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Penso que na época em que meus pais se separaram ainda não havia divórcio, pois as expressões que eu mais ouvia eram "desquite amigável" e “"desquite litigioso", sendo esta última a mais freqüente. "Juíz", "advogado", "testemunha", "petição", "audiência" também eram as palavras mais repetidas nas conversas familiares. Meus avós maternos de um lado, meu pai e avós paternos de outro, todos pareciam organizar uma grande ação militar onde iriam, finalmente, se enfrentar. Nós e nossa mãe, esperávamos.
Tive conhecimento de que haveriam audiências decisivas com relação ao nosso destino, o de Terence e o meu. Dependendo delas, saberíamos com qual deles iríamos ficar. Testemunhas eram arroladas dos dois lados. Da parte de minha mãe, estavam escritores, artistas, intelectuais. Do grupo do meu pai, faziam parte pessoas que viviam o nosso dia-a-dia mas que "certamente estavam sendo compradas" como eu escutava dizer: a governanta, as empregadas, os dois israelenses que trabalhavam na fazenda de Mato Grosso e outros mais. Nunca entendi a maior parte das acusações e também não compreendi porque a mentira era pecado para crianças, uma vez que certos adultos não faziam outra coisa.
Abe, no entanto, havia decidido secretamente com um famoso desembargador, seu advogado, que as mais importantes testemunhas seríamos nós, meu irmão e eu. Aos 9 e 12 anos, respectivamente. Assim, em vez de nos proteger dos problemas da vida adulta nos expôs diretamente a eles, usando-nos como escudos. À força de influência, chantagem emocional, e mesmo ameaças, empenhou-se em nos treinar às escondidas, sem que nós mesmos percebêssemos, para aquele depoimento. Gradualmente o nosso futuro, passou a depender apenas de nós. Dependendo de contra quem testemunhássemos, era com o favorecido que iríamos ficar.
Assim, como em todas as sextas-feiras alternadas, Abe veio nos buscar no novo apartamento de minha mãe. Estávamos de férias mas, como o que ficou combinado era voltarmos no domingo, levamos poucas roupas. Na minha cabeça, o programa já estava feito. No sábado, depois de brincar de índio, certamente iríamos à lanchonete “Bon Voyage”. Era uma espécie de nave espacial à beira de uma estrada na zona oeste de São Paulo, decorada ao estilo dos anos 60 e parecia ter saído de uma tela de Edward Hopper. Lá pediríamos “Banana Split” ou “Ice-cream soda”. Se não, com certeza iríamos ao cine Paulista e depois, ao lado, à outra lanchonete que adorávamos, para comer cachorro-quente e batatas chips numa embalagem riscada de papelão.
Não foi o que aconteceu. Abe resolveu nos levar à Sears Roebuck, (provavelmente a loja que mais se parecia na época com os “department store” americanos) onde fomos abastecidos de um guarda-roupa completo de verão e apetrechos de praia. Não sei se achei estranho ou agradável o contato com o tecido de algodão das saias e blusas coloridas que ele escolheu. Estava inquieta e lembro daquele cheiro de goma até hoje. Mas como Terence parecia contente, isso me deixava mais sossegada.
Na volta, talvez porque pressenti que algo estava fora dos eixos, pedi para telefonar à minha mãe. Junto com o diagnóstico dos médicos que 35 anos depois entregaram-me o meu filho em coma, penso que a resposta de meus avós foi a pior que ouvi em minha vida: daquele dia em diante eu não poderia mais me comunicar com ninguém. Partiríamos para longe, lugar sobre o qual falarei em seguida. Assustados e chorosos, presenciamos a movimentação. A minha preocupação maior era com Gica. Sabia que ela ficaria desesperada. Abe e meus avós prepararam as malas e objetos que, tanto quanto nós, foram enfiados no carro. Ficamos incomunicáveis durante 21 dias sendo que apenas no penúltimo tomei conhecimento de que sairíamos cedo do nosso cativeiro para ir, diretamente, depor no Tribunal de Justiça.