vivacidade, elegância e personalidade, cometeu dois erros de antecipação. Casou-se cedo demais com um judeu sefardim (contra a vontade de seus pais ashkenazi) e morreu também precocemente, deixando filhos pequenos, no desastre de um automóvel luxuoso que, como sempre, era veloz e imprudentemente conduzido por ele.
E a loira Marlene - órfã de mãe, mimada até às orelhas pelo pai - jewish princess do dedinho do pé até as sobrancelhas, abandonou os estudos, renunciou à "alfabetização" e às letras, fez um rápido cursinho de cinema e foi tentar ser cineasta e fotógrafa em Nova York. Nesta cidade – interesseira e sempre dependente de assistentes e empregados que, por falta de competência pessoal, pagava a preço de ouro - casou-se ou ligou-se várias vezes, todas elas com homens célebres (e ricos) do cinema e das artes. Tenho muitas, muitas histórias a contar sobre a minha vida em São Paulo, Nova York e Veneza com a tola e generosa Marlene Dumbstein. Bem além do Guarujá...
Quanto ao glamour contraditório da rua Guadelupe, o meu armário estava abarrotado de vestidos que tinham servido de padrão à linha de produção da Ponto-e-Lã, ostentava um casaco de pele de castor e uma gaveta de jóias. Aos 18 anos ganhei até mesmo um fusca "café-com-leite" de Felícia. Eu organizava as minhas festinhas de aniversário e de São João mobilizando todos os empregados da casa. A cozinha de minha avó cheirava a coco, abóbora e açúcar que a pesada e retinta Benedita, tia de Amélia, preparava para os meus jovens convidados.
Apesar dos seus quitutes divinos, eu não gostava daquela beata pois sabia o quanto a sobrinha sofria com a beatice dela. Parecia que a devoção fingida da cozinheira só servia para perseguir a minha querida Amélia. Benedita insultava: “Rameira pinguça! É isso que você é! Decaída! Boa bisca pros seus negos! Gritava correndo atrás de Amélia que ia se esconder chorando no cubículo rosa e rendado, cheirando a pó-de-arroz e remédio inseticida em cima da garagem. Quando não ia consolá-la, dirigia-me sem demora ao quarto de Felícia para reclamar. “Vovó, a Benedita está torturando a Amélia de novo! Faça alguma coisa!”
- “Sheila, não se meta!”.
E, antes de recolocar o nariz em algum dos tomos de Em busca do tempo perdido, dizia:
- “Filhinha (era assim que a minha avó me chamava) você vai me prometer uma coisa...”
- “Pronto, agora ela vai me pedir de novo para não conversar com as empregadas”, pensava eu.
- Você vai me prometer... mas, tem que dar a sua palavra mesmo, viu? Que lerá Proust, do começo ao fim! Promete?
Decididamente. A minha avó não pertencia ao mundo dos mortais... Prometi. Ainda não cumpri, mas prometi. E voltei para a organização da minha festa pensando que o glamour da minha vida não era contraditório por causa dos qüiproquós com as empregadas ou dos acontecimentos inesperados com as minhas amigas e o meu irmão. O problema é que, com tudo aquilo, eu nunca tinha um tostão no bolso. À minha prima Jeanine – que me escutava atônita – eu dizia: “Fora algumas lembranças, não vou ter nada meu. Não sou mimada, não senhora! Sei o que é ser rico, mas é porque estou viajando na vida dos Leirner ‘de carona’!”
Logo, como ninguém se lembrava que, diferentemente de um pequeno, querido e lindo animal doméstico, eu precisasse talvez de um dentista, de um médico ou simplesmente de alguns trocados para as minhas necessidades terrenas, para que serviam as jóias da gaveta? Sem que ninguém soubesse, vendi todas, uma a uma. Teria vendido mais ainda se as tivesse, àquele joalheiro espertalhão da rua Augusta. E foi apenas para comprar... biquínis!