Hot Memories
Quarta-feira, Maio 17, 2006
  38
Campo de Fiori, da janela.
Conheci Denys Vasilopoulos, no curso de cinema, quando eu ainda morava no hotel ao lado da cidade universitária. Ele tinha os cabelos lisos, a pele clara e quando sorria com os dentes alvos e regulares, seus olhos semicerravam-se enquanto uma covinha formava-se no canto direito da sua boca. Era o oposto de Jonas, o príncipe húngaro. Denys tinha tudo de um macio e sensual gato plebeu, daqueles que nas noites de lua cheia percorrem os telhados quentes de uma ilha grega à procura de aventuras. Com efeito, ele nascera na ilha de Paros, mas fora educado em Atenas e estava exilado por motivos políticos. Desde 1967, quando um golpe militar colocou no poder uma junta dirigida pelo coronel Georges Papadopoulos, o meu amigo, além de dedicar-se ao cinema documentário, militava clandestinamente em Paris. Apaixonei-me sem vacilar. E quando, nos primeiros dias de agosto, Jonas anunciou por carta que viria me buscar enviei um telegrama:

“Inútil vir. Parto hoje Itália. Não te amo mais”.

Como eu merecia aquelas férias de verão! Paguei a conta e deixei o hotel alegre e definitivamente, certa de que quando voltasse encontraria um lugar melhor para morar. Ah, se eu soubesse que seria com as duas bretãs! Enquanto arrumava livros, rádio, discos e roupas, tudo que possuía, no meu “pote de iogurte” – o qual Denys e eu havíamos combinado conduzir em rodízio - pensava que, afinal, o semestre inteiro cheirara à clausura. Nossos quartos, o Museu do Homem onde estudávamos, as salas de aula em Vincennes, Nanterre, os restaurantes universitários, a cinemateca, o metrô, o Polly Magoo, as festas alucinantes e mesmo as ruas. Que delícia seria atravessar a França, depois a Suíça e poder respirar o ar dos Alpes para, finalmente, conhecer Florença, Roma e talvez esticar até a Sicília!

Na minha imaginação, aquelas cidades deviam emanar o perfume das flores que eu via nas reproduções da Primavera e do Nascimento de Vênus de Botticelli, onde a deusa do amor e da beleza recebe um manto bordado de flores das mãos de uma Hora. Só depois que passei férias com o meu segundo marido na Villa d’Este em Cernobbio, mudei de idéia. Hoje, para mim, a Itália possui o perfume das trepadeiras de madressilva com o qual eu ia dormir, despertava e tomava o café da manhã no terraço, ao lado de uma fonte renascentista de sonhos, olhando o lago de Como. Penso que se um historiador construísse apenas a história dos cheiros ele não se afastaria um milímetro da realidade como fazem tantos outros que se dizem “cientistas”!

Nada, por exemplo, exalava odor mais fétido do que a cinemateca de Paris. De todos os “claustros fedorentos”, aquele era a pior. Somente a gratuidade dela e o nosso amor ao cinema podia explicar um tal sacrifício. Jovens "marxistas aspirantes" que éramos, sem igreja ou sinagoga, dando valor apenas ao intelecto muito antes de freqüentar o luxo do grande mundo, a cinemateca era o nosso fausto e sagrado templo. O lugar onde “rezávamos” diariamente depois dos cursos, assistindo a todas as sessões que pudéssemos – às vezes mesmo sem pausa para uma refeição - até a hora do último metrô.

Eisenstein, Griffith, Chaplin, Buster Keaton, Jean Renoir, Orson Welles, John Ford, as imagens desfilavam enquanto analisávamos cada movimento da câmera, lance de direção, fotografia, etc, e isto sempre com deleite e uma emoção da descoberta que jamais se repetiria em nossas vidas. Sentíamo-nos poderosos, como se ninguém além de nós chegasse a um “tal conhecimento e a uma tal compreensão da vida e do cinema”. Só hoje sei o quão pouco sabíamos e o quanto reduzido era o nosso entendimento...

Além das imagens, sucediam-se as celebridades que sentavam-se a alguns metros de nós. Henri Langlois, o diretor da cinemateca, estava sempre lá. Ao lado dele, de tempos em tempos, via-se uma atriz, um cineasta ou um ator famoso. Com a febre do Cinema novo, não só assistimos a todos os filmes de Glauber Rocha, Ruy Guerra, Cacá Diegues, Paulo Cesar Saraceni, Walter Lima Jr. e Nelson Pereira dos Santos, como avistamos alguns deles, sobretudo os dois primeiros, várias vezes na platéia. Nos intervalos discutíamos a idéia de “uma câmara na mão e uma idéia na cabeça” de Glauber, acreditando que isso mudaria o mundo! De um lado eu lia com horror as notícias sobre a ditadura no Brasil no jornal Le Monde, de outro vibrava quando saía algo sobre o cinema brasileiro na Cahiers du Cinéma.

Tanto que, um dia, quando eu tomava um cafezinho num self-service universitário perto do bulevar Saint Germain, aceitei conversar com um rapaz apenas porque ele disse que era crítico daquela revista. Vejo-me ainda de minissaia, capa-de-chuva e botas, dando longas baforadas no meu Gauloise, agitando os cílios à maneira de Twiggy, as pernas cruzadas e os longos cabelos loiros saindo do chapéu em feltro vermelho de abas que possuo até hoje. Não foi à toa que ele se apresentou e pediu para sentar: “Gilbert, muito prazer!”. Quando eu disse que era brasileira e estudante de cinema, então, o rapaz quase despencou da cadeira.

As suas três armas de sedução não podiam ser melhores: Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe e Barravento*. Gostei bastante quando ele começou a discorrer sobre a importância da “estética da fome” contra o “formalismo burguês”. Segundo o rapaz, em pouco tempo a revista romperia com os “últimos laços capitalistas” e, sob os auspícios de Mao, da cultura do proletariado e do materialismo histórico, ela se tornaria... vermelha como o meu chapéu!

Ele não tinha mentido. Não só era crítico com alta posição no expediente da Cahiers du Cinéma, como me levou à redação da revista e me apresentou, um a um, todos os colaboradores da época que já anunciavam situar-se “fora da atualidade burguesa”. Foi assim que apertei a mão de Jean-Luc Godard, saudei o “chefe capitalista” Daniel Filippachi (proprietário da publicação que, evidentemente, caiu fora algum tempo depois), tomei café com Jean-Louis Comolli e conheci Marina Vlady. Hoje, eu mesma custo a acreditar com que naturalidade e falta de apreensão eu conversava com todos.

Como em todas as histórias de amor, Chico Buarque que o diga e cante, o meu amigo Gilbert parecia apaixonado por mim que estava apaixonada por Denys que estava apaixonado por... E isso enquanto todo mundo descobria Andy Warhol e John Cassavettes, publicava-se os textos de Sergueï Mikhailovitch Eisenstein, o que fazia não só com que a teoria e a leitura marxista-leninista não conseguisse ficar de pé como se minimizasse a importância dos namoros. Naturalmente, o meu amigo Gilbert preferia a rígida postura universitária à nossa "velha cinefilia de cinemateca". Ele me dizia:

- Chega de ficar sentada naquela sala de projeção e estude mais! O legal é poder analisar Intolerância de Griffith plano por plano ou uma seqüência inteira do Os Pássaros de Hitchcock em vez de ficar se extasiando diante dos filmes!

Hoje, eu que não gosto especialmente de Truffaut, até entendo porque que no ano seguinte ele deixou aquela redação que eu visitava tão regularmente para encontrar Gilbert e os seus amigos. Gostei do que ele escreveu em seguida: “A leitura da revista está ficando proibida a qualquer um que não seja universitário. Quanto a mim, jamais li uma só linha de Marx”. Deve ser por isso que até meados dos anos 70, o Gilbert não conseguiu mais do que três mil gatos pingados como assinantes... Pena que não conheci Serge Daney que foi quem redescobriu o "prazer" do cinema e salvou a revista. Mas àquelas alturas eu já tentava trabalhar como assistente e escrever sobre cinema no Brasil...

Não sei o que Gilbert pensou quando desapareci para ir à Itália. Com a viagem eu queria não só escapar da passividade e diletantismo diante dos livros e dos filmes, coisa que ele tanto reprovava. Desejava sobretudo esquecer que ele, o cinema e a literatura existiam, convencendo-me de que a tela descortinada da existência era a única realidade possível. Cinema, livros e Gilbert – fora o cheiro deles mesmos, sendo que o perfume do meu amigo não era muito diferente da cinemateca - não têm odor do manto bordado de Botticelli! Não têm perfume de vida! E lá vamos nós!

Que belo e inesquecível percurso! Atravessar os Alpes com um “deus grego” dentro de um “pote de iogurte” foi, para mim, algo tão memorável e heróico que consegui até mesmo me sentir na pele, não de Giuseppe, mas de Anita Garibaldi. Ao atravessarmos Lugano, no entanto, quando paramos arrebatados para olhar o lago uma primeira pontada no lado direito do baixo-ventre me alertou que algo estava errado. Já no camping em Florença a febre subia enquanto eu observava a cidade do alto e depois o céu e as estrelas no meu saco de dormir. E praticamente não conseguia mais ficar de pé, quando chegamos a Roma e encostamos o carro em frente a um café.

Mas o pior de tudo aconteceu depois que pagamos as nossas deliciosas orzatas, saímos à rua e o "pote de iogurte" não estava mais lá... Denys, para quem "férias não eram ficar sem carro e com uma companheira doente", comprou um bilhete de avião e no dia seguinte voou para a Sicília deixando-me sozinha, dolorida e fechada num quarto do Albergo del Sole, entre o Campo de Fiori e a Piazza Navona...

O que fazer agora? E depois? Continuarei apaixonada? Conseguirei fugir das feras bretãs? Aguarde o próximo capítulo!!

*Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe e Barravento: filmes de Glauber Rocha
 
Quarta-feira, Abril 19, 2006
  37
Encontro de Frank Zappa com Pink Floyd no Festival de Amougies, 1969
Interstellar Overdrive: antológico encontro de Frank Zappa com Pink Floyd no dia 25 de outubro de 1969. Amougies, Bélgica.

Porque um restaurante belga tinha paredes tão altas com imagens espanholas em tons pastéis? O que pensariam os donos do lugar ao verem que a fumaça e o odor de incenso davam aos corpos deitados uma languidez sensual? Provavelmente o mesmo que a velhinha, dona da única hospedaria de Amougies. Ela confessara a um de nossos amigos que os jovens a decepcionavam: “eles não gostam mais de sopa!”

Enquanto eu desdobrava o papel timbrado com o símbolo da Polícia nacional, lembrava - ainda mais, talvez, do que a própria música - a maneira como nos havíamos amontoado jogando os sacos de dormir sobre o piso aquecido do grande salão com lareira atrás do bistrô, por certo reservado às festas familiares do vilarejo. Praticamente não conversávamos. A nossa solidariedade revelava-se apenas por meio de gestos, sob sons de flauta e guitarra. Eramos, afinal, "a grande e unida família" que certamente nenhum de nós havia encontrado em sua própria casa.

Fernanda, Jeanne e eu felicitávamo-nos pela nossa decisão de não ter saído muito tarde da enorme tenda neste primeiro dia do Festival, onde a maior parte dos espectadores já dormia, mesmo sob os acordes feéricos de um dos grupos de rock. Os mais abastados reservaram o pequeno hotel, mas o nosso intento de encontrar abrigo e calor estava plenamente satisfeito naquele salão coletivo onde não pagamos mais do que alguns francos para descansar e nos aquecer. Durante quatro noites milhares de jovens distribuiriam-se entre este restaurante, o salão de festas da prefeitura, a igreja e as casas em construção.

Ao observar as duas bretãs convencionais sentadas à minha frente com os seus lenços de seda no pescoço, eu pensava naquele vilarejo de 400 habitantes invadido por seres estranhos vindos de todas as partes da Europa, em peregrinação quase bíblica, apenas para ver e ouvir os deuses da música contemporânea. Lembrava sobretudo do longo caminho no prado entre a cidade e a tenda do Festival. Formávamos uma pequena multidão a se deslocar naquele verde apenas permeado por manchas brancas as quais, quando nos aproximávamos, transformavam-se em vacas.

Chapéus, sinos, colares de contas, lenços e roupas coloridas, peitos nus, pés descalços... As indas e vindas do concerto compunham um cortejo solene e ao mesmo tempo jubiloso. Mas o ritmo era sempre lento. Talvez porque fizesse frio demais, talvez porque fumássemos demais. Da tenda já se ouviam os acordes amplificados pela aparelhagem e por alto-falantes espalhados em todos os cantos. Quando chegamos e nos acomodamos, escrevi em meu caderno: “Tudo preparado: droga ingerida, coração aberto, o sorriso e a flor para oferecer. Sem tropeços, sem pressa, acabamos de nos espalhar em volta do palco de luz. Estamos próximos da cena. Em poucos instantes a viagem ao mundo dos sons começará. Uma viagem infinita...”.

O segundo dia do festival de Amougies foi inesquecível! Logo cedo, o sol mal se levantara, chegaram os caminhões de leite. As duas únicas lojas estavam apinhadas pelos que tentavam obter um chocolate ou uma lata de biscoitos. Via-se centenas de figuras espalhadas pelo campo com garrafas de leite nas mãos. Uma fila estendia-se no local onde havia água para despertar os rostos entorpecidos pela noite mal dormida. Com a mesma escova de dentes alguns tentavam tirar o hálito viscoso de fumo e bebida.

Na sala do bistrô restavam os esquecidos de si. Estes ainda tocavam flauta e se beijavam. Tudo era partilhado ou oferecido dentro de uma atmosfera absoluta de amor e boa vontade. Como se as fronteiras da individualidade, assim como a música, servissem apenas de caminho para a aproximação entre as pessoas. Ilusão ou realidade, depois destes dias, jamais viveríamos a mesma experiência em nossas vidas...

Alguém acendeu uma fogueira perto de uma das casas em construção onde acabaríamos ficando naquela noite. Avistamos Carlinhos, companheiro carioca de Polly Magoo. Este saíra de família milionária para procurar o próprio rumo. Deixara para trás muito mais do que nós, razão pela qual o admirávamos em segredo. Ele acenou da porta. Andamos até encontrar um esconderijo onde pudéssemos acender calmamente os nossos cigarros. Sentados sobre materiais de construção, vasculhamos os bolsos e nada. Nem um resquício de papel. Mas o cigarro era essencial! O que faríamos?

Fernanda estalou os dedos como quem lembrava de algo e rapidamente procurou na bolsa a carta que o pai lhe enviara dias antes. Rasgou um pedaço e entregou a Carlinhos. Este enrolou um cigarro gordo e branco que fumamos com langor, devagar. Sem remorso algum em queimar o papel aéreo com os garranchos queixosos que o médico laboratorista rabiscou para a filha. Pensei naquela letra. Ela desobedecia os riscos paralelos do papel que fumávamos da mesma forma como o pai de Fernanda desobedecia os “riscos paralelos” de sua relação simbiótica com a filha... Sorri, quando ela me passou o toco do cigarro ao qual, depois de dar uma profunda tragada segurando bem a respiração, apliquei um peteleco.

Frank Zappa & Captain Beefheart
Frank Zappa recebe Captain Beefheart
no Festival de Amougies. 1969, Bélgica.

Eram 4 horas. Novos acordes anunciavam que o espetáculo recomeçava. Ao longe vislumbrávamos o mesmo séqüito que reiniciava a sua passagem. Esta noite teremos Pink Floyd! Exclamamos e começamos a correr. Enquanto nos deslocávamos os nossos movimentos iam ficando cada vez mais lentos até o momento em que o ritmo do cortejo e o nosso fizeram-se totalmente sincrônicos. Flutuávamos numa estrada verde infinita, cheia de luz, sentindo-nos cercados por seres divinos e adoráveis. Entreolhávamo-nos sorrindo:

- Fernanda, veja! Fiz um sinal com a cabeça em direção à Jeanne que caminhava com os olhos semi-abertos.

Carlinhos abriu a página de uma grande revista em tons vivos. Aquele gesto foi mais forte do que o sol. As cores saltaram do papel e espalharam-se pelos prados. O tempo não se dividia mais. A terra já não apresentava dimensões, era engolida pelo céu e desta totalidade podíamos fazer parte. Apenas os sons ficavam cada vez mais fortes. O chão começava a tremer. Arrepios de emoção nos invadiram...

Dos alto-falantes, porém, avisavam que deveríamos esperar do lado de fora. Enquanto nos agrupávamos em torno daquela tenda, que agora mais parecia uma nave espacial, chegavam também os curiosos habitantes de outras aldeias. Traziam os filhos, velhos e cachorros. Certamente não para ouvir a música, mas para saber quem eram os “invasores”. Arames farpados os separavam de nós, assim como um pequeno e discreto exército armado. Na época eu não compreendia porque representantes “da paz e do amor” eram recebidos com armas. Hoje eu sei, infelizmente, que a “diferença” inspira medo. Algumas professoras de escolas primárias trouxeram os seus alunos.

- Olha os hippies! As crianças nos apontavam.

Flashes, questionários. Jornalistas empunhavam bloquinhos: “O que você pensa sobre a encíclica Humanae Vitae?” “É a favor das drogas?” perguntou-me uma moça com quem antipatizei de imediato. Fisicamente ela lembrava a Danielle, estudante reacionária e gaullista que tentava contato com os exilados para defender uma tese negacionista sobre a tortura no Brasil. Não lembro o que respondi, só sei que começamos a latir e a rugir. Em pouco tempo todos em volta da tenda pulavam e uivavam. Já que nos observavam como animais num zoológico, precisávamos contentar os visitantes...

Pink Floyd! Por felicidade Pink Floyd estava lá e transportou-nos...

- Sheila, se você não ler o que está escrito neste papel, vamos ter que tomar providências!

- Que providências?

- Vamos telefonar à sua mãe e avisar...

Levantei-me, tirei o telefone do gancho e o estendi à Gaby:

- Pode telefonar. Aliás, vem a calhar. E assim eu não vou ter que descer à rua para chamá-la da cabine.

- Como ?!!!

- Telefone já! Quer o número? Perguntei.

- Bem...

- 0055... E diga à minha mãe, por favor, que encontraram o “pote de iogurte” que ela me deixou! É isso que está escrito aqui nesta carta da Polícia nacional. Só isso! Veja: encontraram o nosso Fiat que foi roubado em Roma!

Praticamente esfreguei a folha de papel no nariz de Gaby, em seguida no de Sylvie e saí. Desci os cinco andares e fui direto à primeira agência imobiliária que encontrei.

- Vocês têm um estúdio para alugar? Sim, sim, posso dar caução. Talvez a minha mãe concorde que eu tire do dinheiro que acabo de receber da companhia de seguros, pois o nosso carro foi roubado. Quer dizer... ele foi achado, veja esta carta. Mas agora é como se a companhia de seguros o tivesse comprado, entende? Só preciso avisar a polícia e a minha mãe... não tenho culpa de nada... você pode confiar em mim.

Pink Floyd Band with Frank Zappa, Amougies 1969
Interstellar Overdrive: antológico encontro de Frank Zappa com Pink Floyd no dia 25 de outubro de 1969. Amougies, Bélgica.

Conseguirei fugir das feras bretãs? O que eu fazia em Roma quando o “pote de iogurte” foi roubado? Aguarde o próximo capítulo!
 
Terça-feira, Abril 11, 2006
  36
Cartaz do Festival de Amougies/1969
O tempo que levei para pegar o envelope durou uma eternidade. Mais as duas pestes demonstravam impaciência, mais eu demorava. Uma vez que eu já estava sentenciada sem precisar abri-lo, não havia razão para que me apressasse. Ainda na entrada, procurei a janela com os olhos. O sol jogava réstias sobre os móveis empoeirados e o azul rutilante que escapava por trás dos velhos prédios, lembrava o céu de Amougies. Suspirei ao pensar nos quatro dias que passara naquela aldeia belga aos pés do Mont de l’Enclus. Gaby e Sylvie, essas bretãs sentadas à minha frente com as caras amarradas, nunca saberiam o que era fazer parte de uma lenda!

Tudo começou quando as árvores começaram a perder as suas folhas. Fernanda chegou excitada ao café La Palette na rue de Seine onde à noite, a partir das oito e meia, encontravam-se os brasileiros, muitos deles exilados, alguns pintores, outros fotógrafos ou cineastas. Era meu aniversário e Mozart desenhava o meu retrato num pequeno pedaço de cartolina.

- Estão organizando o primeiro festival de rock da França! Este foi o “boa-noite” de Fernanda.

- Daqui a pouco vocês se falam. Sheila não vire a cabeça! Veja o que fiz com a sua orelha! Saiu horrível. Agora vai ficar orelhuda assim mesmo...

Eu me olhava naquele cartão e lamentava um pouco o cabelo que pedira ao cabeleireiro para cortar rente quando fui roubada em Roma, no verão. Quisera experimentar a liberdade de não ter nada... nem mesmo cabelos! Ao menos ficava mais fácil para lavar agora naquela mísera ducha atada à pia e secava mais rápido. Dei um beijo no meu amigo, agradeci o presente e puxei Fernanda de lado.

- Festival de rock? Onde vai ser ?

Fernanda abriu a bolsa e tirou um pedaço de papel impresso:

- Presente de aniversário! Entrada para o Actuel. Daqui a exatamente um mês estaremos assistindo Pink Floyd e muitos outros!!! Vai ser uma fábula! Não se sabe ainda o local pois parece que não estão conseguindo autorização do governo francês para realizar o festival nos Halles de Saint-Cloud. Ouvi dizer que será transferido para a Bélgica, talvez Courtrai. Parece que esse ministro Michelet gaullista que pegou o lugar daquele reaça do Malraux só gosta de música clássica e está abalado com o Woodstock do mês passado... Esses políticos tem medo dos jovens e da música!

Será que o governo francês estava com medo pois na abertura de Woodstock aquele moço falou no microfone que o que eles tinham em mente era “o café da manhã e uma cama para 400 mil pessoas”? Só por isso? Ou era porque uma semana depois também teve a Ilha de Wight com Bob Dylan e 250 mil espectadores? Que bobagem! Quem é que não leva sanduíche e têm um saco de dormir?

- Vamos sim, Fernanda! Cadê a Jeanne? Ela vai adorar! E, como carro eu não tenho mais, se for na Bélgica é no 2CV dela que nós vamos viajar!

Retrato para o meu aniversário - Mozart PelàNem mesmo em Courtrai o Actuel conseguiu se apresentar. Apenas na minúscula Amougies, bem no meio de um imenso pasto verde salpicado de vacas, que a gigantesca tenda do Festival foi montada sobre suportes de aço. Ficava, segundo Frank Zappa numa entrevista que deu muitos anos mais tarde “no meio de um pedaço de nabo, nos confins do nada”... * Contudo, como a maior parte dos espectadores que vinham de toda parte da Europa, nós partimos naquela sexta-feira, 24 de outubro de 1969, com o coração aos pulos. Certamente iríamos viver uma experiência única em nossas vidas!

Antes, não podíamos deixar de passar pelo apartamento de François, rico herdeiro da burguesia parisiense. Não que o rapaz quisesse assistir Captain Beefheart e precisasse de uma carona. Mas, enquanto grande turista do Tibete, representante da esquerda festiva e esclarecida da Sorbonne, cujos bolsos jamais eram aprovisionados pelos pais, somente ele poderia nos vender aquela pedrinha de haxixe que faltava em nossa bagagem. Estávamos enganadas. Nada de pedrinha. Ele as tinha consumido todas! A solução foi procurar o amigo do meu “irmão adotivo” Aron Blikman. O polonês Andjei, que se apresentava sempre como famoso cineasta formado em Lodz e - quem não sabia? - nada mais era do que um grande picareta. Talvez justamente por isso, com ele tivemos mais sorte...

Escondemos o pequeno e perfumado fragmento de resina no laço do chapéu de Fernanda e iniciamos a travessia da França no carrinho de Jeanne, excitadas e felizes. Cantávamos, ríamos e tagarelávamos febrilmente. De vez em quando as três paravam para lembrar da "fossa". E, então, cada uma recontava a história “única” de sua desilusão e o desejo de romper com os vínculos familiares e sociais. “Quando eu voltar a Boulogne-sur-Mer, ameaçava Jeanne, vou dizer tudo aos meus pais!” “E você acha que eles vão mudar? Tentava moderar Fernanda.

“Eu vou escrever uma carta à minha família, como já disse ao Denys”, repliquei. “Aliás foi ele mesmo quem me sugeriu: falou que se eu voltar ao Brasil não escapo de viver da exploração do proletariado com a desculpa de ser intelectual. Carrinho, piscina... eu não quero ser aquela burguesa com álibi falso, ‘bem estudar’, terminar ‘bem’ a faculdade e depois casar-me com um rapaz ‘interessante’ e ter o bom apartamento decorado pela Mobilínea ou pela Artes e Objetos e receber o grupo dos falsos e imbuídos de si próprios, dos satisfeitos com o próprio intelecto como a Marina Barbosa ou algumas pessoas lá em São Paulo!”

- Carta não é uma boa idéia. Carta é coisa que machuca e fica. Objetou Fernanda. Jeanne perguntava-se o que era Mobilínea e Artes e Objetos... Expliquei que eram lojas de decoração. E continuei:

- Pois eu quero que a carta fique mesmo! Além disso, vou escrever que, apesar dos meus estudos, não pretendo fazer filminhos de arte ou freqüentar o cine Belas Artes e menos ainda fazer “arte para o povo”, quando se explora esse mesmo povo que nem ler sabe! E tem o Guarujá! Ai meu Deus! Tem aquele Guarujá para os cansados do trabalho da exploração da massa. Lá eles recebem o descanso merecido, não é? Se eu voltar, não escapo! É batata!

- Guarujá? Perguntou Jeanne.

- Guarujá é como Deauville, Jeanne. A mesma merda! Se alguém me disser: “mas Sheila, você sempre pode optar, não precisa seguir o esquema da família ou da sociedade, você segue o seu” vou responder que isto não é verdade! Pois a gente está dentro do troço e se sair está sozinho e se está sozinho não é nada. Tanto faz se eu estiver no Brasil ou na França, o que eu quero mesmo é ficar independente economicamente, arrumar um trabalho, continuar estudando pois é o que eu amo e mudar de vida de vez! Pois se eles pensam que rompendo com o Jonas e com o que ele representa, eu mudei a minha vida, estão enganados. Foi uma mudança muito superficial...

- Eu acho que a Sheila está certa, Fernanda! Disse Jeanne enquanto já nos dirigíamos a Tournai e ela virava a direção à direita para sair da estrada rumo à Amougis. No sinal estava escrito que faltavam apenas 7 quilômetros.

Ao avistar a cidade e a tenda armada no campo, comecei a ficar com arrepios. Pressenti que, além de ouvir pura música e poesia, iria viver os dias e as noites mais loucos da minha vida!

***
Afastei os olhos da janela, sentei-me diante da mesa, peguei o envelope e comecei a abri-lo lentamente. As cenas do bistrô aquecido, onde alugava-se dois metros quadrados para os que quisessem dormir no chão protegidos pelas paredes pintadas com motivos espanhóis durante os quatro dias do festival, permaneciam indeléveis em minha memória. Os acordes de todo aquele rock, free jazz e música contemporânea misturados, ainda soava em meus ouvidos. Refletida no papel eu via a imagem do mestre de cerimônias, nada menos do que Frank Zappa, grande trangalhadanças vestido com um impermeável amarelo, que improvisara com quase todos os músicos, Pink Floyd especialmente em um longo e inebriante Interstellar Overdrive. Fechando os olhos ainda me parecia ouvir a poesia do extraordinário Captain Beefheart, a música de Archie Shepp, Don Cherry, Yes, East of Eden, Soft Machine, Freedom, Renaissance... Jamais poderia imaginar que trinta anos depois a música na França estaria sujeita à uma festa “normalizadora” organizada pelo próprio governo (a risível Fête de la Musique) e que nada restaria aos jovens como revolta senão as vazias e imbecilizantes “rave-parties”...

- Sheila, você está dormindo? O que está escrito ai na carta?




* Society Pages issue no. 2 "They're doing the Interview of the Century" December 22, 1989 Frank Zappa interview by Eric Buxton, Rob Samler, Den Simms:

F. Z.: (…) This tent held thousands of people in Amougies. Freezing cold, damp weather, constant log, the most MISERABLE (laughter) circumstances you could find yourself in, for four days, and it was a twenty-four-hour-a-day festival, and the kids would come there, and they had their sleeping bags, and they were sleeping through ... they were just in this tent FREEZING, laying on the ground, sleeping, while music went on around the clock with all these groups...(…)

No próximo capítulo, finalmente o conteúdo da carta e os dias e noites mais loucos da minha vida!
 
Sexta-feira, Março 24, 2006
  35
Bacanal de Tiziano
Bacchanal, Tiziano Vecellio di Gregorio, Ca. 1518, Veneza, óleo s/tela (175 x 193 cm). Escola Italiana, Renascimento, séc. 16.




Naquela soirée Polly Magoo, Richard, angustiado, balbuciava em francês contando como abandonara o exército americano durante a guerra no Vietnã. Tony, tão desertor quanto ele, sorvia o seu chocolate com os olhos perdidos em sonhos e alucinações. Fernanda reclamava porque Furio, o músico “sensual” que fora visitar a recebera nu e ela, sentada na poltrona, tomou café em frente dele olhando para... “mas que coisa absurda, não?” E Léa chorava pois fora expulsa da casa do namorado. Como ousara rasgar um poema feito especialmente para ela? “Vou para o campo!” dizia. De repente, um beliscão no seu traseiro:

- O que vão tomar?

- Esse sacana do dono sempre gosta de bolinar! UM COPO DE VINHO TINTO, OK? ... e em voz baixa, para si - é mais barato.

O indiano, de quem nunca se soube o nome, levantou-se subitamente e escolheu os convidados para a festa improvisada daquela noite. Como de hábito, Fernanda e eu estávamos na lista. Apenas não sabíamos o que nos esperava... Jeanne acostumara-se a ficar excluída e já se preparava para voltar ao pequeno estúdio do Quartier Latin, forrado de cartazes e penduricalhos étnicos que trouxera do Nepal. Gordinha, cabelos desbotados cortados rente ao crânio, boca fina e traços marcados, não se podia dizer que a minha amiga fosse pródiga em sex-appeal. Além do que, apesar do esforço que fazia para se vestir como hippie, possuía algo de solteirona do norte, uma expressão facial um pouco dura que os rapazes parisienses tinham dificuldade em apreciar. Pois eu adorava Jeanne! Foi com ela que aprendi que as árvores plantadas nas estradas em distâncias iguais causavam acidentes por causa do que ela definia como “freqüência de ondas cerebrais”. Era observando e comentando a paisagem que atravessávamos a França no carrinho dela para visitar os seus pais em Boulogne-sur-Mer.

Porém, como as minhas impressões sempre foram um pouco exageradas e dramáticas, as únicas lembranças que tenho daquela cidade são de uma tristeza atroz. Ali cheguei até mesmo a pensar que podia ser plausível alguém por fim à própria vida. Pois quando Jeanne levou-me à praia cinzenta e enevoada para mostrar as minas deixadas durante a guerra, não pude me impedir de imaginar todos os sombrios habitantes de Boulogne-sur-Mer atirando-se à água para fugir daquela desolação. Lembro do apartamento em frente ao mar onde comíamos melancia às escondidas na cozinha. Lembro dos velhos e da curiosidade com que me receberam. Aliás, eu teria preferido um milhão de vezes que aquela curiosidade em relação aos brasileiros fosse substituída completamente, e em mesmo grau, por pura generosidade. A mesma generosidade que eu havia testemunhado no Brasil. Porque comíamos melancia às escondidas?

Também de forma mesquinha, e sempre às ocultas, transcorria a minha vida com Gaby e Sylvie. Mesmo com o queixo duro e quadrado, as marcas de preocupação na testa e o olhar azul metálico, Jeanne era infinitamente mais humana do que aquelas pequenas burguesas bretãs de capa-de-chuva e lenço Hermès que subalugavam o apartamento na rua Vaugirard! Ali, embora no final do mês o aluguel acabasse dividido em três partes iguais, elas escolheram duas peças imensas e um grande e confortável banheiro, deixando ao sublocatário o quartinho dos fundos e o lavabo. Naturalmente, a quantidade de roupas que possuíam devia ser acomodada nos armários maiores e a importante toalete que as impecáveis BCBG faziam merecia um banheiro à altura.

Logo que cheguei estenderam-me um papel onde estavam minuciosamente descritos os meus direitos e deveres, sendo que o número dos últimos era bem superior ao dos primeiros. Nunca vi tantas proibições! Eu não podia entrar no grande banheiro, devendo me contentar com o lavabo onde o meu “chuveiro” seria apenas a pequena ducha atada à torneira da pia. A entrada na cozinha tinha hora certa e não devia coincidir com o horário das refeições delas. O telefone era permitido para chamadas de fora, porém se eu quisesse telefonar deveria descer os cinco andares sem elevador e, mesmo se estivesse nevando, usar a cabina da rua. Música, rádio, TV, tudo isso só era possível caso as pestes também decidissem se distrair. A música eu conseguia contornar com Aquele abraço de Gilberto Gil, a única que as moças gostavam depois do biniou e das danças da Fest-Noz. Uma vez, e apenas uma vez, tomaram um copo de vinho a mais e chegaram a ensaiar alguns passos de samba comigo. Devem ter se arrependido, pois no dia seguinte saíram sem dizer bom-dia...

Imagine se elas soubessem que a maior parte da minha pequena biblioteca fora formada depois que roubaram todos os meus pertences e que era presente de Bern e Frank, velho casal de livreiros homossexuais que eu freqüentava com grande ternura? Se tivessem conhecimento de que, nas férias, antes de vir morar ali, eu tinha atravessado os Alpes de carro com Denys até chegar à Roma, onde o meu “pote de iogurte” foi furtado com tudo que eu tinha na vida? E se tivessem notícia de que este meu namorado e o poeta Acinos Tritsibidas, que eu adorava, eram exilados, militantes do PC grego e, além de tudo, bissexuais como é tradição na Grécia? Ou se descobrissem que alguns amigos, como o casal Macha e Edmond, eram louquinhos da silva, neuróticos o bastante para inspirar até mesmo um roteiro de Eric Rohmer?

Creio que foi a primeira e última vez que me senti plenamente no papel de Cinderela, a gata borralheira, e suas duas “irmãs”. Era o que eu queria contar aos meus amigos do Polly Magoo, porém ninguém dava muita atenção ao que eu dizia. Jean-Luc relatava de novo, desta vez a outra moça, a sua viagem à Grécia. Wanda, a professora brasileira exilada, frustrada em todos os níveis da vida dela, quase caía da cadeira de metrô depois do sétimo copo de vinho rosé. O nosso querido manco do bordel, grande sujeito que alugava quarto num prostíbulo para poder escrever, rabiscava notas em seu caderninho. O incorrigível Michel vermelho usava habilmente os seus atributos de líder do PCU (Partido Comunista Universitário) para seduzir mais uma menina... Foi quando o indiano voltou a nos chamar. Fernanda virou-se para mim e decidimos: “desta vez não vamos sem a Jeanne!” Iríamos embora. De todo modo em nossas cabeças a festa já estava desenhada, dissecada, acabada. Afinal, acreditávamos, em Paris todas as festas são idênticas...

- Podemos não ir à festa, disse Fernanda. Mas dormir eu não vou! Ela pensava no seu estúdio sem aquecimento onde passara a noite anterior acordada. Verdade que tremia ainda quando, pela manhã, nos encontramos para um café. Seus lábios e mãos estavam violáceos...

De minha parte também imaginei o trajeto metrô/rua Vaugirard/cinco andares. Pensei na porta que, ao abrir, rangia e acordava as duas feras bretãs. Adivinhava de antemão os acessos de tosse que acompanhariam a minha toalete antes de me deitar naquele colchão que tinha um buraco no meio, e nos bilhetinhos de repreensão ou falsa amizade que eu encontraria sobre o travesseiro. O gesto de solidariedade à nossa amiga não durou muito.

- Vamos à festa, eu disse! O pessoal já está esperando lá fora. Jeanne, sinto muito. Mas a gente se vê amanhã!

Nada revelava que a coisa se transformaria a partir da meia-noite. O apartamento parecia espaçoso e, embora possuísse apenas um quarto, dispunha de grande salão com vista para um jardim. Sobre o parquê, como que ilhotas, espalhavam-se almofadões coloridos. Num canto, uma escrivaninha improvisada em bufê apresentava bebidas e alguns acepipes. Havia cinzeiros de lata por todos os lados e uma pessoa se ocupava da vitrola e da troca constante dos discos de vinil. Apenas o grande sofá azul, no fundo, sofria a indiferença dos convivas. Ninguém sentava nele. Naquela época tal móvel era símbolo da rigidez burguesa, para cujos adeptos foi inventada a sigla TTCS, tasse de thé cul serré (taça de chá bunda apertada). Não me admira, portanto, que foi justamente aquele sofá que nos salvou!

Fernanda e eu conhecíamos boa parte das pessoas e conversávamos animadas. Mais contentes ainda quando pensávamos nas pequenas misérias das quais tínhamos nos livrado até o momento. Vimos quando alguns casais começaram a dançar, namorar e, para nossa surpresa, tirar algumas peças de roupa. Tudo parecia muito natural e os almofadões estavam lá para provar. É hora de ir embora, pensamos. Carona já não vamos ter. Porém, ao olhar o relógio... metrô não havia mais! Também não podíamos atravessar Paris à pé naquela hora. E quem tinha dinheiro para táxi? Depois de escapar de um ou outro assédio, rapidamente fui ao quarto buscar um cobertor e voltei. Fernanda estava confusa. Bendito sofá TTCS! Por sorte alguém diminuiu a luz e sem que se percebesse, pulamos atrás dele. A atmosfera esquentava diante de nós e, em nossa trincheira, sob o cobertor, era possível observar o desenrolar dos acontecimentos. Eu preferi me cobrir e não espiar.

- Ai Meu Deus! Onde é que fomos parar? Olha aqueles dois! exclamava Fernanda. Eles não têm vergonha?

- Fernanda, pára com isso. Vê se dorme. Logo vai chegar o dia e vamos sair daqui. Ao dizer isto, enfiei a minha cabeça sob a coberta de lã pensando como são sábias as avestruzes. O que não deve ser visto, não se deve ver...

- Sheila, não agüento!!! Já imaginou o que diriam os meus pais? Sheila, nós estamos no meio de uma suruba! Nem acredito no que estou vendo!

- Então pára de olhar, Fernanda! Psit! De repente descobrem que estamos aqui!

- Não consigo não olhar. Veja! Ali têm três juntos!!! Ai meu Deus, está chegando mais um. Mas aquela moça é muito sem-vergonha. Ai Nossa Senhora da Aparecida! Ai se meus pais souberem!

- Você quer ficar quieta, por favor? Está parecendo locutor de rádio! Os seus pais não vão saber, ninguém vai saber. Só eu vou saber e isso é como se ninguém soubesse pois estou na mesma fria que você!

- Tá bom, falo baixinho. Não é que eu queira irradiar o jogo, mas... Sheila, escuta os gemidos, está todo mundo no chão! Todo mundo pelado! Olha!

Olhei para verificar se não era imaginação dela. Não era. Voltei a cobrir a cabeça com o cobertor enquanto dizia:

- Fernanda, nós vivemos numa sociedade avançada. Podemos não estar de acordo e não participar. Mas eles são livres para fazer o que quiserem. Então, DEIXE DE SER CAIPIRA E DURMA!

Quando os primeiros raios de luz apareceram na janela, levantamo-nos devagar e andamos com cuidado para não esbarrar nos corpos adormecidos sobre os almofadões. Ninguém percebeu quando giramos a chave na fechadura e, finalmente, conseguimos escapar. Na rua, os cafés começavam a abrir e os garçons a dispor as mesas nos terraços cobertos. Sentamo-nos para conversar antes de nos despedir e tomar o metrô. Estávamos muito deprimidas e não sei qual das duas sentenciou, mas continua escrito no meu caderno:

- Ainda bem que às 3 horas passa Eisenstein na Cinemateca.

Quando cheguei em casa e abri a porta ofegante, assustei-me ao ver Gaby e Sylvie sentadas no sofá da sala com os braços cruzados. Em cima da mesinha de chá estava um envelope que uma delas apontou, dizendo:

- É para você. E vem da Polícia nacional! Da Polícia!!!

Elas me fuzilavam com o olhar. Eu me sentia julgada e condenada, antes ainda de saber qual era o meu crime. E o fato de ter passado a noite fora só piorava a minha situação. Imaginei como seria fantástico se eu pudesse girar aquela cena ao contrário, assim como fazia com os filmes na tábua de montagem do meu curso de cinema. Sorri ao ver-me andando rapidamente para trás e descendo de costas os cinco andares até chegar na rua...

- Não vai abrir? Queremos saber em que enrascada você se meteu.

Olhei para aquele envelope e compreendi perfeitamente que não tinha nada a ver com a pequena agenda do Dia das Mães na loja Printemps. Mas... o que seria?


O que há no envelope? Aguarde o próximo capítulo.
 
Quarta-feira, Março 15, 2006
  34
S.L. no Mercado das Pulgas, 1969
No Mercado das Pulgas, Paris, julho de 1969.
Copyright©Giselda Leirner






A solidão não durou muito. Depois de me inscrever em todos os cursos e encontrar um apartamento velho e deteriorado na rua Vaugirard, que dividi com Gaby e Sylvie, duas jovens bretãs BCBG, “bon chic, bon genre” (que traduzo aqui por BCBC, “bem chiques e bem chatas”), mal tive tempo de pensar no passado. Já estavam longe o aborto, a primeira viagem à Paris durante as desordens de 68 - quando fora a Brugges e à Bruxelas com Gica - Totó, os meus amigos e a vida com Felícia na rua Guadelupe. Em menos de um mês, a minha agenda e carnê de endereços ficaram lotados. Verdade que, como dizia a minha avó, “as pessoas tem alfinetinhos que arranham depois de um certo tempo de convívio. Sempre deixam um pózinho em cima da alma da gente...”. E ela acrescentava: “Sou como um bichinho, de casca dura, que sabe muito bem por a cabecinha pra dentro.” Ainda assim, mesmo sem casca dura, pensava eu naquela época: melhor mal acompanhada do que sozinha!

Gosto de lembrar o exército de amigos com quem me liguei na cidade-luz. E isto não é difícil, pois cada um deles foi perfeitamente descrito por mim, no meu caderno, com vistas a um eventual (e "nada" pretensioso) romance à maneira de Balzac. Mesmo as pessoas que via apenas de passagem (ou um pouco mais do que de passagem) - como os meus professores Jean Rouch, Pierre Francastel, o brilhante Nicos Poulantzas (ex-aluno predileto de Louis Althusser); artistas, intelectuais, músicos, cineastas, críticos de cinema ou fotógrafos como Hervé Télémaque, Roland Barthes, Geraldo Vandré, Georges Moustaki, Glauber Rocha, Henri Langlois, Jean Narboni e Henri Cartier-Bresson, entre tantos outros - eu também observava e gravava na memória pensando que um dia talvez figurassem em minha futura “obra literária”. Testemunhei Cartier-Bresson, por exemplo, fotografar Paris. Magro que era, parecia um pernilongo saltitante a metralhar uma imagem atrás da outra com a sua Leica sem fotômetro nem flash. Quando o reconheci, acompanhei-o sem nenhuma vergonha pelas calçadas até que ele percebeu a minha presença e sumiu. Foi a primeira vez que assisti alguém fotografar daquela forma não intermitente (que depois copiei) e agora arrependo-me de não ter comentado isso com ele, 27 anos depois, quando o entrevistei.

Claro que voltarei a alguns destes figurões mais adiante. Porém, antes deles e do novo exército de amigos, estava Aron Blikman, o belo e “eterno turista” brasileiro, estudante de cinema como eu, quem eu ia freqüentemente visitar na Casa do Brasil e cujo homossexualismo eu só descobri quando dormimos lado a lado como dois irmãos. Como dois irmãos continuamos, mesmo quando voltei, bem mais tarde do que ele, ao nosso país. Esta foi a primeira de algumas histórias de amor, platônicas pelas mesmas razões, que povoaram a minha juventude. (Com os cabelos, jeito e rosto de um menino delicado, eu não devia ser do tipo ameaçador para homens que não fossem heterossexuais). Ainda conservo a batelada de fotos que Aron fez de mim nos anos 70, em São Paulo.

- Deixe eu fotografar você rapidamente, disse ele arrumando o tripé. Antes que...

- Antes que o quê? Perguntei, já prevendo alguma daquelas “arranhadas de alfinetinhos” das quais falava a minha avó.

- Antes que acabe.

Naturalmente ele estava falando da minha beleza que, como até aquele momento para mim, não existia, não tinha como “acabar”. Mas as palavras dele me marcaram, pois foi apenas e exatamente então que compreendi que, como todo mundo, também iríamos envelhecer. Não foi o que ocorreu com ele. Para a nossa infelicidade, Aron Blikman não teve tempo de ficar velho. Conversamos e nos encontramos ainda algumas vezes até a hora em que a Aids o levou, precocemente. Ele morreu, como viveu. Lindo, apaixonado pelo cinema e pelas cidades onde morou. Procurei consolo tentando convencer-me que, apesar de tudo, a alma do meu amigo estava feliz. Foi ser turista... no céu.

No Hôtel du Quai Voltaire, 1969
Primeira viagem à Paris. Visita à minha mãe, ainda hospedada no Hôtel du Quai Voltaire. Junho de 1968. Copyright©Giselda Leirner

Diferentemente importantes, para mim, foram o militante exilado do PC grego Denys Vasilopoulos, neurótico colega responsável pelo meu malogrado flerte com o suicídio num estágio de cinema no sul da França; Loïc, o presidente da União Nacional dos Estudantes Franceses, para quem escrevi discursos sobre a ditadura na América Latina; e sobretudo Fernanda, filha de conhecido médico, dono de um dos grandes laboratórios paulistas.

Não me lembro onde a conheci. Só sei que, mesmo atuando em campos completamente diversos (ela queria ser advogada), sentimos imediatamente que nos ampararíamos naquela dura vida de estudantes. Mais do que isso, descobriríamos por igual a aspirada liberdade sabendo que, juntas, poderíamos tanger levemente os seus limites. Devia ser por esta razão que, como um pêndulo, só ousávamos algo mais arriscado por rodízio. Uma sempre ficava de plantão em caso de necessidade. Raras foram as vezes que entramos “numa fria” em conjunto e só isso já é motivo para lembrá-las.

A primeira ocorreu em Maio, na semana anterior ao Dia das Mães no Brasil. Fernanda chegou esbaforida ao apartamento da rua Vaugirard e, após ter subido os meus cinco andares sem elevador, disse:

- Pronto! Aqui estou. Quais são os planos tão secretos que você não quis falar por telefone?

A verdade é que não tínhamos um tostão para comprar os presentes para as nossas mães e, ainda por cima enviá-los ao Brasil pelo correio. Eu já estava devendo 30 francos ao Denys, os quais tinha gasto inteiramente com o “bife do mês” que fritei numa panela com uma lasca de manteiga, meia dúzia de gordurosas gulodices árabes de uma doceira perto do bulevar Saint Michel e dez bilhetes de metrô. A solução?

Printemps. A loja era deslumbrante. Ficamos vários minutos extasiando-nos com os produtos e a apresentação deles, antes de nos decidir. Experimentamos ainda alguns chapéus, rindo uma da outra, e já na papelaria, fomos à ação. Ela escolheu um calendário e eu uma pequena agenda que delicadamente deslizamos em nossas bolsas. Fomos andando em direção à porta, mal contendo as gargalhadas. Só quando já nos encontrávamos no bulevar Haussmann, é que explodimos. Não sei se porque achamos graça na aventura ou porque estávamos realmente nervosas com aquele primeiro roubo da vida. Mas a alegria não durou muito. Logo sentimos um apertão no braço:

- Favor entrar, mademoiselles! Vamos conversar com o gerente.

O segurança da loja nos acompanhou até o andar superior. Além de nos passar um sermão, o gerente ameaçou chamar a polícia que, segundo ele, mandaria-nos de volta ao Brasil se tal VERGONHA se repetisse. Ficamos ainda algum tempo de pé em frente da escrivaninha dele. Eu, que não me sentia humilhada pois acreditava na nobreza dos nossos propósitos, não dei a mínima para aquele discurso. Olhava Fernanda de esguelha. Ela, sim. Estava pálida como uma folha de papel. O homem propôs que pagássemos os produtos para podermos, enfim, sair da loja. Porém, quando viu que as nossas carteiras estavam vazias e soube o motivo do “crime” creio que ficou penalizado pois rapidamente mandou-nos embora junto com os “valiosos” objetos do nosso roubo. A mãe da Fernanda não sei, mas Gica guarda preciosamente esta pequena agenda florida até hoje. Penso que ela sabe o quanto a “compra” dela foi suada!

Quando a minha amiga e eu não estávamos às voltas com este tipo de experiência, livros, provas e aborrecimentos do cotidiano, freqüentávamos, junto com Jeanne, o Polly Magoo. Segundo o que escrevi no meu caderno sobre aquele lendário bar que ficava no número 11 da rua Saint Jacques, aonde ia Jim Morrison quando estava em Paris, “eram noites sem significado". Mas aqui entra um pequeno parêntese que, de modo inopinado, me vem ao espírito. Por ironia do destino e não porque eu considere este fato regozijador (muito ao contrário), mesmo morto, Jim Morrison continua a freqüentar o mesmo canto que eu! Ele no cemitério Père Lachaise e eu na Praça Gambetta, ambos no mesmo bairro e não muito longe um do outro. Que coisa estranha!

Até hoje, porém, não entendo porque um lugar “tão sem significado”, escuro e construído sobre porões como o Polly Magoo, nos atraía daquele modo. O fato é que naquelas noites, segundo os meus escritos, procurávamos outros sonhos iguais aos nossos. Escrevi: "Vamos ao Polly Magoo? As três reuniam os seus encantos e os seus charmes e com um suspiro de coragem enfrentavam uma sala vermelha decorada com cadeiras de metrô, fotografias de presos políticos ou bandidos perigosos. Todos estavam sempre nos mesmos lugares. Não existia separação entre aquela e a última vez”.

Foi aí que me enganei e entramos em mais uma fria. Diferente de todas as outras, a festa para a qual fomos convidadas depois daquela soirée Polly Magoo era, para nosso grande espanto, uma... orgia sexual! Uma verdadeira “partouze” sobre a qual também me arrependo de não ter conversado com Catherine Millet na ocasião em que ficamos amigas, 14 anos depois. Afinal, enquanto continuei no mesmo aperto, a famosa crítica de arte e escritora francesa discorreu bastante sobre o assunto – ela, sim, “de cátedra” – e ganhou uma fortuna com isso!


Como se passou a bacanal? Aguarde o próximo capítulo.
 
Quarta-feira, Março 08, 2006
  33
Luz del Fuego
Antes de partir, Gica legara-me o seu pequeno revólver. Tratava-se de um engenho que estava na moda e podia ser encontrado com facilidade. Inofensivo e eficaz, o projétil dele - bem menos importante do que o que usavam os policiais franceses da CRS (Companhia republicana de Segurança) durante os motins de maio de 68 - resumia-se apenas numa minúscula cápsula de gás lacrimogêneo. Elegante como é, a minha mãe deixou-me também uma delicada bolsa acolchoada com floridos motivos Liberty onde eu deveria guardar a minha “arma”.

Considerei aquele gesto como um dos mais simbólicos que possa haver entre pais e filhos. Ele tomava inteiramente o lugar da frase: “Confio em você. Sei que poderá encontrar dificuldades, mas saberá defender-se sozinha”. Embora em sua juventude, naturalmente despreocupada, Gica não acreditasse que eu pudesse realmente correr grandes perigos, esta sentença tácita acompanhou-me pelo resto da vida, sobretudo em meus combates. E penso que deveria ser emprestada por cada genitor com tendência a enfraquecer a sua cria tentando protegê-la demasiado.

Não demorou para que eu mudasse a idéia de que aquele objeto constituía apenas um instrumento de precaução do qual eu certamente “jamais me serviria”. Poucos dias depois da bebedeira no acanhado Hotel du Parc Montsouris, onde o chuveiro ficava dentro de uma cozinha improvisada e a cama encostada numa parede cuja pintura descascava, tive a prova de que deveria carregá-lo na bolsa, onde quer que estivesse.

Eu seguia a pé no final da manhã, pelo bulevar Jourdan, margeando a cidade universitária com o intuito de ir a algum restaurante estudantil, quando um homem alto e escuro me abordou. Como não entendi o que ele falava com um forte sotaque, sorri, fiz um gesto de escusa e continuei andando. Ele insistiu, me seguiu, e desta vez já não sorri. Andei reto, decidida a escapar do assédio, apenas procurando com os olhos alguém para me ajudar. Foi quando começou a vociferar e então entendi o que dizia:

- Vocês brancas são todas iguais! Não fala comigo porque sou negro, não é? Putain! Salope! Você vai ver uma coisa!

Com estes insultos ele apressou o passo, parou diante de mim bloqueando-me a passagem e cuspiu no meu rosto com tal violência que fiquei paralisada sem compreender o que me acontecia. Em seguida partiu em disparada antes que eu procurasse o estojo acolchoado em minha bolsa. Em vez disso, tirei o lenço e apoiei-me num muro pensando que ia desmaiar. As lágrimas escorriam pela minha face quando atravessei a rua para procurar um banco no Parque Montsouris. Molhei o tecido de algodão na fonte, lavei-me e fiquei longo tempo pensando no passado e na incógnita que seria a minha vida em Paris.

O banco que eu havia escolhido ficava sob uma árvore de tronco retorcido cujos galhos tinham a forma de cobras. Enquanto olhava para a água do lago que arrepiava com o vento, tentava distrair-me pensando em mulheres corajosas que não arriariam com uma simples cusparada. Luz del Fuego, por exemplo...

Qual francês naquele parque, já que raros são os conhecedores de línguas estrangeiras, sentiria a ardência daquele nome? Ali, só eu conhecia Luz del Fuego! Quer dizer, nunca tínhamos sido apresentadas e ela certamente jamais soube quem eu era, mas parecia que eu convivera com a corista pois quando se vê uma pessoa várias vezes e, a maior parte delas, sem roupa, quase dá para considerá-la “amiga íntima”.

Terence devia ter apenas 3 anos e eu 6, quando a nossa mãe nos proibiu de ir fuçar a casa desta vizinha, que morava, como nós, perto da praça Morungaba. Não acredito que fosse por moralismo, porque Gica dizia sempre: “Cuidado com as cobras!”.

O fato é que a Luz del Fuego não morava sozinha. Ela vivia com pelo menos uma centena daqueles répteis que tinham a forma dos galhos desta árvore do Parque Montsouris. Isto, dentro da casa dela e no jardim. Porém, qual criança resiste a um espetáculo de circo gratuito para o qual só é preciso atravessar a rua? Entre o clube Pinheiros e a casa da Luz del Fuego, preferíamos de longe a segunda! E assim, sempre que a nossa mãe saía, íamos ver as cobras e a dona das cobras que não raro aparecia vestida apenas com duas ou três delas em volta do corpo. Onde ela surgia desse jeito? A casa que tinha escolhido possuía uma espécie de jardim de inverno com uma enorme e providencial vidraça que dava para a rua. Era naquele palco-vidraça que fazia as aparições.

Como pequenas multidões de adultos se juntavam para ver o show diário, tinha vezes que passávamos entre pernas para poder enxergar. E quando conseguíamos, que alegria! Só que até hoje não sei ao certo se esse júbilo se deveu à domadora de serpentes ou se foi porque estávamos desobedecendo às ordens e, de certa forma, vingando o nosso pai. Pois ele, sim, obedecia direitinho as recomendações para "tomar cuidado com as cobras”.

Parc Montsouris
Já mais calma, foi pensando em Abe que dirigi-me ao restaurante da cidade universitária. “Se ele estivesse aqui, sem dúvida zombaria do meu revólver de gás lacrimogêneo. Sacaria a sua pistola de oficial americano e com o cabo daria uma boa pancada, de lição, no queixo do meu agressor!” Mas onde estava Abe, afinal? Se eu não tinha mais pai, se minha mãe e minha avó encontravam-se do outro lado do oceano, para quem iría me queixar? O que eu não sabia é que, naquela idade, a grande vantagem de não ter a quem lastimar-se era aprender a fazê-lo quase nunca ou, pelo menos, com bastante parcimônia, sobretudo na vida adulta. Sinal de independência e coisa de grande ajuda para manter as relações saudáveis e sem culpas.

- Feijão com arroz, por favor. Pedi ao moço do self-service.

- Sinto muito. Os dois juntos não pode. São acompanhamentos e a senhora só tem direito a um. Escolha um ou outro.

Não adiantou eu explicar que é assim que se come no Brasil e o quanto eu estava com vontade daquela “mistura”. Também de nada valeu a minha proposta de trocar o prato principal e o pão por outro acompanhamento. Embora eu ainda desconhecesse a palavra “psico-rígido”, sentei-me à mesa de fórmica calculando que em três meses de Paris eu já tinha encontrado mais pessoas inflexíveis do que em vinte anos de São Paulo! Com quanto amargor comi aquele feijão descasalado... tanto quanto eu, ex-noiva do Jonas, ex-futura mãe, auto-expatriada, cuspida, sozinha em Paris!

No entanto, em vez de passar pela loja Nicolas e novamente afogar as minhas mágoas na garrafa de plástico de vinho barato, comprei um caderno, voltei ao quarto de hotel e escrevi o segundo ou terceiro conto da minha vida. O último, com o título “Rosa de enxerto”, fora uma história dramática que começava com um cachorro mutilado por uma grã-fina que julgava as orelhas e o rabo dele proeminentes demais e terminava com um suicídio a gás de cozinha. Este que resolvi inventar não teria nome, o personagem principal seria o Jonas, de quem eu trocaria o nome, é claro, e começaria assim:

“Roberto (Jonas) viveu uma estranha história em sua vida mas nunca percebeu. Só eu, que o acompanhei desde criança, posso contá-la. Quando nasceu em Budapeste, foi inteiramente vestido de verde e deram-lhe bananas para que funcionassem os seus intestinos. A mãe tinha as faces coradas, brilhantes, e o corpo gordo e satisfeito do filho que dera à luz. Seu pai trabalhava o dia inteiro e todas as noite abria uma garrafa de vinho Tokay em sua homenagem. O plano era ajuntar dinheiro para irem ao Brasil de navio. Tinha ouvido dizer que lá em São Paulo diamantes nasciam nas calçadas e telhados. Como era perito em lapidação, faria uma fortuna!

Anos depois, conseguiram comprar a passagem. Porque os bilhetes eram de primeira classe, vieram sentados sobre corpos. E as refeições, eles as comiam sobre costas humanas que lhes serviam de mesas. Muito desagradável, pois as pessoas se mexiam e os pratos caiam de vez em quando. Ao chegarem, subiram no Terraço Itália e ficaram deslumbrados. Com Roberto no colo, sempre vestido de verde, encontraram um palacete para morar. Foi aí que a verdadeira educação do menino começou. Seria um príncipe! Aprendeu que não podia cuspir na rua, por o dedo no nariz, praguejar contra os americanos (“eles sempre ajudam contra o comunismo”) ou fazer masturbação. Quando completou 13 anos, o pai levou-o a um cirurgião plástico para que o rosto do filho fosse idêntico ao seu. O rapaz nunca ousou rebelar-se. Ao contrário, sentia-se feliz.

Quando iniciou a ouvir os noticiários na Rádio Bandeirantes seu pai mandou fazer tubinhos especiais de borracha para enfiar em seus ouvidos. Televisão Roberto podia ver, desde que colocasse os óculos exclusivos que recebera. Assim, estava autorizado igualmente a ler os jornais e ir ao cinema. Verdade que não tinha muita escolha, pois os únicos permitidos eram o jornal O Estado de S. Paulo e os filmes de caubói e musicais.

Sempre vestido de verde, ele freqüentou a escola, depois a faculdade. Casou-se com uma perfeita reprodutora de pequenos seres vestidos de verde. Fizeram um exército de crianças, quase 3 mil. Todas educadas segundo as "leis do emigrante húngaro". Em São Paulo havia muitos empecilhos para a proliferação desta casta. Roberto fundou, então, uma organização nacional e internacional de emigrantes húngaros. Encontrou forte resistência nos países da Europa oriental (mesmo a Hungria) e também na China e em Cuba. Viu que a única solução seria a força para poder impor a nova ideologia. Distribuiu armas compradas com o dinheiro da exploração do proletariado... e a guerra começou.

No Brasil, conseguiu substituir os militares por aquele exército nacional e internacional que visava unicamente a exploração de diamantes e do povo. Pouco a pouco, todos os países da América Latina foram sendo atingidos. E quando quase todo o ocidente, inclusive os Estados Unidos, Africa e Europa caíram subjugados pela dominação dos vestidos de verde, os países comunistas resolveram se manifestar contra tal epidemia reacionária e exploratória. Mas estavam diante de uma força equivalente à sua: os emigrantes húngaros aliados aos nativos capitalistas de cada país!

O extraordinário da história de Roberto foi como o pequeno budapestense, que comia bananas para os intestinos funcionarem, transformou-se em líder e responsável pelo desencadeamento da terceira guerra mundial. Estou na única cidade do mundo que sobreviveu à esta guerra: Paris. E é de Paris, desta mistura de verdes, azuis, vermelhos e roxos que vai sair a reconstrução da humanidade. Devo descrever este fenômeno: “O Renascimento do ano 2000!” FIM. Próximo conto: “O Renascimento”.”

Fechei o caderno, entrei no "pote de iugurte" e fui me inscrever nos cursos da faculdade. Mesmo sabendo que aquele meu "conto" era uma porcaria e que nem eu mesma compreendia muito os jargões que repetia, bradara a minha revolta aos ventos! Estava bem aliviada. E, apesar de tudo, confiante que, em pouco tempo, talvez fizesse novos amigos, vivesse novas aventuras! Contente que Terence viria estudar teatro em Londres. Não só poderíamos, talvez, falar ao telefone, como atravessaríamos o Canal da Mancha em rodízio – nem que fosse de carona – para, enfim, nos encontrar!
 
Quarta-feira, Março 01, 2006
  32

O noivo “certo” não podia ter sido mais errado. O retrato de Flávio de Carvalho acabou voltando para o meu quarto, assim como o solitário de diamante retornou ao bolso dele. O resto dos presentes eu conservei, tanto quanto a lembrança das corbelhas que decoraram a passagem externa, o terraço e os salões em festa da rua Guadelupe. O que aconteceu foi prova de que já estava longe o tempo em que eu adorava ficar doente para não ir à escola e, com a cumplicidade de Terence, colocava o termômetro na lâmpada acesa para enganar Gica (quantos termômetros nós estouramos com aquele método!). Pois a novela da Rádio Nacional que eu me comprazia em ouvir debaixo do cobertor enquanto tomava chá com biscoito Maizena, repetia-se na minha própria vida e desta vez comigo mesma enquanto real protagonista. Exceto talvez os trovões e as tempestades, na minha novela particular não faltava nem a sonoplastia.

Jonas tinha tudo de um príncipe... infante. Embora homem feito, maduro ele não era. Já que estávamos noivos, nem prestei atenção a este pormenor quando engravidei. Ficamos felizes e consideramos tudo natural até o momento em que o pai dele apareceu na casa de Felícia para conversar com Gica, que naquelas alturas havia trocado Nova York por Paris e estava de visita em São Paulo. Ele não quis sentar e foi cortante:

- Como é possível que uma moça de boa família fique grávida antes do casamento?

- O que é que tem? Respondeu minha mãe. Se eles se amam...

- A sua filha vai estragar os planos que eu fiz para o Jonas. Ele tem um futuro brilhante e ainda não pode ser pai.

- Mas ele quer ser pai, disse Gica enquanto eu, atentamente no alto da escada, ouvia a discussão.

Felícia se interpôs:

- Vamos ao ponto. O que o senhor está sugerindo?

Pelo que ocorreu em seguida, imagino qual foi a resposta dele. Vi a calvície do meu futuro sogro se refletir no espelho enquanto ele passava pelo hall perseguido pela minha mãe. Ela gritava:

- Ponha-se daqui para fora e não volte nunca mais! Como é que ousa vir à nossa casa para nos dizer o que minha filha deve fazer! Quem o senhor pensa que é para sugerir um absurdo desses!

Temi pelo vidros da porta de ferro. Só nos efeitos acústicos da Rádio Nacional eu ouvira portas batidas com tanta fúria. Enquanto Gica provavelmente pensava no médico religioso de Bogotá - que, junto com ela, salvou a minha vida quando meu pai tentou convencê-la a se livrar do bebê - do meu lado eu decidia que, caso Jonas mudasse de idéia por medo daquele meu “sogro”, o noivado estaria terminado e certamente faria um aborto pois agora quem teria planos para o futuro seria eu. Foi o que aconteceu, embora ele continuasse a insistir desesperadamente para que nos casássemos.

Se os cruzamentos de certos fios de vida fazem algum sentido, a morte trágica da irmã de Jonas, uma de minhas melhores amigas, poucos anos depois, ao menos serviu para alguma coisa. Paulete que, como já contei, eu adorava pela vivacidade, elegância e personalidade, desapareceu com o seu marido num desastre de automóvel deixando filhos pequenos, como para dizer ao pai que ninguém pode se arrogar a onipotência divina. Ele, que havia planejado tão rígida e arrogantemente a vida do filho a ponto de rejeitar um futuro neto, por ironia do destino fora obrigado a curvar-se justamente à dor do mais funesto imprevisto!

Sem bebê e sem casamento, portanto, sofri a minha primeira e terrível decepção amorosa e humana. Fiquei muitos meses perambulando em meio a uma dor difusa como se, à minha revelia, tivessem finalmente me empurrado ao remoinho da vida adulta. Gica tentava me distrair enquanto estava na cidade, levando-me às reuniões na casa de Marina e Cláudio Barbosa, antes que eles se mudassem definitivamente para o Rio de Janeiro. Marina, uma das moças mais lindas que tinha visto, era uma espécie de inseparável irmã caçula de Gica. Pela idade, ficava entre eu e minha mãe, sendo que nós três mantínhamos grande cumplicidade como se a nossa diferença etária não existisse.

Cláudio, seu marido e pai de três dos seus quatro filhos, era teatrólogo e naquele momento começava a ganhar a vida escrevendo novelas para a televisão. Era um homem atraente apesar – ou talvez por causa – do defeito físico que o obrigava a andar de muletas. Quiçá fosse desde o dia em que perdeu a perna num acidente que de seu humor e inteligência saía um esgar. Bastava alongar-se no sofá empunhando um copo de uísque para que o escárnio viesse à tona. Porém, eu gostava imensamente de Cláudio porque, além de ser atento e brilhante observador, detrás de uma certa e cerebral perversidade, eu percebia também um lado desolado e frágil, digno de compaixão.

Na casa deles, próxima ao Ibirapuera, sempre cheia de artistas de teatro e televisão, os risos e alegria soavam-me como se estivessem contidos numa redoma de plástico. Surdos e impermeáveis ao usufruto. Vendo-me assim, a dupla Gica-Marina se esforçava. Sheila, você está linda! Sheila, venha aqui que queremos te apresentar... Sheila, que sorte que você escapou daquele burguês!!! Você tem a vida pela frente!

A vida, eu só via a dos outros. Ficava num canto como um animal selvagem e espreitava. Da mesma maneira como fazia nas classes de primeiro ano das três faculdades às quais me havia inscrito depois de ter sido admitida entre os primeiros colocados: Comunicações, Ciências Sociais e Advocacia. Comparando a vida social e os estudos, para mim, não havia grande diferença. Ambos eram penosos e, pela igual falta de compensação intelectual, provocavam a mesma pergunta: “O que estou fazendo aqui?” Eu teria preferido escolher amigos e eventualmente professores que me fossem condizentes mas, sobretudo, adquirir sozinha aqueles conhecimentos. Deve ter sido por esta razão que, mais tarde, dei outro sentido à vida mundana, enveredei o autodidatismo, escolhi meus próprios mestres e deixei algumas sábias pessoas orientarem o meu trabalho.

Mas foi na casa de Marina e Cláudio que conheci Totó, o célebre ator Luís Cristóvão, personagem principal de um grande sucesso do momento: a novela “Joca Gates” de Cláudio Barbosa que, todas as noites, alcançava os mais altos picos nas pesquisas do Ibope! Verdade que o Cláudio tinha colocado quase toda a minha família, e eu mesma, como personagens de “Joca Gates”. Até a minha estória com Jonas estava lá! Mas eu que já não sorria, comia cada vez menos e não bebia uma gota de vinho, bem que estava precisando de tal aventura. E que aventura! Acompanhei o Totó em todas as turnês que ele fez pelo interior de São Paulo como se fosse protagonista desta vez, não de uma novela de rádio ou televisão, mas de um road-movie caipira! Até as fãs de Presidente Prudente queriam me arrancar os olhos.

A estória com Totó terminou quando tranquei todas as matrículas nas universidades e resolvi visitar minha mãe em Paris. No início ele enviou várias cartas quadriculadas e perfumadas com vetiver, que eu lia com deleite no terraço coberto e abafado da casa na rue du Parc Montsouris. Como eu não respondia, não voltava e ele tinha que continuar se apresentando nos estúdios de televisão como o eterno Joca Gates, por final as mensagens pararam. Para mim, tanto fazia. Os meus únicos interesses naquele momento eram aperfeiçoar o francês, passear com Gica e descobrir Paris.

Com ela conheci alguns de meus futuros amigos, vi o Concorde sobrevoar a Champs Elysées, visitei uma extraordinária exposição de flores. Fiquei sabendo que a casa vizinha tinha pertencido a Georges Braque, que as pombas daquela rua tinham sido modelo para as formas cubistas que estavam nos quadros dele, que o “Mercado das Pulgas” não era de pulgas. Com Gica e a pequena Fiat dela, percorri a cidade inteira, visitei exposições, olhei vitrinas, comprei lenços indianos, boina branca e boá de plumas cor-de-rosa, comi fígado de vitela com uva passa olhando o Louvre pela janela de um restaurante do quai Voltaire e sentei no Café de Flore! Isto, e não sei a razão, junto com um conhecido diretor do “cinema novo”, um famoso correspondente de jornal paulista e... Buñuel!

Luís Buñuel tomou café, falou de cinema, olhou-nos daquele modo atravessado, o olho direito semicerrado, e a sua expressão de cansaço marcou-me tanto quanto os duros vincos do seu rosto. Ele discorria entortando um pouco a boca e notei que os dois dentes da frente tinham uma pequena separação. O fato de analisá-lo assim impediu-me de prestar atenção ao que ele falava. Naquela época eu era obrigada a dar prioridade a apenas um método de observação pois ainda não tinha condições de “ver bem” e “ouvir bem” ao mesmo tempo. Aí está um homem que viu demais! Pensei. E, como eu o examinava a partir da minha experiência, acreditava que era por isso que Buñuel também parecia não “ouvir bem” o que os outros diziam. Pergunto-me se estava sendo injusta quando o cineasta se levantou para ir embora e imaginei que, bem mais do que outras celebridades, ele devia ser blasé ou simplesmente indiferente a tudo que, em minha inocência, eu ainda julgava uma "maravilha da vida".


Quando Gica decidiu ir embora de vez, acabei por ficar. Apenas dois meses depois da minha chegada, ela devolveu a casa alugada ao proprietário e me colocou num pequeno hotel alí mesmo, perto da Cidade Universitária. Deste modo, segundo ela, “eu teria algum tempo para achar um quarto de estudante ou um estúdio para alugar”. Deixou-me umas louças, panelas, o carrinho que as pessoas chamavam de “pote de iogurte” e se foi.

Era julho de 1969. Lembro-me até hoje quando eu, com a minha recém-tirada carta brasileira de habilitação, voltava do aeroporto de Orly aonde a tinha levado assim como todas as malas dela. Quase não conseguia enxergar o caminho de tanto que as lágrimas corriam pelo meu rosto. Estava sozinha no mundo pela primeira vez. Lembro também que passei na loja Nicolas e comprei uma enorme garrafa de plástico de vinho ordinário, antes de ir para o meu quarto de hotel. Foi o primeiro e último verdadeiro porre que tomei em minha vida. Acho que nunca me senti tão mal! Hoje, os jovens não querem mais sair da casa dos pais. Para Terence, que veio em seguida estudar em Londres e para mim, isso era uma questão de “honra”. Por isso ficamos independentes tão cedo. Depois do choque inicial do contato com a independência e a solidão, vieram as inevitáveis descobertas e desapontamentos nas relações humanas. Mas tudo correu bem, apesar do curto e malogrado namoro com o suicídio, como contarei mais adiante.

Ainda tentava me adaptar à nova situação, quando soube que a minha mãe esquecera de pagar a conta do telefone. O pouco dinheiro que eu recebia e depois também ganhava arrumando o consultório de um médico, não dava para cobrir os telefonemas todos que ela tinha feito ao Brasil. E o proprietário não era qualquer um. Tratava-se do irmão de Bóris Vian, o poeta. Por sorte, Gica encontrou uma maneira de me mandar a soma e lá fui eu com o envelope à casa de M. Vian que, pelo visto, também devia ser escritor.

Era 20 de julho, à tarde. Mal imaginava eu em que dia estávamos! Toquei a campainha e M. Vian respondeu mau-humorado: “Agora não posso, volte mais tarde”. Ao ver a minha decepção deve ter ficado penalizado pois mudou de idéia: “Bem, pode entrar. Mas aguarde um pouco, pois estamos muito ocupados”. Do hall eu via a televisão ligada e o sofá onde ele e a mulher sentavam-se. Penso que se sentiram constrangidos em me deixar ali plantada pois logo foram me convidando para sentar também. As imagens eram impressionantes e me deixaram muito emocionada. Foi assim, num gasto sofá de veludo vermelho, entre Monsieur e Madame Vian, com o envelope do pagamento da conta do telefone no colo, que eu vi - "maravilha da vida"! - Neil Armstrong, Michael Collins e Buzz Aldrin pisarem na Lua pela primeira vez.

Mas foi também naquele exato instante, do outro lado do oceano, que Gica, Felícia e a caseira Madalena arregalaram os olhos diante da televisão na biblioteca da “Casa do Telhado Verde”, em Campos do Jordão. Madalena fez menção de sair, dizendo que aquilo era invenção.

- Venha aqui, Madalena! Chamou a minha mãe. É verdade, sim. Olha aqui eles pisando na Lua! Estão até espetando a bandeira dos Estados Unidos! Está vendo?

- Tudo “mixugui”*... Claro que estou vendo! Vejo, mas não acredito.

Hoje indago-me: que personagem faria Buñuel de Madalena? Pena que não tive a idéia de perguntar isso ao seu roteirista Jean-Claude Carrière, com quem bastante conversei 26 anos depois.


* “Meshuge” ou “Meshugener” em iídiche: lunático.
 
Quarta-feira, Fevereiro 15, 2006
  31
Embora carregados de acontecimentos externos a mim, os quatro anos seguintes a esta minha primeira viagem ao estrangeiro pareciam escoar-se de uma maneira linear. E por pouco tão congelada quanto o pôster dos Beatles que fora colado à parede em cima do criado-mudo. Exceto um e outro episódio romântico ou político, as saudades recorrentes de minha mãe e meu irmão - e as vindas periódicas deles - a vida na rua Guadelupe transcorria sem grandes percalços. Docemente eu iniciava a minha luta para me fazer respeitar como "indivíduo", sem que a imagem da minha pessoa enquanto jarrão de porcelana chinesa pudesse interferir em demasia. Nada mais restava daquela época da adolescência, por exemplo, em que eu era obrigada a freqüentar, quase todas as noites, a luxuosa casa do meu tio Mehlson, no bairro do Pacaembu, para estudar matemática. Sim, porque aquilo me traumatizou!

Ao passo que minhas pequenas primas dormiam e os adultos divertiam-se no salão de piso de mármore preto e branco quadriculado - encimado por lustre e móveis em puro e vermeeriano estilo flamengo - eu ficava confinada no quarto dos fundos diante de problemas que julgava insolúveis, para os quais o meu tio artista, com a barba cheirando a tabaco e tinta, vinha de tempo em tempo me mostrar que havia uma solução. Eu me perguntava porque Mehlson era tão bom nas relações lógicas e abstratas da matemática e tão quimérico e extravagante com a arte dele. Porque não ficou engenheiro e empresário como o meu avô preferira? Porque, fora da sinagoga, ele nunca mais usara terno e gravata? Quando meu tio se afastava, eu me atirava, invariavelmente, na caixa de chocolates que a bela eslava Kuka, artista de teatro e primeira esposa dele – de quem fui dama de honra no casamento – esquecia sobre a cômoda. Isto, quando eu não atravessava a porta que dava para o jardim para ir brincar um pouco com os gatos dela.

Enquanto desenhava os números e sentia a madeira facetada do lápis maltratar meus dedos, eu ouvia a música, os risos e conversas daqueles atores, pintores e boêmios de toda ordem, lembrando do sonhado dia em que me levaram à loja Célia na rua Augusta para comprar o vestido de fustão branco bordado, com uma fita de veludo azul na cintura que terminava em laço detrás. Dama de honra! Aos 6 anos, como ninguém havia me explicado, não conseguira pegar no sono de tanto pensar no buquê de flores que chegaria da floricultura pela manhã e que, na minha imaginação, eu deveria, ao invés de segurar com simplicidade, "empunhar" publicamente atravessando a sinagoga inteira enquanto todos exclamassem: “Olha a Sheilinha! Que coisa linda o buquê da dama-de-honra do casamento!”

Talvez porque ele não gostasse de gatos e Kuka não apreciasse a vida boêmia, as lembranças tanto da cerimônia na sinagoga Beth-El - com o pequeno Terence de pajem e eu de dama de honor - quanto daquela festa com os lampiões coloridos e as mesas cobertas de flores e toalhas engomadas na rua Guadelupe, duraram (já que aprendi com ele a fazer cálculos matemáticos) cinco vezes mais do que o casamento do meu tio Mehlson.

Calculo também que nos quatro anos que se sucederam à minha volta dos Estados Unidos, subi e desci a rua Augusta cerca de 150 vezes, lamentei o golpe de 64 durante 1460 dias, viajei para Campos do Jordão e Guarujá em pelo menos 16 ocasiões, ouvi perto de 500 vezes I Want to Hold your Hand, mudei uma vez do Colégio Rio Branco para o Brasil-Europa, ganhei um Fusca cor de chocolate de Felícia, vi uma vez pela televisão os americanos marchando no espaço e os soldados brasileiros participando da tomada do palácio do governo na República Dominicana onde eu havia estado durante a pane do avião; protestei muitas vezes na escola quando a PM invadiu a Crusp e os americanos atacaram Hanói; no Brasil-Europa escrevi um primeiro trabalho político sobre a Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung; testemunhei inúmeras atividades clandestinas da minha querida Marion Sabsay e seus irmãos; vi Amélia derramar algumas lágrimas quando ela soube que Elvis Presley se casara e a minha avó reclamar repetidamente contra os médicos franceses que tinham “matado o pintor Antônio Bandeira”; pedi umas dez vezes para a Marion não ir ao congresso da UNE em Ibiúna; outras dez para ela não participar da reunião de medidas drásticas contra o CCC (Comando de Caça aos Comunistas) que havia espancado o elenco da peça Roda Viva; pela televisão assisti a vários Festivais Internacionais da Canção onde vislumbrei Geraldo Vandré quem, mais tarde, eu encontraria em Paris; passei 50 noites de segunda-feira indo aos festivais de música brasileira no teatro Paramount, em cuja platéia cantei São São Paulo, Meu Amor junto com Tom Zé, vi Edu Lobo cantando Ponteio, Sérgio Ricardo quebrando e atirando o violão no público e muito, muito mais!

E só depois de decidir que não namoraria intelectuais, grã-finos e estudantes reacionários do Mackenzie que brigavam com os vizinhos da filosofia da Usp, escolhi um noivo "certo". Foi para o meu presente de noivado que Gica teve a idéia de encomendar o meu retrato.


Retrato de Sheila Leirner - Flávio de Carvalho, 1968
Retrato de Sheila Leirner
Flávio de Carvalho, 1968

Quando Flávio de Carvalho desenhou-me, em 1968, eu nem sonhava que um dia poderia escrever sobre a sua arte. Ela ainda era, para mim, um mistério insondável que nenhum esforço de minha parte teria a virtude e sequer o direito de questionar, quanto mais trazê-la ao universo das palavras! Além disso, eu tinha apenas uma vaga idéia de sua multiplicidade criativa e da excentricidade genial de caráter, que o levaram a ser, segundo a definição de Sérgio Milliet aquele prolífero "intelectual do Renascimento". Um artista que parecia dispersar-se, mas aglutinava grande força na totalidade de sua obra fragmentária.

Portanto, naquela época, na minha visão, todo esse empenho visionário, essa convicção tão gratuita, obsessiva e mística daquele que foi um personagem mítico, uma espécie de "Fitzcarraldo das artes", desembocava sobretudo no desenho e na pintura. E talvez eu não estivesse assim tão longe da verdade. Mas o fato é que os seus trabalhos faziam parte de um repertório de objetos e imagens que estavam tão incorporados ao meu cotidiano quanto qualquer parte da natureza ou das conquistas modernas que geralmente não nos detemos para analisar. Logo, também eram aceitos, naturais e, simultaneamente, misteriosos.

No entanto, Flávio deve ter intuído o que eu haveria de iniciar cinco anos depois e, que, como todos os objetivos e ambições, também foi fruto de um estado subjetivo, uma vontade profunda de conhecer esses caminhos. Afinal, "a penetração no estado psíquico dos modelos que retratou", como escreveu um famoso historiador, "foi uma das preocupações fundamentais do artista". O que ele realmente queria - pude perceber isso com clareza - era dissecar sua personagem, fazendo-o, mesmo em silêncio, de maneira quase telepática.

É verdade que o artista não foi fiel àquela realidade externa e superficial que, antes de tudo, invariavelmente nos apresenta como máscaras. E isso nunca é muito lisonjeiro para uma mulher... Não que eu me sentisse assustada, como Mário de Andrade que, "quando defrontava o retrato feito pelo Flávio, via nele o lado tenebroso de sua pessoa, o lado que escondia dos outros". Mas esse retrato sempre foi para mim uma espécie de espelho como o de Lewis Carrol, com o qual continuo a dialogar.

Todavia, o artista articulava e construía seu traço de modo não apenas a transcender a aparência "convencional e decente" dos retratados, aquela que segundo Mário de Andrade "se apresenta em público". Ele o fazia de modo a realizar também uma composição plástica que lhe aprouvesse em equilíbrio e expressão. Apesar do traço rápido e do aparente desprendimento, buscava com meticulosidade cada pormenor que pudesse transportar para o papel e que finalmente servisse como amálgama do trabalho e do retratado, tomando-os uma coisa só.

Assim, Flávio intuiu-me. Fui retratada de maneira premonitória, e no fundo benevolente, pois o artista quis dotar-me apenas de olhos e mãos, os instrumentos vitais do trabalho crítico. Como se essa ênfase expressionista não bastasse, no desenho do dedo indicador de minha mão, excessivamente alongada, ele fez sair uma letra A maiúscula. Exatamente como sempre se deve iniciar a escrever a palavra Arte, quando ela se abre à nossa compreensão.

Mas os sinais não param aí. Do lado oposto a essa letra – também simbolicamente, a primeira do nosso vocabulário - há um A invertido. Certamente desejoso de equilíbrio, Flávio desenhou um contraponto que pode muito bem representar a ponta aguçada de um lápis.

Tudo isso e poucas palavras foram trocadas! No clima denso, obscuro, impregnado de ozônio, do ateliê da Avenida Ipiranga, eu posava inocente, sem imaginar o drama que iría se abater logo depois sobre a minha vida. E naquele inesquecível cenário futurista, a irreverência dele desaparecia em reclusão. Ali, Flávio entregava-se inteiramente ao circunspecto ritual criativo. Sóbria como seu próprio semblante, a nossa amizade limitava-se a uma troca desigual, na qual eu só tinha a oferecer o meu silêncio e admiração.
 
Quarta-feira, Fevereiro 08, 2006
  30
Abe e Gica
Abe e Gica, nos anos 50.

O apartamento de Gica em Nova York tinha um cheiro delicioso de roupa nova que eu associaria para sempre àquela cidade. Desde que a minha avó me fizera obedecer à regra de “sentar dois minutos calmamente, antes de sair de casa, para pensar se não esqueci de botar alguma coisa na mala” tinham se passado mais de 24 horas e eu mal podia acreditar que estava lá! Já no trajeto do aeroporto eu “observava os Estados Unidos” com os olhos arregalados enquanto contava à minha mãe como fomos parar na República Dominicana por causa daquela pane no avião. Ela não escondia o desespero que foi permanecer todo aquele tempo sem saber onde eu me encontrava e ainda enxugava as lágrimas quando atravessamos a 5ª avenida para entrar na rua 51, entre a Lexington e a 3ª, onde ficava o seu prédio.

No instante em que estacionou o Fusca, olhei para cima e vi Terence acenando da janela. “Faz horas que ele não sai de lá, disse Gica”. A alegria de rever o meu irmão era maior do que a de viajar a um país estrangeiro pela primeira vez. Ele veio correndo ao nosso encontro e, à medida que eu desfazia a mala e ia pendurando as roupas no armário aquecido e atapetado do corredor, ele – que normalmente propendia a ser taciturno e introvertido - falava sem parar. Embora a sua experiência se resumisse à Milford e mais precisamente à escola onde estava internado, Terence mostrava-se excitado com a idéia de me dar a conhecer a cidade e os hábitos daquele país que ele parecia entender melhor ainda do que a nossa mãe. Naquele momento exato começou a nevar. Creio que o arrebatamento que me causou a visão dos arranha-céus sob a neve, junto com o meu irmão, naquela mesma janela onde me esperou, só se compara aos doces momentos da infância que passamos lendo e conversando, em nossas redes, debaixo das árvores do sítio de Interlagos perto do Golfe Clube.

Nova York tinha sobre mim o mesmo efeito da bola de cristal com a qual Mané Katz fizera o meu retrato. Pura felicidade e exaltação! Mescla de inquestionável fascínio com apreensão, uma espécie de desejo abstrato e impaciente que eu não conseguia discernir e que me causava até mesmo desconforto. Eu seria capaz de mergulhar e divagar infinitamente naquela paisagem urbana de sonho à procura das estórias que imaginava existir dentro de cada janela que para mim nada mais era do que uma bolha de luz! Não fazia idéia do pesadelo em que a cidade se transformaria trinta anos depois, quando fui obrigada a viver algumas semanas confinada na bolha obscura da doença, medo e desamparo, onde os mesmos arranha-céus tornaram-se obstáculos, os sons ficaram assustadores e as distâncias infindáveis.

- Você quer descer para ver a neve e conhecer a cidade? Perguntou Terence.

Até hoje guardo os cartões Hallmark que compramos no caminho para a 5ª avenida onde ele fazia questão de me apresentar a Catedral de Saint Patrick. Conservo também a lembrança dos primeiros passos na neve, sensações, cheiros, e do primeiro contato com o inverno do que considerava ainda, “primeiro mundo” no qual eu podia usar, sem ser notada, o meu casaco bege de castor. Num dos cartões está um sapatinho de cristal, salpicado de purpurina, de onde sai o focinho de um gato que diz: “I can feel your shoes”. Esta foi a frase fetiche da minha estada em Nova York. Dai em diante repeti-a sempre que pude, da mesma maneira como Gica proferia a sua eterna “Never put bananas in the refrigerator”, expressão “mágica” aprendida quando veio a Nova York pela primeira vez. Ainda bem que esse tipo de mote não define a personalidade das pessoas. Caso contrário, eu não saberia o que dizer de minha mãe...

Naturalmente, as nossas aventuras turísticas não escaparam à regra: museus, biblioteca, Empire State, Cloisters, Central Park, hambúrgueres, TV diners, Times Square no primeiro dia do ano, coffee shops, pancakes, patinação no Rockefeller Center, musical na Broadway, Metropolitan Opera House, grandes lojas de departamentos, Hallmark na 5ª avenida, etc, etc. Mas algumas coisas me marcaram especialmente talvez porque não fossem turísticas.

Acompanhar a minha mãe a H.L. Purdy, onde ela mandava fazer os seus óculos, por exemplo. Foi lá que descobri como o formato dos aros era capaz de modificar um rosto e porque os Ray-Ban iam tão bem ao meu pai, como naquela foto dos anos 50 onde ele estava com a minha mãe num Buick conversível. Tentei imaginar a forma diabólica dos óculos de Lyndon B. Johnson que esquentava de vez a guerra fria do Vietnã, iniciada nos anos 50. Eu que adorava Kennedy, como é que podia suportar o nariz de batata belicosa daquele L.B.Johnson que o substituía depois do horrível assassinato enquanto eu estava no cabeleireiro Chez Moi? E enquanto Gica experimentava as armações de tartaruga, eu lembrava da foto de Jean-Paul Sartre no jornal poucos meses antes, quando ele ganhara o prêmio Nobel. “Deviam inventar óculos especiais para vesgos...”, pensei.

O restaurante King of the Sea também me marcou. Não tanto por causa do avental que os garçons enfiavam nos clientes e dos enormes e vermelhos caranguejos e lagostas que serviam, mas pelo que aconteceu naquela noite. Gica nos contava como costumava desmaiar na rua, explicando o que era a hipoglicemia descoberta pelo médico americano, coisa da qual só se sarava comendo proteína. “Jamais doces”, dizia ela, quando ouvimos um burburinho. Era Ravelstein, o próprio Herszek Ravelstein em pessoa, um dos maiores violinistas do século que atravessava o salão com a mulher dele, Bela Ravelstein, dirigindo-se à mesa... vizinha à nossa!

Foi a primeira e última vez que acompanhei com os olhos cada bocadinho de comida que uma pessoa levava à boca. Não era para menos. Jamais tal celebridade havia comido a dois passos do meu garfo. Mas, por ironia do destino, vinte anos depois, quando a já viúva Bela esteve no Brasil, fui membro instituidor da Fundação Ravelstein sendo que na festa oferecida pelo seu presidente, Felícia e ela tornaram-se grandes amigas, corresponderam-se e minha avó chegou a freqüentar o seu famoso salão mundano da avenida Foch em Paris, onde iam, entre outros, Marcel Pagnol, o barão Guy de Rothschild, Chagall, Picasso, Poulenc e Jean-Louis Barrault. E, 30 anos depois de eu ter fixado o músico comendo lagosta com aquele rosto de anjo velhinho e guloso, tive a infelicidade de ouvir a sua filha Neva, pintora abstracionista que empregava apenas o preto e o branco, importunar o meu terceiro marido que – frustrada por não tê-lo conseguido como amante - ela tomou enquanto confidente para contar como sofrera os assédios do pai incestuoso.

New York World's Fair 1964/1965
New York World's Fair 1964/1965 - Photo © By Max Mordecai

Eu tinha 16 anos, portanto, quando comprei o pôster dos Beatles na sétima avenida, com o qual decorei o meu quarto na rua Guadelupe; fui a um bar chamado “Serendipity” entre Greenwich Village e Gramercy Park, na época em que Internet ainda não existia e achava-se o inesperado, procurando-se por outra coisa completamente diferente, na vida mesmo; passeei de carro esporte na ponte de Brooklin com um gordinho, filho de uma amiga de minha mãe, sem conseguir trocar mais do que seis palavras, isto enquanto Terence se aborrecia de pensar que eu tivesse encontrado um namorado; e compareci ao jazz do Village Gate desconhecendo que ouvia John Coltrane. Portanto, nada – nem a New York World's Fair 1964/1965 com o seu (para mim “fantástico”) símbolo da Unisfera - comparou-se à visita que fiz à primeira e grande exposição da Arte Pop no MoMA.

Antes de eu chegar em Nova York, o governador Nelson Rockfeller e o “curador” da exposição universal Robert Moses tinham censurado o famoso “Most Wanted Men”, mural de Andy Warhol onde ele retratava 13 fugitivos procurados pela FBI. A obra estava instalada justamente na fachada do pavilhão de Nova York projetado pelo famoso arquiteto Philip Johnson, junto com outras de Roy Lichtenstein et Robert Indiana, o que exprimia a nova tendência Pop e uma certa impertinência da arte americana daquele tempo. Rockefeller, que certamente não entendia coisa alguma de arte, deu 24 horas para Wharol retirar o trabalho pretextando que os tais criminosos já não estavam mais sendo procurados pela polícia e que portanto não havia razão para exibir os seus retratos. Como se vê, os Estados Unidos também são um país de piada pronta! Warhol deve ter compreendido isto, pois propôs a substituição dos delinqüentes pela imagem de Robert Moses. Enfim, como ninguém ficou de acordo com aquela proposta subversiva, quando cheguei, lá estava a solução que o artista tinha encontrado para denunciar a censura: uma pintura monocromática de alumínio com a qual cobriu os retratos dos 13 bandidos.

Assim, com a minha pouca idade, testemunhei, ou captei sem saber precisamente, certas revelações do contexto artístico da época, como a emergência daquele ismo numa conjuntura marcada pela herança do expressionismo abstrato, a emancipação de uma imagética associada à cultura do consumo, o questionar do lirismo da pintura monocromática, a reabilitação do Dada e do modelo duchampiano e, do ponto de vista específico de Warhol, o recurso às técnicas de reprodução mecânica, reciclagem de imagens fotográficas, a predileção pelas iconografias funestas e... o glamour!

Verdade que não senti qualquer emoção quando vi Rauschenberg, Oldenburg, Jim Dine, Rosenquist, Wesselmann, Lichtenstein, Indiana, Jasper Johns e outros ainda naquela exposição do Moma. Mas a achei interessantíssima! Apenas chorei quando, na visita à coleção do museu, deparei com “O Cigano Adormecido” de Henri Rousseau – o Douanier, artista primitivo que me emociona até hoje e cuja tela eu conhecia apenas em reprodução de livros. Penso que foi como encontrar pessoalmente um velho e virtual amigo.

Terence espiava tudo, mas permanecia impassível. Devia estar se perguntando porque as mulheres choram tanto, pois Gica também teve o seu acesso. Foi quando passou por um empregado negro que, com um carrinho de limpeza repleto de produtos, lavava o chão do museu. Ela olhava para o homem e nós para ela. Gica deve ter ficado com pena, pois parou para observá-lo melhor até que percebeu que ele não se mexia. Assustamos quando vimos a nossa mãe soltar um grito dando um salto para trás:

- É uma obra! É uma obra! Exclamou ela, aos prantos, provavelmente emocionada com o choque socioestético daquele trabalho soi-disant “hiper-realista”.

- O que vocês acham de irmos embora? Isso aqui já está virando uma novela mexicana, resmungou Terence enquanto passava pelo mural Suicídio coletivo de David Alfaro Siqueiros e ia colocando o pé na escada rolante.
 
Terça-feira, Fevereiro 07, 2006
  29

Meu irmão e eu, adolescentes, em novembro de 1963
Copyright © Giselda Leirner

Onde estava eu quando JFK foi assassinado? Uma das leitoras do meu blog Quando, Onde e Como "era espermatozóide", alguns não se lembram, outros corriam atrás de balões e soltavam pipas, brincavam de boneca, jogavam bola; recordam-se da foto de Lee Oswald em O Cruzeiro. Outros, ainda, estavam às voltas com alguma chupeta, no colo de alguém ou mamando. Uma amiga estava na casa de um colega, estudando matemática. Para ela, assim como para uma outra que varria a casa, a notícia foi um choque pois ficaram com medo de uma Terceira Guerra Mundial, "nem mais nem menos!" Eu... estava no Chez Moi. Um cabeleireiro que ficava na rua Oscar Freire, quase esquina com a Augusta. Não que fosse excessivamente vaidosa. Apenas cumpria as ordens da minha avó que julgava um absurdo o nosso método, meu e de minhas amigas, de colocarmos respectivamente os nossos cabelos embaixo do ferro de passar roupa para os alisar. Então, a ordem era cortar à la garçonne para que os frisados desaparecessem e sobretudo para que não restasse nada para a taboa de passar. Deve ser por este mesmo motivo que várias meninas da minha idade apareciam de vez em quando na escola com o mesmo cabelo de moleque desta foto ai em cima. Mas eu adorava o Chez Moi por um único motivo: a manicura, que era uma pessoa maravilhosa e cujo nome lembro até hoje. Ela levava horas cortando cutículas para poder contar as histórias tristes com o marido chofer de caminhão que a traía em cada cidade pela qual passava. Contava-me pormenores da vida íntima dela com tal confiança que esse devia ser o único momento da minha adolescência, exceto quando estava com Julieta, em que me sentia realmente adulta. Ah! se a minha mãe soubesse que esta manicura foi tão importante para a minha formação psico-sócio-sexual-feminista-libertária futura...

Mas eu falava sobre o assassinato de JFK. Ora, naquele sábado, 23 de novembro de 1963, o salão estava repleto. Algumas senhoras com as cabeças cobertas de bobes, outras com elas debaixo dos secadores imensos em forma de nave espacial e outras ainda com elas deitadas na grande pia coletiva do xampu. Eu estava sentada na frente do espelho, com uma toalha sobre os ombros enquanto a cabeleireira se preparava para atacar os meus cachos com a tesoura. Contava a ela que tinha uma festinha de aniversário à noite, quando ouvi um berro e uma agitação. Nunca vi tantos bobes, aventais, cabelos e toalhas alvoroçados correndo para tudo que é lado. As pessoas gritavam, punham a mão na cabeça ou faziam o sinal da cruz. Alguém aumentou o volume do rádio que ficava na sala do xampu e todas dirigiram-se para lá. Levou algum tempo para eu compreender o motivo daquele abalo. Talvez porque que, em cabeleireiro, qualquer comoção fica mais histérica do que em outros lugares... Logo senti medo e fiquei tão penalizada que quando me olhei no espelho, vi que estava com lágrimas no rosto.
 
Quarta-feira, Fevereiro 01, 2006
  28
Festa na rua Guadelupe

Dez anos antes. Festa na rua Guadelupe: da esquerda para a direita, entre outros: Yolanda Mohalyi, tia Clara (mãe da minha querida prima Jeanine), Abe, Gica, Mané Katz, Lasar e Jenny Klabin Segall, meus avós Isai e Felícia, a escritora Maria de Lourdes Teixeira. No fundo, a escultora Moussia Pinto Alves e o crítico - Sérgio Milliet. Nas paredes, ao fundo à esquerda vê-se uma tela de Samson Flexor e à direita, uma pintura de Lasar Segall.

- Alô ? Marion, não posso falar agora. A casa está cheia de gente e a vovó pediu para eu não demorar. Reunião da UNE? Com o José Serra? Quem é esse? O que é que a gente tem a ver com a UNE? Sei... o teu irmão... Que agora em 63 o Brasil está uma bagunça, ah isso parece que está mesmo. Sei...gente do PSD indo para o PTB, e daí? Perigo de golpe? Golpe do que? Olha Marion, antes da política, tem coisa demais para eu entender. Hã? Não, amanhã não dá. Tem visita à Bienal com a Julieta que vai explicar expressionismo abstrato ao nosso grupo. É, eu sei que não te interessa. Ok, no final da semana vamos subir a Augusta, mas agora tenho que desligar tá?

Deixei a cabina e aventurei-me ao salão. Engraçado como, quando conversam com alguém, certas pessoas que lhe conhecem não conseguem nem ao menos fazer um sinal com a cabeça. Conservadores de museus e críticos de arte especialmente. Não é por falta de polidez. Fingem que não lhe vêem talvez para não precisarem executar duas tarefas ao mesmo tempo... O senhor Quenino de Barros era um deles. Mesmo desdentado e barrigudo, parecia um aristocrata dentro de seus ternos impecáveis e perfumados, com a sua imutável gravata borboleta de “pois”. Ele gostava muito de nós, principalmente Terence de quem mais tarde publicou os poemas. Tanto que nunca nos divertimos às custas dele, como fazíamos com a maior parte dos convidados de Felícia. Até hoje não sei se foi um bom crítico e também nunca entendi como era possível ele ter casado aos 90 e ainda por cima ficado pai!

Naquela época, eu tinha a impressão de que o mundo da arte compunha-se apenas de duas trincheiras opostas, sendo que na primeira estavam fortificados os artistas e na segunda, os críticos. Era uma batalha estranha, onde os primeiros não hesitavam em sair de seus abrigos para ir lisonjear o “inimigo” que, por sua vez, nem se dignava a afastar-se do buraco. Desta situação - certamente exagerada, própria da minha inexperiência adolescente - a única que não se enquadrava era Gica. Quando passei por ela, para ir ao jardim, ouvia-a conversando em inglês com um célebre comissário estrangeiro:

- Gostaria de conhecer os seus desenhos, dizia ele. Se quiser, podemos marcar uma visita ao seu ateliê esta semana...

- Vamos deixar isto para outra vez, respondia minha mãe, mudando rápida e altivamente de assunto, como se aquilo fosse coisa íntima ou como se o moço estivesse lhe passando uma cantada.

“Não. Decididamente, ela não obedece às regras desses combatentes da arte. Não tem trincheira. Não quer ficar famosa” pensava eu, enquanto me aproximava do terraço. Cantadas não faltavam naquele ambiente. Era um tal de maridos esquivando-se pelas saletas e detrás das plantas, e de mulheres olhando feio, que muitas vezes eu me perguntava se, antes do dinheiro, prestígio e cultura, não era esse o esporte predileto da sociedade paulista. Mais tarde soube até mesmo de casamentos que nasceram daí. Não foi o meu caso com o artista Isaac Hakam, que conheci no final da noite.

Minha avó, para variar, me pegou pelo braço:

- Deixe eu apresentar você a alguns prêmios. Era assim que ela se referia aos artistas laureados. E foi assim que eu decidi, mais tarde, ser completamente contra a premiação na Bienal de São Paulo.

Nas rodas de conversa havia pelo menos uma dúzia de “prêmios trocando idéias”. Enquanto um deles acenou à Felícia, Amélia cochichou em seu ouvido o grave problema ocorrido com o assado da Benedita. Sem saber a quem se dirigir primeiro, a minha avó pôs as mãos na cabeça e aproveitei para escapar. No terraço, sorridente como sempre, estava a minha doutora Julieta:

- Sheilinha! Que bom que você está aqui! Venha sentar perto de mim, disse ela ajeitando o colar de pérolas sobre o jabô da blusa colorida.

Em qualquer ocasião ela vestia aquele tailleur de tweed leve no qual invariavelmente prendia também um grande broche de ouro. Julieta não tinha nada de uma “intelectual”. Era o oposto de um daqueles “prêmios”, a antipática e arrogante Carla, herdeira de imigrantes italianos de grande fortuna, moça alta de rosto eqüino e expressão desdenhosa e amarga, cujos gestos masculinos combinavam bastante com a falta de asseio e o desgrenho sombrio de suas roupas. Julieta era doce, redonda, feminina, zelosa consigo mesma e seu coração rejeitava a maledicência e o menosprezo como se fossem os piores de todos os pecados. Ela, em sua cadeira de rodas, deficiente física por causa de um acidente em Trento, no qual, ainda criança, foi atropelada por um motorista bêbado, era uma flor. Mesmo tendo perdido parte de sua família em campos de concentração e compreendendo profundamente as mais intricadas e funestas vertentes artísticas da modernidade e do pós-guerra – e talvez justamente por causa disto - mantinha a delicadeza, o frescor e uma certa inocência de quem aceita e respeita o ser humano, desculpando-o, acima de suas torpezas. Não fosse a sua grande capacidade em nos comunicar a história da arte, apenas estas qualidades já seriam suficientes para guardar Julieta eternamente em nosso coração.

- Você não esqueceu, sim? Amanhã levarei vocês para conhecerem Alan Davie. Ele tem mais a ver com a pintura das cavernas do que com qualquer arte do século XX. Deve ser porque é um jovem músico de jazz... Discutiremos Pomodoro, Sanderbog, Schumacher. Também passaremos em revista os principais brasileiros e a Arte Pop que está nascendo. E vamos ver Gotlieb, Sheila! Que maravilha o expressionismo abstrato em grandes dimensões. Tão potente! Tão espiritual ao mesmo tempo! Na semana que vem, depois das “paisagens imaginárias” e “explosões” dele vou mostrar a vocês as ilustrações nos meus livros sobre Pollock, Rothko, Kline, De Kooning, Barnett Newman, Motherwell!

O que diria Julieta se soubesse que vinte anos mais tarde esta sua pupila, junto com a loira cineasta Marlene Dumbstein, estaria freqüentando a "beautiful people" de Nova York entre a qual brilhavam vários de seus “expressionistas abstratos”, minimalistas e artistas pop? Teria ela imaginado que a minha amiga jewish princess e eu encontraríamos Leo Castelli, todos os artistas dele e que, além disso, dançaríamos diariamente no Studio 54 ao lado de Andy Warhol, Keith Haring e Basquiat?

Warhol e Basquiat, NY. Copyright © Patrick McMullan Photography

Em nenhum minuto eu duvidava que Julieta, com o talento didático dela, seria capaz de carregar quilos de livros da sua biblioteca apenas pelo prazer de nos passar o entusiasmo que nutria por aqueles artistas. Mesmo quando ia à casa das grã-finas ou dava cursos em escolas como a que eu freqüentava. Nunca me pareceu que fazia isto também para sobreviver e sustentar o pai velho e doente que vivia com ela, o qual às vezes, apesar da sua mudez, carregava às recepções mundanas. Talvez porque, como nós, tivesse um motorista. Talvez porque se vestisse como uma dama e nunca desvelasse a pobreza da qual lutava como uma leoa para escapar.

De tempos em tempos ia à casa dela, vizinha do lugar onde, oito anos mais tarde, grávida de meu primeiro filho, eu iria levar e trazer bilhetes e remédios às escondidas durante as visitas ao meu companheiro, preso por motivos políticos. Com os lancinantes berros de tortura, cuja lembrança me atemoriza até hoje, foi também naquela rua que testemunhei uma terrível parte da história brasileira. Antes disso, apenas quando entrava na sala modesta de Julieta e via o pai dela, mudo e digno, na poltrona perto da janela, é que eu compreendia o peso que a minha virtuosa professora carregava.

Mas a inacreditável revelação que ela me fez naquela noite deu-se no momento em que nos chamaram para o bufê. Como todos levantaram-se e nos vimos face a face, perguntou:

- Você pensa que sou uma espécie de freira, não é?

- Bem... sendo judia você não pode ser freira. “Cohen” freira não dá! Eu diria que você é mais uma santa do que uma freira. Você é Santa Julieta!

- Pois eu não sou santa coisa nenhuma, disse ela com um sorriso enigmático.

E confidenciou timidamente:

- Estou apaixonada! E o meu amor não vive aqui. É escritor e mora na Bélgica. Vou para lá todos os anos, porque ele não tem recursos para viajar. Nesse meio tempo nos correspondemos. É uma história de amor muito linda e completamente secreta!

Agora eu entendia o brilho nos olhos da minha professora quando ela nos mostrava “O Beijo” de Klimt e algumas esculturas mais ardentes de Rodin. Ela trabalhava como um mouro sobretudo para viajar, visitar museus e... encontrá-lo!

- Mas... vocês dormem juntos? Perguntei, pensando nas imagens que vira num livro de anatomia. Era difícil compreender como seria possível alguém sem locomoção espontânea fazer os gestos necessários para completar uma relação sexual.

- Quando existe amor, tudo é possível, afirmou Julieta que, para mim, a partir daquele momento, transformava-se em heroína hollywoodiana. Katharine Hepburn apaixonada por Spencer Tracy… na Bélgica! E vocês vão se casar?

- Jamais! Declarou ela, resoluta, aprestando-se a girar as rodas da sua cadeira em direção ao bufê. "Ouça o meu conselho: se você quiser que uma relação de amor dure para sempre, nunca comam batatas juntos."

***

Fiquei encantada quando vi Isaac Hakam se aproximar com o copo na mão, apresentando-se um pouco como aquele que vinha salvar a arte do abstracionismo e do experimentalismo cinético, “coisas absurdas”, segundo ele, “diante da realidade da sociedade do consumo e do espetáculo”! De fato, mesmo que eu não concordasse com aquelas idéias, aí estava alguém que nada tinha a ver com os garotos da minha coleção. Até penso que o encantamento foi recíproco, porém, uma vez que ele morava no Oriente Médio e eu sabia que dificilmente o reveria, decidi que aquela conversa e o terno beijinho que ele depositou em minha bochecha provocando-me cócegas por causa da bigodeira, já eram mais do que suficientes. Despedi-me e subi ao meu quarto. Estava contente pois agora – pelo menos até conhecer aquele com quem noivei “de aliança” e deixei de ser casta - teria com quem sonhar sem precisar de palavras, bilhetinhos, pulseiras trocadas, beijos roubados. E, o mais importante, sem precisar “comer batatas juntos”...
 
Quarta-feira, Janeiro 25, 2006
  Quarta-feira, novo capítulo!
 
Terça-feira, Janeiro 17, 2006
  27
Sim, pois logo que o banquinho foi colocado no palco, que as luzes baixaram, que o moço abraçou o violão e começou a cantar, a platéia não se conteve. Foi a maior vaia que ouvira em minha vida! Ele parava, esperava e quando recomeçava, pimba! Vaia de novo! Pensei que Chico ia se retirar imediatamente, mas recomeçou 3 ou 4 vezes até que o mestre de cerimônias interferiu pedindo respeito. Ele tomou coragem e reiniciou:

Eu quero ver um dia
Nascer sorrindo
E toda a gente...

Os assovios ficaram ainda mais altos. Aconteceu, então, o que eu temia. Sem conseguir emplacar a sua Marcha Para Um Dia de Sol, o rapaz levantou, deu as costas para o público, passou por mim fazendo um pequeno gesto de desaprovação com a cabeça e esboçou um sorriso triste enquanto me olhava com aquele azul agora marejado de lágrimas. Depois continuou andando com os ombros caídos, a cabeça baixa, até atravessar a mesma porta do auditório pela qual entrara. Esta foi a primeira ocasião em que vi Chico Buarque de Hollanda pessoalmente. A segunda teve lugar no Rio, uma década depois, sentados na mesma mesa do Antonio's com amigos em comum. E a última, em meados dos anos 90, no Olympia de Paris cuja platéia o aplaudiu de pé e na qual eu estava ao lado da irmã de um conhecido líder cearense e governador de Pernambuco ex-exilado na Argélia.

Voltei silenciosa para a casa de minha avó. Estava cansada, contrariada pelo acontecido no auditório do Colégio Rio Branco, mas contente com o resultado final daquela Primeira Audição que reverteria em benefício do "centro". Como não tinha sono, sentei-me em frente à escrivaninha do quarto de estudos que ficava colado ao dormitório, ambos dando para a rua onde eu ainda via a mancha de tinta cobrindo a frase de amor sobre o muro. Procurei pelo meu diário que eu tinha prazer em esconder de Terence, mesmo sabendo que ele não se interessaria a mínima por ele. Era o sexto grosso caderno, escrito até a metade, que eu pretendia continuar preenchendo com os acontecimentos que julgava importantes para mim. Se, porém, desde 1958, quando comecei, cada vez escrevia menos era justamente porque passava de espectadora a agente destes eventos. Quando somos autores de nossas vidas não sobra tempo para nos darmos ao luxo do seu relato. É preciso às vezes esperar pela idade adulta e pela necessidade de partilhar a própria experiência para que os diários se transformem em memórias...

1964. O ano estava sublinhado e desenhado com grandes letras no meio de uma página que continha apenas uma frase: "Passei para o 2° científico". O resto permanecia em branco. Comecei a folheá-lo pelo fim passando em revista as páginas finais que, como era meu hábito, eu preenchia com os nomes e a descrição sucinta e, acredito, propositalmente leviana de todos os rapazes que se aproximavam, alguns dos quais me interessavam vivamente. O meu avô colecionava quadros, a minha avó, santos barrocos (o que chegava a causar estranheza às famílias da colônia judaica). As minhas amigas colecionavam selos, figurinhas e caixas de fósforos. Eu colecionava moços. Os primeiros 5 cadernos somavam 8 páginas com dezenas de "itens". E só neste último consagrado sobretudo ao ano anterior, consegui reunir 58 nomes distribuídos em 7 páginas, em cuja cobertura, eu mesma não sabia a razão, estava a frase de Shakespeare: "To be or not to be: that is the question / Whether it is nobler in the mind to suffer / The slings and arrows of outrageous fortune..." (Hamlet).

Reli apenas alguns parágrafos:

Z.- Um amor de garoto. Tem uma carinha linda e adora sorrisos.
A.C.- Gamou um pouquinho. Tem um Thunder conversível, mas é feio que dói!
F.- Tem jeito de pederasta mas não é. Intelectual à beça! “Beatnik” até dizer chega. Nunca vi tão excêntrico. Pena que seja tão mimoso.
W.- Que nome!
A.- Maravilhoso! Que inteligência! Meu coração já bate mais depressa.
R.- Não é lindo. É espetacular!!!
R.- A cara de Tony Perkins. Flerte apenas.
S.- 1,95cm. Moreno de olhos verdes. Apenas amizade e passeios de iate (muito criança).
A.- Este deve ter uns 18 anos. Não pára de me encher. Vive mandando rosas. Quando passo perto dele, fica eletrizado.
L.C.- Conheci num baile. Já está no segundo ano de engenharia. Quer sair comigo. Simplesmente lindo!
D.- A cara do Ben Casey. Parece gamado...
L.- 2° ano de Direito. Não é bonito, mas simpático. Derrete-se todo quando está perto de mim.
M.- Meu eterno admirador. Oh! Cara de pipoca!
A.- Docinho, simpático, pena ser tão criança. Inteligente Burro. Tem um Karman Ghia. Namoro Não namoro ele mais.
G.- Há séculos que me canta no recreio para eu lhe dar um beijo. Como torra!
O.- Têm um Renault conversível.
L.C. - Este não existe! Só no cinema. Porque está sempre sozinho?
A.- Adoro! Tomara que dê certo.
S.- Oh intelectualzinho da minha vida! Beatnik de bigode e cabelão, vestido à la Beatles. Muito lindo e inteligente. Ele e suas teorias zen-budistas! Adepto ferrado* das novas concepções e valores. Com ele seria um amor diferente pois não nos prenderíamos um ao outro. Abaixo as convenções!!!
T. - Esse cursa Administração e tem um Karman Ghia. É detestavelmente chato, cínico e um tanto quanto histérico!
E. - Inteligente, lindo, completamente grisalho. Tem um baita Karman Ghia. Só.
S.F. - Espertíssimo, moreníssimo. Para variar, também tem um Karman Ghia com vitrola. Mas logo terá um Alfa-Romeo (mês que vem).
L. - Meu professor mais querido do mundo. Ele me chama de "beleza da sua vida". E quem é realmente bonito é ele.
R. - Não me deixa em paz. Bonito mas sem nenhuma expressão naquele rosto. Em resumo, um perfeito asno!
M. - Gamou! Como é bacaninha, tem bilhões de meninas atrás dele. Bilhões, menos uma: eu.
M. - É advogado. Mora no Rio e me telefona todos os dias. Disse que está preocupado pois "o amor chegou para ele". Eu respondi que ele não precisa se preocupar pois para mim o amor não chegou.
M. - Veio de Porto Alegre para me ver.
T. - É muito forte. Faz halteres. Não tem miolo, mas tem um Interlagos conversível.
I. - Tem 33 anos. Nem sei quem é. Falou para a enfermeira do meu dentista que quer me conhecer.
T. - Vem aqui sempre e eu mando dizer que não estou. E ele é o rapaz mais lindo de São Paulo. Ainda por cima tem um MG esporte. Pfu!
L. - Americano barbudo existencialista. O máximo! Tem umas idéias bacanérrimas só que impraticáveis. É um não conformista de primeira categoria. Vai para os E.U. todos os anos e freqüenta as piores e mais revoltosas sociedades existencialistas. Têm uma vida completamente anormal. MUITO interessante!!!!

E essa minha lista continuava... "Basta! Só de ler duas páginas já estou com indigestão de moços e de carros", pensei. Aliás, nunca soube ao certo porque os rapazes da minha coleção se interessavam por mim. Pessoalmente, se fosse um deles não me acharia muito atraente. Devia ser por isso que, quando a minha avó me dizia que jamais tinha conhecido alguém tão amada, eu tinha a impressão de que ela estava falando de outra pessoa... E devia ser também por esta razão que até os 18 anos, quando assumi intimamente a maturidade, tudo - fora alguns beijos roubados e muito poucos consentidos - tudo era absolutamente platônico. Fui dormir colocando sobre o criado-mudo o recorte da revista O Cruzeiro do ano anterior, que encontrei dentro do meu diário.

Era uma reportagem sobre a VII Bienal de São Paulo na qual Felícia havia recebido o prêmio nacional de escultura. Como a revista pertencia a Assis Chateaubriand (cujo jardim de pássaros exóticos encantou a minha infância), além das reportagens de David Nasser, fotografias de Jean Manzon, Pif-Paf de Millôr e do Amigo da Onça de Péricles, sempre havia algo sobre artes plásticas. De um lado da página, no alto de um tijolo de texto bem escrito, o lead: “a união soviética foi o único país que apresentou trabalhos nitidamente acadêmicos, nos quais são exaltados feitos russos”. Do outro lado, razão pela qual a tinha guardado, estava a foto colorida, folha inteira, de Isaac Hakam, artista israelense de 35 anos que, além de trazer a novidade da “arte pop” (em reação à arte abstrata geométrica e informal e ao experimentalismo cinético) e conquistar um prêmio, de quebra, granjeou o meu coração. Fechei os olhos e adormeci pensando em Hakam: "este, sim, maduro, interessante, artista... não era como os garotinhos da minha coleção..."

Conheci-o na festa que Felícia organizou, coincidentemente, no dia da premiação. A casa resplandecia. Minha avó, idem. Gica que voltara por uns dias de Nova York, onde morava, mais ainda. Meu avô não existia mais, mas, segundo a minha imaginação, devia estar velando tudo. Tanto que o prêmio que sonhava para Felícia que ele parecia ter amado acima de seus próprios filhos, ela tinha justamente acabado de receber.

Lembro-me quando soubemos da notícia. Eu estava com a minha avó numa mercearia fina chamada Vilex, que ficava na rua Augusta à qual tínhamos, como sempre, ido a pé. Eu adorava acompanhá-la às compras. Tanto no mercado coberto de Campos do Jordão quanto em São Paulo, experimentava um prazer imenso em vê-la escolher, mandar embrulhar e pagar (ou, quando não estava com a bolsa, "pendurar") a nota. Além de conhecê-la e sorrir muito quando a viam, as pessoas davam ares de servi-la com o que havia de melhor e mais especial naquele momento. Até o Sr. Schwarz, proprietário do estabelecimento, gostava de vir pessoalmente mostrar e separar os fiambres e embutidos curados ao fumeiro. Repetia-se nestas ocasiões a mesma impressão de segurança e conhecimento da matéria e da forma que a minha avó desfrutava na escultura. Pela maneira generosa, experiente e sensual como ela examinava, escolhia, e às vezes discretamente cheirava e apalpava, as "substâncias" da mercearia ou do açougue, não apenas eu sabia que poderia comê-las de olhos fechados como já antecipava o deleite. É possível que a tradição rabínica de Felícia tivesse influenciado aquele cuidado que ela tinha com os alimentos e a inquietação que alguns deles lhe provocavam, como a carne de roedores ou os frutos do mar, por exemplo.

O senhor Antônio que devia vir buscar os pacotes mais tarde, gentilmente entrou na loja para nos informar. Por causa do modo sorrateiro como o motorista andava, e se os gatos usassem alfinete de gravata e sapatos lustrosos e pontudos, eu diria que Antônio era um deles. Quando menos se esperava, e sem ruído, lá estava ele miando, ou melhor, sussurrando:

- Dona Felícia, acabaram de ligar da Bienal. A Amélia pediu para eu avisar que a senhora ganhou um prêmio...

Sem mover um músculo, minha avó pediu que Antônio pegasse os pacotes, pagou a conta, despediu-se, me segurou pelo braço e tomou a direção da porta.

- Ai, vovó!

Eu sempre soltava um ai quando ela me agarrava pois, à força de apertar o barro, ela adorava fazer o mesmo na fofa redondez de meus apêndices superiores e inferiores. Era um tal de me dar uns beliscões carinhosos e de dizer: “Não agüentei. É muito gostoso te apertar. Me desculpe, Sheilinha...”. Eu vivia com marcas roxas e me sentia um pouco como aquela argila que ela amassava ou uma das nozes que abria simplesmente apertando os frutos entre si, sem precisar fazer uso de instrumento. Que mãos lindas, fortes e laboriosas ela tinha! Não me admira que não gostasse de anéis. Além de detestar "aqueles diamantes ostentados pelas milionárias gênero árvores-de-natal", anéis não combinavam com mãos operárias. Mãos de artista para a escultura e de artesã para o tricô, o crochê, os bordados e também os tapetes que tecia quando não estava no ateliê (ainda hoje possuo dois xales, toalhas e um lindo e pequeno "Arraiolo" em tons de azul inteiramente manufaturados pela minha avó). Quando entramos no carro é que eu vi como ela estava feliz! Só não tive a impressão de que estava surpresa.

À tarde, enquanto Felícia colocava as madeixas louras debaixo do secador no salão de beleza da Rua Augusta, as roupas para a festa da noite ficavam arejando nas araras do terraço superior e Amélia limpava os copos de cristal da Boêmia com álcool para "desinfetar do tempo que ficaram guardados no armário". Ao contrário de Terence que vivia metido consigo mesmo onde quer que estivesse, eu observava e perguntava sobre tudo com muito interesse. A copeira vestia as mesas com engomadas toalhas de linho bordado, dispunha sobre elas pequenos vasos e cinzeiros de Murano (também trazidos de navio nos baús, quando meus avós voltavam de sua visita à Bienal de Veneza) e distribuía os pratos de porcelana Rosenthal. A gorda e retinta Benedita preparava os quitutes brasileiros que iriam “regalar os estrangeiros do Ibirapuera” e Antônio ora recebia no portão as corbelhas da Floricultura Dora, ora atendia o chamado de algum comissário ou crítico de arte, como aquele senhor Giulio C. Argan**, que precisasse se deslocar em São Paulo.

- Dona Felícia esqueceu de pedir maracujá e farinha de mandioca na quitanda do japonês! Exclamava a terrível Benedita, entrando no jardim de inverno enquanto enxugava as mãos no avental.

Amélia, a minha inteligente Amélia, precipitava-se ao famoso compartimento com a chapeleira e o porta-mantôs, destinado ao telefone que, como já disse, situava-se ao lado do lavabo social de mármore, perto da porta principal. Telefonaria à quitanda do japonês para encomendar urgentemente o que faltava pois, fora os patrões, não havia ninguém ali – nem mesmo Antônio - capaz de realizar tal façanha simultaneamente prática, diplomática e tecnológica.

Assim, quando os convidados começaram a chegar, os salões já estavam inteiramente floridos, as mesas postas, os garçons prontos a servir as bebidas e a casa a cheirar doces e assados. As portas e janelas da sala de almoço e do jardim de inverno tinham sido abertas, a luzes do ateliê acesas e podia-se ver algumas mesas redondas no terraço que ladeava o jardim iluminado. Na parte de cima, os quartos e o banheiro exalavam Arpège de Lanvin, perfume que a minha avó ainda não tinha trocado por Chamade de Guerlain e os seus passos de uma peça à outra provocavam um suave farfalhar de sedas que eu ouvia enquanto espetava um broche no meu vestido "estilo Dior". Antes de descer, ela passou pelo meu quarto:

- Você está linda. Não demore, Sheila!

Eu sabia que a minha avó queria me apresentar aos seus amigos e me exibir com orgulho como se eu fosse um jarrão de porcelana chinesa ou mais uma das obras esculpidas por ela. Aos 15 anos isto me incomodava bastante. Escovei os cabelos, com uma fita fiz um apanhado no alto da cabeça deixando o resto dos cachos caírem sobre os ombros "à la Brigitte" como eu costumava dizer, enfiei uma sandália de salto prateada e, antes de ir à festa, escrevi rapidamente em meu diário:

"Tenho um caráter tremendamente revoltado, não sei porque. Estou cheia de defeitos. Procurarei corrigir-me embora eu deteste obedecer – o que já é outro defeito. Mas como estou cansada de ouvir sermões, apesar de que isto seja contra o meu sentido de independência, vou fazer tudo o que quiserem... Sou forte. Completamente o contrário de mamãe que é a fragileza*** em pessoa. Mas a admiro muito e sinceramente. Sinto-me infinitamente superior a estas crianças sem uma idéia mais séria ou modo de pensar. Minhas amigas não têm um ideal na vida, a não ser casar e ter filhos. Já estou farta desta vida fútil e vazia. Tentarei fazer uma vida interior mais intensa. Acho que já passei a idade de fanatismos por rapazes e por esta sociedade ignóbil. Tanto que nestas páginas só há rapazes, rapazes e rapazes. Mais ainda: não há aqui neste diário uma só palavra inteligente ou construtiva. Repito, estou farta disto tudo. Já resolvi como será a minha vida agora e depois irei para a Europa e talvez vá morar lá. Lá eu teria mais ânimo e razão para viver. Aqui não encontro isto. Estou decidida a aprender o inglês, o italiano e o francês perfeitos. Assim eu me darei bem por lá. Meu Deus, o que eu não quero neste mundo?"

Pouco depois de descer, já no jardim, a "doutora" Julieta Cohen, cúmplice e amada professora, me fez uma inacreditável revelação. E, no final da noite, conheci o artista Isaac Hakam.



*Ferrado (no caderno de 1963/1964/1965) - A minha intenção certamente era escrever "ferrenho" (obstinado) e não "em péssima situação".
** Giulio Carlo Argan: crítico de arte e prefeito de Roma, presidente do júri internacional da VII Bienal Internacional de São Paulo.
***Fragileza (no caderno de 1962/1963) - Por favor, leia "fragilidade".
 
Quarta-feira, Dezembro 07, 2005
  26
No final da tarde eu já me arrumava para o show que organizamos com um novato chamado Chico Buarque de Hollanda, que ninguém conhecia, e todos aqueles bambas da música que começavam a ficar famosos. Enquanto diretora cultural do "centro" - palavra tão repetida que o senhor Antônio, para me provocar, chamava de "centro espírita" - tinha que chegar mais cedo ao colégio Rio Branco para receber os artistas. Além do que, sabia que o programa seria gravado pela TV Record com o nome Primeira audição. E isto era uma grande responsabilidade!

Enquanto escovava os cabelos, várias dúvidas atravessavam o meu espírito: "Grande parte dos alunos virão com os pais... porque os meus pensam que este tipo de programa não é para eles? Porque, fora da música clássica, Gica só ouvia Dolores Duran, Maysa e Lotte Lenya cantando respectivamente e apenas – todo santo dia, quando estava no Brasil - 'A noite do meu bem', 'Se todos fossem iguais a você' e as músicas de Brecht? Porque Terence insistia que aquele barulho infernal que ele fazia com a bateria era música? Porque minha avó ouvia Beethoven tão alto? E porque meu avô adorava tanto Tchaikovsky, Rachmaninoff e mais ninguém? Não que eu quisesse me lembrar dele, mas... unicamente por curiosidade, onde estaria Abe que eu já não via há três anos e que música estaria escutando lá onde morasse? Será que meu pai escutava Wagner enquanto limpava o revólver e lembrava da época em que fora governador militar em Garmisch-Partenkirchen?" Mal sabia eu que, em duas décadas e meia, obteria uma resposta à penúltima pergunta. Mas apenas à primeira parte dela...

No imenso banheiro de mármore, com um enorme espelho biselado que tomava toda a parede sobre a pia central, a penteadeira de Felícia ficava à esquerda, perto do chuveiro, ao lado da janela que dava para o terraço e o jardim, e a minha à direita, em frente à banheira de porcelana onde eu passava horas a sonhar no meio da espuma, até que a minha avó viesse me chamar.

- Sheila! Chega de banho! Banheira é coisa de gente preguiçosa! Não é porque eu te digo sempre que a beleza começa pela limpeza que você precisa exagerar desse jeito! Chuveiro rápido, sim, é coisa para pessoas ativas!

Bem que Felícia tinha dado banhos de longa duração, naquela mesma banheira, na criança que resolveu acolher em Campos do Jordão. Eu mesma vi a minha avó arregaçar as mangas e testemunhei como foi difícil. A pequena estava imunda, faminta e a mãe a havia abandonado não longe da "casa do telhado verde". Felícia a trouxe para São Paulo, decidida a fazer dela "gente", como dizia. O projeto foi frustrado, pois a menina que já não era um bebê, começou a revoltar-se contra a vida civilizada. Tal qual um pequeno animal, não aceitava roupas, sabonete e comida que não fosse feijão e arroz. Não deixava que a penteassem, não queria aprender a ler, batia nas empregadas embora conversasse apenas com elas (jamais conosco), destilava ódio por todos os lados e fugia durante a noite indo se esconder no jardim ou na despensa. Pelo espaço de meses, ela foi mais um pesadelo em nossa vida do que um sonho de caridade. Era como se minha avó tivesse trazido um pequeno diabo para dentro de casa. Quando a mãe dela, finalmente, a reclamou, foi um alívio geral. Como a casa da rua Guadelupe ficou enorme, calma e agradável! Inconscientemente talvez fosse uma "solução de rabino" que Felícia encontrou para nos dar a dimensão do nosso "privilégio e civilidade"... Mas, quem sabe aquela menina acabou encontrando o destino certo e desabrochou longe da asfixiante civilização?

Quanto a mim, se bem que eu parecesse completamente adaptada à civilização durante as próximas décadas, o meu destino, apesar da sua proximidade com o avanço tecnológico, começava a se distanciar da falsa noção de "progresso cultural". Naquela época, eu não era selvagem e ainda menos um "garoto malsucedido" como várias de minhas amigas. Feminina eu era. Ainda que liderasse os grupos ou subisse nas mesas de ping-pong para fazer comícios, bastava olhar a prateleira dos perfumes e colônias lindamente arrumada abaixo do espelho, cada vidro fazendo parte da série dos dias que eu inventava: cones, prismas, espirais transparentes, formas oblongas de cristal negro, garrafinhas bojudas e floridas em contraste com luxuosos e imensos recipientes vazios que eu ganhava de Felícia, de tampas tão pesadas como esculturas de bronze e ainda algumas garrafas em furta-cor violácea e opalescente. Na gaveta, alinhava-se uma pequena caixa compartimentada e transparente com poucos cosméticos, mas na ordem absoluta das cores e dos brilhos. Com os instrumentos limpíssimos e perfilados, lápis, pincéis, escovinhas, pinças e com as caixas e potinhos de pastas e massas coloridas, eu – a despeito dos elogios que recebia – me divertia em pensar que podia melhorar a minha aparência que seguramente não me agradava!

Se eu fosse artista, pensava, poderia esquecer completamente de mim. Ficaria horas perdida no deleite de compor naturezas mortas. Nunca repetiria as incompreensíveis e às vezes até mesmo agressivas ou angustiantes imagens e formas "modernas" que eu via nos museus, galerias e bienais. E sobretudo nos ateliês de Felícia e de Yolanda Mohalyi, artista que minha avó e minha mãe me faziam freqüentar. Lá, naquela sombria casa do Sumaré que cheirava a tinta, onde eu recebi algumas aulas de pintura olhando de esguelha um estranho boneco de pano do tamanho de um homem que ficava num canto, nem a bondade e a doçura de Yolanda aliviavam a minha sensação de estranheza. Ao invés do cavalete e das telas, eu teria preferido um milhão de vezes encher as páginas de um caderno grosso, sem deixar qualquer espaço em branco, filigranando flores ou robustecendo e aveludando frutas. Não raro, tentaria a transparência de um copo ou o brilho de uma louça com o que conseguiria de mais natural da aquarela ou do pastel. Eu seria uma artista acadêmica!!!

Ah! Se alguém me ouvisse! Que bom, então, que eu não me via como artista, opinião igualmente partilhada pela minha professora de história da arte e italiano. Intelectualmente até que poderia vir a ser crítica de arte como ela, mas visceralmente não havia dúvida: eu era apenas uma... artesã! Aliás, entre a "doutora" Julieta Cohen (como a professora gostava de ser chamada) e a dona Bernardette, francesa e mestra de francês que morava na rua Padre João Manuel e que eu freqüentava duas vezes por semana, sendo que no final de cada aula ela reclamava o seu pagamento, preferia de longe a minha doutora italiana. Dona Bernardette cheirava a cigarro tanto quanto o seu escritório escuro que por sua vez lembrava os seus dentes e os dedos cobertos de nicotina cujo mindinho ostentava um anel de coral. Foi hipnotizada por este anel, enquanto ela dava voltas com o lápis, que aprendi a conjugar os verbos e a encolher a boca para entoar o "u".

Com Julieta, na verdade, houve adoção mútua e uma profunda estima. Digna, cultivada, cuidada, perfumada, penteada, sempre bem humorada, apaixonada e resplandecente, mesmo em sua cadeira de rodas, ela me adotou como a filha que nunca teve e eu a adotei como preceptora, amiga e depois "colega" que acompanhei até o final da vida. Creio que jamais conheci pessoa tão exemplar. Julieta marcou a minha vida. Voltarei a ela mais adiante.

Desci correndo as escadas em caracol, olhei-me por cima do vaso de flores, no espelho do hall, arrumei um cacho sobre a testa e fui chamar o senhor Antônio. Este, ao abrir a porta do Gálaxy, perguntou com aquele sorriso que reluzia igual ao alfinete dourado da gravata dele:

- A que horas começa o show do centro espírita?

Quando cheguei nas coxias do auditório, fora os colegas "diretores" ainda não havia ninguém. Os alunos e adultos, estes sim, já enchiam a sala enquanto os técnicos da TV Record instalavam câmara e microfones no palco. Eu estava ansiosa com a chegada dos artistas e torcendo para que não atrasassem. Preocupava-me até com os fãs que ficaram na rua para pedir autógrafos porque eles bloqueavam a entrada exclusiva pela porta lateral. Os primeiros a aparecer foram os componentes do Zimbo Trio e Ana de Hollanda. Depois vieram os outros e no meio deles, silencioso, um rapaz magro de cabeça baixa, com um violão. Eu sorri e me apresentei. Ele estendeu a mão sem qualquer expressão e foi lacônico:

- Chico.

Pensei comigo: "Será que é encabulado? Vai ver que é por isso que parece antipático". Ele ficou parado longamente olhando o movimento. Comecei a sentir pena pois aparentemente o moço não conhecia muita gente, fora a irmã dele. Parecia sozinho em extremo. Fumava e, quando decidi me afastar para continuar as minhas tarefas, percebi um tremor em seus dedos. Nessa altura resolvi apoiar aquele ilustre e desconhecido principiante:

- Como é que você quer tocar? Cadeira ou banquinho?

- Qualquer coisa.

Fui buscar uma cadeira e ele sentou-se ali mesmo, perto da porta. Tive a impressão de que era para sair correndo se a coisa apertasse. Começou a dedilhar algo no violão e parou. Parecia desconfortável:

- Tem um banquinho?

Fui buscar um banquinho. Ele continuou a dedilhar, a cantar também, dava ar ainda mais desconfortável e, quando fiz menção de deixá-lo, me olhou. Foi naquele momento que eu vi os seus olhos.

- Que olhos bonitos num rapaz tão feio, pensei. E ainda por cima, baixinho. No banquinho, então, parece um franguinho. Esse não serve para marido... a vovó sempre diz: "Para casar escolha um homem alto porque quando for apresentá-lo, ao invés de fazê-lo com a mão em direção ao chão poderá orgulhosamente levantá-la dizendo: ESTE É O MEU MARIDO!"

Ele continuava me olhando. Fiquei com medo que adivinhasse os meus pensamentos.

- Quer um copo de água? Ofereci.

- Não obrigado. Respondeu, virando a cabeça para afinar as cordas. E recomeçou:

Eu quero ver um dia
Nascer sorrindo
E toda a gente
Sorrir com o dia
Com alegria
Do sol do mar
Criança brincando
Mulher a cantar

- E como toca mal... ai meu Deus, é essa a voz dele? Pensei. Desafinada desse jeito. E é com essa canção acanhada e jururu que este moço vai enfrentar o auditório do Rio Branco? É isso que ele chama de Marcha Para Um Dia de Sol?!

Eu tinha a impressão de que o rapaz não queria que eu saísse dali, pois a cada vez que eu fazia menção de partir, ele me olhava daquele mesmo jeito, como quem precisasse de alguma coisa. Depois do banquinho e da água, o que mais eu poderia oferecer? Além do que, eu tinha medo de que, se o deixasse, na volta não iria mais encontrá-lo ali, uma vez que ele parecia cada vez mais assustado com os clamores da platéia e já estava tão perto da porta. Quase senti um alívio quando o show começou. Para o Chico, porém, foi o início de outro suplício...
 
Quarta-feira, Novembro 30, 2005
  25
Talvez porque não tinha um tostão no bolso que eu estava com a cabeça sempre cheia de idéias. Em Guarujá, onde pretendia usar os biquínis - no caso, pode-se dizer, "pagos a preço de ouro" – inventava verdadeiros romances para transformar os ritos previsíveis do dia a dia em aventuras inusitadas. Mesmo bem vigiada por Felícia, tudo naquela cidade chamada Pérola do Atlântico, que para os demais veranistas não passava de banalidade, já servia na minha imaginação para converter as férias em roteiro de filme. As janelas dos prédios vizinhos ao nosso Azul Mar, as calçadas da Avenida Marechal Deodoro, os passeios à beira-mar pela Pitangueiras até o edifício Sobre as Ondas, o morro do Maluf, as “pedras” (rochedos onde deslizavam tarântulas do tamanho de uma laranja), o bar Atlântico, a lojinha, a "piscina" do Clube da Orla onde à tarde desfilávamos as roupas e os bronzeados, o cassino, o cinema, o ovo com presunto que meu avô preferia à pescada ao molho de camarões do restaurante Monduba, o salão de pingue-pongue e até mesmo o murinho do prédio onde os amigos reuniam-se para conversar. Às vezes eu figurava filmes antigos: o seu Osvaldo, farmacêutico da minha avó, por exemplo, contava que a cantora Bidu Sayão sempre vinha de charrete da praia de Perequê para visitar Santos-Dumont no velho Grande Hotel. Para ele, mesmo que o falatório fosse outro,"certamente havia algo entre eles".

E assim era não apenas em Guarujá e Campos do Jordão. Mesmo nas viagens, como aquela que fiz à Salvador com um grupo da escola, só o fato de dormir no quarto onde – diziam - suicidara-se o célebre pintor primitivo Raimundo de Oliveira, bastava para carregar de significado a minha primeira descoberta da Bahia. Não me admira que para o aniversário de meus 15 anos minha avó me ofereceu uma pequena Olivetti, máquina esta que fui buscar junto com o senhor Antônio no setor de atacados da própria fábrica. Ainda assim, em lugar de ir para o papel, as aventuras continuavam na minha fantasia. Apenas na escola, onde – exceto desmaiar uma vez no corredor - nunca consegui descobrir nenhum apelo cinematográfico ou literário, quem fazia o romance eram os outros.

Como em todas as manhãs ao acordar, naquele dia puxei com esforço a fita da pesada persiana sobre a janela que dava para a rua Guadelupe. O sol estava a postos e verifiquei que ninguém acampara no terreno ainda baldio, semi-escondido por um muro de tijolos, do outro lado da rua. Virei as costas mas, enquanto dirigia-me ao chuveiro, pareceu-me que eu tinha lido o meu nome em algum lugar. Voltei correndo e deparei com a frase escrita em enormes letras brancas sobre o paredão: "Sheila, eu te amo!" Entre os três colegas de escola que eu imaginava serem capazes de tal façanha, decidi que o autor era o ruivo. Isto muito embora eu tivesse preferido que Antônio Fagundes fizesse parte do trio. Não fez. Com toda simpatia e amizade que trocávamos, o seu amor já era o teatro e, na nossa classe, eu me dizia – com um suspiro abnegado por força das circunstâncias - "esse vai longe!" Foi o ruivo tímido, sardento e magricelo dos cabelos cacheados que nunca ousara me falar e que por isso mesmo teve a coragem de pichar... o muro na frente da casa de Felícia!

Pena que, naquela época, a máquina fotográfica e a conseqüente documentação das cenas importantes da família fosse privilégio apenas de Gica, que enquanto não se decidia a cursar Filosofia na USP, havia seguido o curso do Foto Cine Clube Bandeirante e por isso empunhava a sua Asahi Pentax SP a torto e a direito. Pois, como minha mãe não estava lá, a primeira declaração de amor que recebi em minha vida foi tristemente efêmera. Não durou mais do que uma hora, tempo que o motorista de minha avó levou para chegar ao serviço.

- Antônio! Por favor, faça desaparecer rapidamente esta pichação aqui. Que vergonha! Determinou ela.

Antônio sorria muito enquanto cobria a frase com o grande pincel que mergulhava no balde de tinta. Já o meu narcisismo sofria bastante:

- Vovó, deixe a pichação só por uns dias para eu poder olhar de vez em quando... ninguém vai notar...

De nada adiantou. Da frase não restou senão uma grande mancha branca para me lembrar que eu era amada e que não valia a pena me atirar às escondidas nas nectarinas e cerejas arrumadas com tanto zelo na fruteira de cristal do jardim de inverno. "São frutas caras e importadas, dizia a minha avó. É preciso comê-las com parcimônia". Estranha inversão que, de certa forma, repetia a experiência da juventude dela. Não foi a minha avó que me contou o prazer que sentia em ir à feira quando ela chegou ao Brasil? "Que maravilha aquela quantidade de bananas, laranjas, tudo aquilo cujo preço era proibitivo (tanto quanto as nectarinas e cerejas para mim) durante a primeira guerra na Polônia!" Felícia descreveu até mesmo a reação de espanto dos feirantes quando a viam aproximar-se com uma cesta, chapéu e...luvas! Chego a imaginar a minha avó com as mãos cobertas de tecido claro e rendado, girando uma manga entre os dedos. Ao sentir o seu perfume, talvez a largasse logo pensando, como Madalena, que "manga é quente, dá espinhas; também é perigoso comê-la e tomar leite depois".

Quando frutos proibidos não eram os alvos de meus assaltos gulosos, havia os extraordinários "baurus" que eu atacava no bar do colégio Rio Branco com o que sobrava do dinheiro dos biquínis. Tão bons quanto os do Ponto Chic, onde o pai de Marion Sabsay costumava nos levar. Havia ainda, na saída da escola, várias outras guloseimas como o doce cor-de-rosa e branco de machadinho, o picolé e a paçoca. Nenhum destes prazeres, entretanto, comparava-se com o que me davam as partidas de pingue-pongue no "centrinho", como chamávamos o CCRB (Centro Cultural Rio Branco). Aliás, nada – nem as férias – me era mais caro do que aquele grêmio de alunos. Tanto que logo eu integraria a chapa Liberal, formada com o objetivo de dirigi-lo. Se fossemos eleitos, a minha função estava definida: eu seria "diretora cultural" da mini instituição que ficava dentro do microsistema escolar que, na minha cabeça, "representava o Brasil". Sim, porque já quando eu ainda mal sabia ler e meu avô, vendo-me pensativa, perguntava-me no que estava pensando, invariavelmente eu respondia: "Estou pensando no Brasil!" Não que as gargalhadas dos adultos que, também invariavelmente, se seguiam me provocassem essa resposta, uma vez que os meus avós me julgavam dotada de grande talento teatral. Não. Eu pensava realmente no Brasil, ou melhor, na sua grandeza, pois era a única maneira de entender porque eu me sentia tão minúscula.

Em todo caso, deve ter sido ali no grêmio do colégio que o meu futuro papel de curadora de mega-instituição, dentro de um verdadeiro macro-sistema, foi forjado. Ou, pelo menos, talvez tenha sido naquele momento que percebi a importância do trabalho coletivo e a grande ilusão do "brilho pessoal".

A chapa era forte. Meus colegas, notáveis. Alguns, até hoje. Não é porque o nosso palanque foi a mesa de pingue-pongue que deixamos de nos impor. Gritávamos e prometíamos ao microfone todas as maravilhas que iríamos executar se os jovens eleitores nos dessem a confiança deles. Fazíamos muito alarde e propaganda também na saída da escola, certamente repetindo o que víamos durante as eleições na cidade. Sobre as outras chapas tínhamos uma grande vantagem: um plano de ação. Um projeto que incluía a nossa maior obra: O Fino da Bossa no Rio Branco. Ao vivo!

Antes ainda de saber se venceríamos, telefonei ao professor de violão com o qual havia começado a minha curta e veleidosa carreira de violonista. Não sei porque, mas era Toquinho. Excelente professor. Apesar de me fazer sofrer com cordas que me davam calos nos dedos de onde saía pouca música pela minha falta de talento, ele tinha uma maneira calma e condescendente de falar. Finalmente, foi Toquinho quem me colocou em contato com os artistas que consegui convidar. Chico Buarque, por exemplo.

Ganhamos. A nossa chapa venceu de longe. E eu, aos 15 anos, era uma "diretora cultural" de quem Terence, além de se orgulhar na classe dele, poderia receber certos privilégios, como não ter que fazer fila para a mesa de pingue-pongue. Entre muitas outras coisas, publicamos uma revista e montamos a peça A Ceia dos Cardeais para que Fagundes pudesse pôr em prática a sua primeira experiência teatral. E realizamos o nosso sonho de apresentar O Fino da Bossa, sem bem me recordo, com Alaíde Costa, Elis Regina, Jorge Ben, Nara Leão, Zimbo Trio, Ana de Hollanda, Oscar Castro Neves, Sérgio Mendes, Os Cariocas. Quem estava lá lembra-se do que aconteceu entre Chico Buarque e o público. Eu lembro-me do que aconteceu entre nós. E Chico provavelmente não se lembra de nada...
 
Quarta-feira, Novembro 23, 2005
  24
Meu fusca
Alguém que, como Madalena, é capaz de compreender o universo só pode desculpar os erros que pertencem ao mundo. Ou, pelo menos, cometê-los e conviver com os desacertos alheios sem que os resultados lhe deixem marcas. Se nós, Terence e eu, compreendêssemos melhor as nuanças e os amálgamas da espécie humana, lá onde sentimentos e apreciações diversas, até mesmo as contraditórias, se misturam, certamente não passaríamos por um milésimo do que sofremos. Mas, qual jovem ou criança possui esta aptidão?

Com todo o fasto, alegria aparente, esplendor da cultura e história que nos cercavam, fundamentalmente, assim como os demais seres humanos, não podíamos ser felizes. Bastava sairmos da brilhante estrutura social para nos encontrarmos de imediato face à nossa própria vida e sobretudo à pesada e sombria realidade dos nossos próximos.

Esta traduzia-se pelos mais diferentes comportamentos e reações. Uma delas foi ouvirmos, à propósito de alguma ordem que nos recusávamos a obedecer, a acusação de que “eramos culpados pela morte do nosso avô”! Nós e, portanto, em nossa imaginação, Gica também. Mas como e porque Gica, Terence e eu tínhamos matado o meu avô? Minha mãe também era desobediente como nós? Desobedecer dava câncer nos outros? Se tivéssemos compreendido que os labirintos da dor levam a palavras ou atitudes impensadas e nem sempre justas, aquela incriminação teria sido esquecida. Não foi. Depois de uma infância turbulenta e de várias visitas ao consultório do Sumaré, onde a corpulenta doutora Judith, célebre psicóloga infantil alemã diagnosticou uma “fantasiosa culpabilização pela separação dos nossos pais”, coisa que, aliás, ocorre com a maior parte das crianças, era impossível arcar com uma “culpa a mais”.

Eu que já tinha nascido assustada (talvez por causa daquela perda de altitude do avião onde meus pais viajavam ou simplesmente porque, na barriga de minha mãe, fui cúmplice da desventurosa gravidez que Abe fez Gica passar) não precisava de sustos suplementares. Nasci tão amedrontada, que, até das festas com palhaço, eu fugia. Uma vez, contaram-me, foram me achar várias esquinas longe da casa de uma amiguinha que festejava o seu aniversário... Em outra ocasião, e desta lembro-me bem, ao ver uma menina defeituosa, certamente por causa dos efeitos devastadores (e até então desconhecidos) da talidomida, desabalei novamente pela rua parando apenas para me jogar nas almofadas do terraço onde fiquei muito tempo olhando o céu. Procurar configurações reconhecíveis nas nuvens era a única maneira de acalmar o horror que me davam as formas desconhecidas.

Penso que, assim como os psicanalistas criam-se a partir da própria neurose (precisam sofrer mentalmente o suficiente para procurar ajuda e tornarem-se eles mesmos terapeutas), alguns críticos de arte provavelmente devem se formar tomando por base o desafio de conformações não raro estranhas à sua sensibilidade. Analisar o incógnito é uma forma de enfrentar o medo que ele causa. No futuro, talvez eu sentisse que era muito perigoso entrar na subjetividade das obras - colocar em confronto as minhas particularidades e a dos artistas - sem instrumentos contemporizadores da mediação crítica como, entre outros, a língua, história, filosofia, semiologia e mesmo a psicanálise...

Mas as nossas desditas, minhas e de Terence, não paravam ai. Além das repreensões habituais geralmente inofensivas, havia também as manifestações de medo excessivo em relação a tudo que nos cercava e um controle exagerado, sobretudo de meus passos. Até o simples ato de fazer uma chapa de pulmão no Grande Hotel era acompanhado de advertências: “Veja onde entra! Teve uma hóspede que foi importunada por um garçom!”.

Comida, vento, pessoas. Tudo era perigoso. Como Gica não estava lá para nos afastar dos perigos do mundo e Abe tampouco, não raro meus tios eram chamados à casa de minha avó para os interinar. O que terminava invariavelmente em tapas e lágrimas. Rudolf era gentil e carinhoso quando me deixava trocar as marchas e ouvir João Gilberto no rádio da sua Romi-Isetta. Porém, se eu insistisse em voltar fora da hora permitida ele podia transformar-se em prepotente e antipático sentinela de Felícia.

Talvez fosse por estas razões que enquanto moramos com ela e já não dormíamos mais no mesmo quarto (que ficou para mim), Terence fechava-se na pequena peça dos fundos que dava para o jardim e, quando não estudava, escrevia ou desenhava, descarregava o humor dele na bateria que ficava no ateliê de nossa avó. Mais tarde, até a tentativa de fazê-lo interessar-se pelo trabalho na indústria Ponto-e-Lã foi em vão. Não demorou para que, um belo dia, ainda adolescente, ele mudasse para um apartamento no centro da cidade. Não sei porque nunca o visitei naquele estúdio, mas creio que Gica levou um susto quando viu que o seu filho havia forrado as paredes com as fotos petulantes que tirava das “modelos” encontradas na sua nova vida de boêmio precoce na noite paulista. Ainda falarei das andanças e aventuras de Terence em São Paulo, Nova York e Londres, enquanto aluno de Jerzy Grotowski em teatro; e depois, em Chicago e Barcelona, já como escritor e brilhante vice-presidente de uma multinacional americana. Terence é o que se pode chamar de um bem sucedido self-made-man. Afinal, irmão meu que ele era, não podia ter uma vida menos glamourosa do que a minha!

Na adolescência, entretanto, apesar da minha crescente popularidade, sobretudo depois que fui eleita “Miss Colégio Rio Branco” – saindo na capa da revista O Ribran - o glamour da minha vida era bastante contraditório. É preciso dizer que, aos 16 anos, o meu quarto na casa da rua Guadelupe fora decorado com vários cartazes, entre os quais um dos Beatles (em tamanho real) que eu havia trazido de Nova York, a primeira cidade estrangeira que conheci. Além disso, acrescera-se de uma antecâmara com biblioteca e escrivaninha onde eu recebia as amigas para estudar.

Eu tinha dezenas de “amigas íntimas”. As únicas que não vinham para estudar eram Marion Sabsay, Paulete Bernfeld, as duas “irmãs da juventude” e Georgia Abensur, que havia casado aos 16 anos. Esta vivia trancada em casa pelo marido, cercada de bonecas, e eu a visitava às escondidas. Naquela época, a loira Marlene Dumbstein eu só encontrava no Guarujá. Com as quatro, nada de estudo, apenas cumplicidade.

Georgia fugiu de casa, desabrochou e transformou-se em pintora de renome. No tempo da repressão, Marion, neta de um magnata do papel, entrou para a Vanguarda Popular Revolucionária e tornou-se guerrilheira urbana. Na casa dela, estive presente ao casamento do Capitão Petrarca com Yoná Sterenberg que, alguns anos depois foram assassinados. Minha amiga foi presa e torturada junto com o irmão dela, acusado pelo seqüestro de um diplomata estrangeiro e pela explosão de um restaurante na zona sul de São Paulo. Em seguida fugiu e viveu um bom tempo como exilada política em Londres, enquanto eu me mortificava pelo fato de minha avó não ter permitido que se escondesse em nossa casa. Apenas hoje, mesmo se as “conseqüências” previstas por Felícia me parecessem um pouco fantasiosas, admito que teve razão em querer proteger a família:

- Eu sei o que é ser um imigrante, dizia minha avó. Se descobrirem a sua amiga aqui em casa, seremos obrigados a deixar o país...

Por outro lado, Paulete, irmã do meu futuro noivo, ela que eu adorava pela vivacidade, elegância e personalidade, cometeu dois erros de antecipação. Casou-se cedo demais com um judeu sefardim (contra a vontade de seus pais ashkenazi) e morreu também precocemente, deixando filhos pequenos, no desastre de um automóvel luxuoso que, como sempre, era veloz e imprudentemente conduzido por ele.

E a loira Marlene - órfã de mãe, mimada até às orelhas pelo pai - jewish princess do dedinho do pé até as sobrancelhas, abandonou os estudos, renunciou à "alfabetização" e às letras, fez um rápido cursinho de cinema e foi tentar ser cineasta e fotógrafa em Nova York. Nesta cidade – interesseira e sempre dependente de assistentes e empregados que, por falta de competência pessoal, pagava a preço de ouro - casou-se ou ligou-se várias vezes, todas elas com homens célebres (e ricos) do cinema e das artes. Tenho muitas, muitas histórias a contar sobre a minha vida em São Paulo, Nova York e Veneza com a tola e generosa Marlene Dumbstein. Bem além do Guarujá...

Quanto ao glamour contraditório da rua Guadelupe, o meu armário estava abarrotado de vestidos que tinham servido de padrão à linha de produção da Ponto-e-Lã, ostentava um casaco de pele de castor e uma gaveta de jóias. Aos 18 anos ganhei até mesmo um fusca "café-com-leite" de Felícia. Eu organizava as minhas festinhas de aniversário e de São João mobilizando todos os empregados da casa. A cozinha de minha avó cheirava a coco, abóbora e açúcar que a pesada e retinta Benedita, tia de Amélia, preparava para os meus jovens convidados.

Apesar dos seus quitutes divinos, eu não gostava daquela beata pois sabia o quanto a sobrinha sofria com a beatice dela. Parecia que a devoção fingida da cozinheira só servia para perseguir a minha querida Amélia. Benedita insultava: “Rameira pinguça! É isso que você é! Decaída! Boa bisca pros seus negos! Gritava correndo atrás de Amélia que ia se esconder chorando no cubículo rosa e rendado, cheirando a pó-de-arroz e remédio inseticida em cima da garagem. Quando não ia consolá-la, dirigia-me sem demora ao quarto de Felícia para reclamar. “Vovó, a Benedita está torturando a Amélia de novo! Faça alguma coisa!”

- “Sheila, não se meta!”.

E, antes de recolocar o nariz em algum dos tomos de Em busca do tempo perdido, dizia:

- “Filhinha (era assim que a minha avó me chamava) você vai me prometer uma coisa...”

- “Pronto, agora ela vai me pedir de novo para não conversar com as empregadas”, pensava eu.

- Você vai me prometer... mas, tem que dar a sua palavra mesmo, viu? Que lerá Proust, do começo ao fim! Promete?

Decididamente. A minha avó não pertencia ao mundo dos mortais... Prometi. Ainda não cumpri, mas prometi. E voltei para a organização da minha festa pensando que o glamour da minha vida não era contraditório por causa dos qüiproquós com as empregadas ou dos acontecimentos inesperados com as minhas amigas e o meu irmão. O problema é que, com tudo aquilo, eu nunca tinha um tostão no bolso. À minha prima Jeanine – que me escutava atônita – eu dizia: “Fora algumas lembranças, não vou ter nada meu. Não sou mimada, não senhora! Sei o que é ser rico, mas é porque estou viajando na vida dos Leirner ‘de carona’!”

Logo, como ninguém se lembrava que, diferentemente de um pequeno, querido e lindo animal doméstico, eu precisasse talvez de um dentista, de um médico ou simplesmente de alguns trocados para as minhas necessidades terrenas, para que serviam as jóias da gaveta? Sem que ninguém soubesse, vendi todas, uma a uma. Teria vendido mais ainda se as tivesse, àquele joalheiro espertalhão da rua Augusta. E foi apenas para comprar... biquínis!
 
Quarta-feira, Novembro 16, 2005
  23
Madalena, 1971 © Foto de Alan Fisher, cônsul dos EUA no Brasil.
"Madalena", 1971 © Foto de Alan Fisher, cônsul dos EUA no Brasil.

***

Hoje, as distâncias não apenas diminuíram como perderam o dom do desafio e a carga de mistério. Naquela época, Madalena certamente nem suspeitava que a quase 300 quilômetros de Interlagos, e a 1700 metros de altitude (o que para nós era enorme), tal luxo fosse possível. Se lhe contássemos o que era uma “boate” e que o Grande Hotel possuía uma com camarotes, pista de dança e conjunto de música, de novo cobriria o rosto com o avental para esconder as gargalhadas desdentadas:

- Juventude bossa nova. É isso que vocês são! Tocam João de Barro na boate? Virgem Maria! O mundo está acabando!

E sairia arrastando as chinelas de feltro, a cantar “João de Barro, tum, tum, tum! João de Barro, tum, tum, tum!”. Mas, na rádio Nacional que ela escutava desde o momento em que, ao acordar, estendia o braço para alcançar o botão do grande aparelho envernizado cujas grades circulares cobriam um tecido prateado, nem o fantástico Ary Barroso (que tocava gaita quando narrava gols), Emilinha Borba, radionovelas, publicidade, o locutor ou o repórter Tico-Tico, lhe fariam conhecer o “grande mundo”. Espreguiçar-se-ia acotovelando Arnaldo que dormia entre ela e a sua irmã Virgínia, na mesma cama de casal sobre a qual estava o crucifixo e, ajeitando o lenço branco sobre os longos cabelos brancos, levantaria para fazer o café.

No entanto, foi naquela boate que o tio Salomão veio buscar Jeanine para arrastá-la ao quarto onde, segundo ela, quase “a matou”. Pobre prima de quem eu gosto tanto! Não que eu antipatizasse com o seu pai, mas essa história, mais a mania que ele tinha de brincar comigo ameaçando me beliscar com a frase “E os ‘tsitseles’*! Já cresceram?” enquanto eu cruzava os braços contra o peito para me defender, tudo isso me deixava um pouco amuada quando o via se aproximar. No meu entender, tanto o meu pudor quanto a independência de Jeanine deviam ser respeitados. Afinal, ela era mais experiente, curiosa e irreverente do que as outras meninas. O tio Salomão não tinha o direito de puxar a orelha da minha querida e charmosa prima, só porque ela gostava de dançar e namorar na boate do Grande Hotel!

Não lembro como foi, mas penso que o belo moreno Romeo, futuro marido de Jeanine, chegou em boa hora. Tanto que, várias semanas antes do comentado casamento deles, fui diligentemente preparada por Felícia com dieta de emagrecimento, aulas de etiqueta, longas sessões de bronzeamento no terraço da rua Guadelupe e três provas do vestido bege e rosa bordado à mão pela Dona Lúcia no seu salão de costura da avenida Cidade Jardim. Justo eu que odiava (e odeio até hoje) experimentar roupa, me estatelar como um lagarto ao sol, seguir regras de etiqueta e fazer regime! E que, sobretudo, detestava ser apresentada como o “objeto precioso”, a primeira neta, o “galho da cepa Leirner”, a continuação, enfim, de “dame” Felícia. No fundo, para a minha avó, por causa talvez da reduzida diferença de idade entre Gica e eu, eramos consideradas indiferentemente como filhas sendo que a mim, mais “caçula” do que neta, cabiam responsabilidades das quais a minha mãe, feliz ou infelizmente, havia escapado.

Por fim serviu o esforço, pois na linda festa eu mesma comecei a dançar e a namorar como Jeanine. O que me valeu vários dias (e noites) de devaneio. O tímido eleito daquela vez foi Serguei, filho do famoso professor de violino, cuja esposa Lara também ensinava o mesmo instrumento. Minha avó estava de acordo. A família Kabalevskij era amiga do igualmente célebre Kliass, professor de piano de Gica, quem a preparou para a primeira audição de piano da qual ela fugiu. Na verdade, a real audiência de Gica fomos nós, Terence e eu, que, durante décadas, a escutamos exercitar o Concerto Italiano de Bach, sentada no banquinho de veludo atrás da cauda do negro Steinway & Sons, “grand piano” que ganhou de Isai...

Se Gica não teve sorte com o meu pai, pelo menos teve boa estrela com o dela. A menor veleidade de minha mãe, o meu avô corria para satisfazer e então, além do piano, como ela praticava a gravura, ele também lhe comprou uma prensa que, mais tarde, Gica doou à uma Fundação. Infelizmente, minha mãe não era muito dada à aviação, à montaria ou aos parques de diversão, porque se assim fosse tenho certeza que, além do piano e da prensa, no jardim ainda teríamos um bimotor, um cavalo e um carrossel...

Mas a boate do Grande Hotel, nos feriados de Carnaval, abrigava também as matinês dos bailes destinados às crianças e aos jovens. Logo após o almoço e enquanto os adultos ainda se serviam de cafezinho no bufê do salão de chá, nós corríamos ao quarto para nos fantasiar. Com as roupas que Felícia me trazia no baú, quando voltava da Europa de navio, esta não era uma operação complicada. Bastava vestir, por exemplo, a saia de espanhola com purpurina, pegar as castanholas ou colocar o chapéu de holandesa com avental e tamanco. E, como Terence estava sempre vestido de Zorro, já tinha prática de enfiar o disfarce, eramos os primeiros a nos exibir no hall e no pátio do hotel.

Quando tínhamos certeza de que não causávamos mais nenhum frisson nos hóspedes e empregados, começávamos a nos perguntar o que faríamos até às quatro, hora do baile. Iriamos ao corso, claro, dentro do Galaxy conduzido por Antônio, junto com Amélia, que não desgostava nem um pouco de observar os rapazes de Campos do Jordão! Desta forma, enquanto o automóvel rodava a 20 quilômetros por hora, Antônio olhava as moças em cima dos carros alegóricos e Amélia procurava alguém que se parecesse o mais possível com Elvis Presley, nós aproveitávamos para jogar confetes e serpentinas pelas janelas. O desfile seguia um caminhão da prefeitura, com alto-falantes de onde se ouviam as marchinhas. Este se deslocava de Capivari à Abernéssia e vice-versa. Depois de executar esse percurso duas vezes, Antônio invariavelmente fazia menção de voltar ao portão do Grande Hotel para atravessar o mata-burro. Era quando nós gritávamos:

- Não, senhor Antônio!!! Queremos continuar seguindo o corso! Por favor, faça a volta mais uma vez!

E lá ia o senhor Antônio com o vidro dele fechado para não receber confete e serpentina na cabeça e contrariado com a sujeira que entrava pelas nossas janelas e que teria que limpar. Amélia, silenciosa, sorria feliz com o passeio e nós voltávamos à carga sem economizar o nosso abastecimento para a matinê. Para o baile, pensávamos, ainda sobrava o lança-perfume...

Nena
De carnaval Madalena entendia. E mesmo que até então trabalhasse isolada no sítio de Interlagos, sem conhecer as montanhas, as marchinhas ela sabia de cor. Cantava-as, ainda que trocando o “v” pelo “b” por causa da falta de dentes. Um dia me contou que quando era jovem - antes ainda de se empregar na casa de meus avós para ajudá-los durante o nascimento de Rudolf, o terceiro filho - desfilava nos carros abertos com os outros descendentes dos imigrantes chegados da Itália junto com os pais dela. No Carnaval conheceu Arnaldo e com ele mudou-se para o sítio quando Felícia os empregou como caseiros, juntamente com Virgínia. Foi talvez a partir daí que Madalena passou a memorizar algumas palavras do vocabulário iídiche que, de quando em quando, permeava as conversas familiares.

Por trás do rosto enrugado de pássaro, dos olhos espremidos e dos cabelos grisalhos até a cintura que prendia em trança no alto da cabeça, tudo que Virgínia tinha de ruim, antipático e ressentido, Madalena tinha de bom, agradável e resolvido. Talvez, até, se completassem. A prova é que quando Arnaldo morreu - de um câncer devido, diziam, ao cigarro de palha – as duas não quiseram se separar. Madalena estava em Campos do Jordão e a irmã também foi para lá. Era preciso cuidar da nova e já famosa “Casa do Telhado Verde” que fora construída não longe do Grande Hotel, e cujo terreno aumentou com o dinheiro da venda de três diamantes oferecidos por Isai à Felícia. Dos diamantes, a minha avó não fazia a menor questão. "Jóias de verdade só servem para ficar no cofre e serem vendidas com prejuízo", dizia ela, que preferia mil vezes uma linda bijuteria. “Os adornos tem que ser usados para nos embelezar, não para serem ostentados", ensinava-me, deixando bem claro que detestava "aquelas milionárias gênero árvores-de-natal!"

A casa que os meus avós construíram para os caseiros na parte de trás da residência principal era uma réplica melhorada daquela do sítio e acredito que ali Madalena sentia-se muito feliz. Isto, embora fosse obrigada por Felícia a tomar mais banhos de chuveiro do que desejava e a limpar os quartos quando a patroa ciosa de higiene, com razão, vinha inspecioná-los. Na cozinha dela, preparava a polenta e no dormitório, sob as mesmas sagradas imagens e crucifixo, bordava as toalhinhas em ponto de cruz. Depois do almoço tinha paciência até mesmo para vir me consolar e acarinhar na biblioteca, onde, chorando, eu cumpria o castigo máximo impingido por Felícia: escrever com um lápis que maltratava os meus dedos, em cada linha de um caderno de muitas páginas, a frase que renegava o pecado do momento. “Nunca mais mentirei”, “Jamais desrespeitarei os meus pais”, “ Em tempo nenhum induzirei Terence a queimar taturanas no jardim”...

- Sabe, Sheila, “bobó” tem coração muito bom. Mas ela...

E fazendo um gesto circular com a mão direita sobre a cabeça:

- “Bobó” é um pouco “mixugui”*!

Nunca vi Madalena doente ou deprimida. Exceto dizer às vezes “la vecchiaia è bruta” no lugar do “bom-dia”, jamais se queixava. Não sabia o que era um ginecologista e os únicos médicos que via eram aqueles que, como o santo doutor Além, vinham consultar a família. Às vezes punha uma cadeira ao sol e se esticava como um gato para receber o calor. Das janelas da casinha dela, no fim da tarde, podia olhar a paisagem, conversar com as empregadas de São Paulo e as visitas. De madrugada, sempre corada e bem disposta, saía para estudar o orvalho nas camélias do jardim. Depois varria o terraço e abria as venezianas. Era tudo o que podia fazer, proibida que estava por Felícia de mobilizar, em sua idade, qualquer esforço. Quantas vezes eu vi a figura dela no meio da neblina, em meditação, com as mãos cruzadas sobre a vassoura e o olhar perdido nas montanhas como se realmente encontrasse ali a explicação para o mistério da vida.

É bem possível que Madalena, justamente por não conhecer o mundo, compreendia o universo...


*”tsitses” em iídiche: seios ou bolotas de passamanaria nas roupas de baixo vestidas pelos judeus ortodoxos.
** “Meshuge” ou “Meshugener” em iídiche: maluco, lunático.
 
Quarta-feira, Novembro 09, 2005
  22
Grande Hotel de Campos do Jordão Um "abrir e fechar de olhos" é o que bastava para atravessar os trilhos do bonde e o portão onde estava escrito "Grande Hotel", passar pelo mata-burro e, finalmente, avistar a cocheira. Mais adiante nos esperava o edifício branco de cobertura em telha colonial e janelas enfileiradas, algumas com terraço de madeira.

Aliás, a minha impressão é que depois de tal suplício, tudo estava lá apenas para nós. Nos fundos, onde o Galaxy ficava estacionado, o cheiro que saía da imensa e fumegante cozinha, era da canja, do recheio do vol-au-vent ou da compota de pêras com calda de chocolate que, segundo a minha imaginação, os empregados do Hotel cozinhavam especialmente para as nossas papilas.

A lenha, que crepitava na gigantesca lareira "medieval" do hall de entrada, certamente fora acesa apenas para que pudéssemos esfregar e esquentar as mãos enquanto admirávamos as línguas de fogo lamberem a pedra. As altas bergères e poltronas que ladeavam quatro mesas envernizadas sobre o piso de quadriláteros de mármore bicolor, existiam unicamente pela expectativa de nos verem jogar mico-preto ou banco imobiliário.

Perto da entrada, no meio, a escadaria em caracol forrada de carpete vermelho, alternativa de quem não quisesse tomar o elevador com o ascensorista de libré, estava lá apenas para servir, na sua parte inferior, de esconderijo às nossas bicicletas. Lugar onde, por superstição, ninguém ousava passar.

Todas as peças com seus relógios franceses, paredes de laminados de madeira escura, móveis marchetados e mesmo os grandes parquês recobertos de tapeçaria belga, tudo parecia ter sido decorado, limpo e lustrado apenas para o nosso deleite. Pois os salões com grandes janelas se seguiam a partir do hall, segundo uma ordem bastante lógica. De um lado, salão de chá, bufê dos doces e cafezinho, sala de jantar com tablado de orquestra, refeitório das crianças e babás; de outro, living, bar inglês, salão de sinuca e boate. Porque a arquitetura moderna acabou com esta coerência de raciocínio do espaço? Porque o conforto, a subjetividade e a harmonia deram lugar à disfunção, à pseudo-racionalidade e ao mau gosto?

Hoje, o Grande Hotel tem o triste aspecto de um clube de luxo, com salinhas de lazer, salão de convenções e heliporto. Porém, nos anos 50, o terraço, as espreguiçadeiras e o grande solário com o pertinente desenho de um relógio de sol estavam ali, com aquela vista surpreendente sobre as montanhas e as araucárias, somente para aguardar a nossa preguiça, os nossos livros, patins ou bicicletas. Mesmo o morro da esquerda, com o seu acesso pelo terraço e os seus caminhos que levavam os hóspedes a um passeio circular até o topo, tinha sido erguido exclusivamente para as nossas descobertas da paisagem. Foi nesse morro, passeando com uma bela hóspede do hotel (que provavelmente não “roubava” tantas horas do dia para a leitura quanto a minha avó), que certa vez Isai desapareceu fazendo com que, a pedido de Felícia, corrêssemos a chamá-lo para almoçar...

A cocheira, então, na minha fantasia, esta certamente só se abriria quando fôssemos buscar os nossos cavalos escolhidos pelo senhor Aristides. Eu adorava aqueles animais não apenas por causa do seu olhar, forma, calor, toque e cheiro, mas também porque os respeitava e temia. Além de serem mais fortes do que nós, eles eram capazes de marchar sobre lugares inopinados e de correr mais rápido do que o Galaxy conduzido por Antônio. Estrela, Baltasar, Capricho, Rei, montá-los, junto com Terence, e sobretudo fazê-los galopar em nossos passeios, representou uma das melhores experiências da minha infância e juventude. Foi até mesmo na cocheira do senhor Aristides que o meu futuro segundo marido, veio tal qual um príncipe encantado, oferecer-me o braço para montar Estrela. “Ufa!”, exclamou, dissipando imediatamente a imagem de príncipe que eu fazia dele. O mais interessante é que, mais de duas décadas depois, esta mesma imagem continuou a se dissipar durante os 14 anos do nosso casamento. Afinal, ao contrário do que eu também fantasiava, os príncipes são sempre demasiada e nietzschianamente humanos...

Estrela
As vitrinas, que ficavam escondidas no fundo do hall de entrada, incrustadas atrás de balcões escuros de madeira cheirosa, entre o cabeleireiro à esquerda e o barbeiro à direita, não aguardavam senão os nossos olhares, desejos e... cruzeiros. Bugigangas, brinquedos, boinas de lã, chicletes ou pasta de dente, as duas lojinhas do casal Hank e Gretchen (junto com os armarinhos e as lojas de miudezas de Capivari e Abernéssia) eram as nossas apreciadas cavernas de Ali Babá.

Porém, na minha compreensão, era justamente este espaço, assim como a gerência do hotel junto à sala da telefonista e à cabina telefônica, o centro nevrálgico do estabelecimento. A bela diretora Hilda e o gerente Gunther (diziam que eles eram amantes), Hank e Gretchen, o corpulento barman Fritz que nos servia suco de tomate temperado com amendoim, o maître-d'hôtel Hugo e alguns garçons, todos ainda com forte sotaque e recém chegados no pós guerra, formavam o grupo dos alemães misteriosos: ninguém conhecia o seu passado. Ninguém conseguia fazê-los contar como foram parar em Campos do Jordão! E como eles nunca falavam, durante anos a discrição deles deu larga vazão à imaginação dos jovens que, diga-se de passagem, nunca era compartilhada pelos mais velhos. Fosse qual fosse a verdade, estes sempre pareciam preferir a "política da avestruz". Estou incerta, porém se realmente os adultos enfiavam a cabeça sob a terra para não enxergar, isto só confirmava que a construção de uma "nova" sociedade mais uma vez não seria possível senão pelo esquecimento...

- Vovó, verdade que Hank e Gretchen são ex-nazistas?

- Mas que pergunta, Sheila! Claro que não! E, recostada na espreguiçadeira, Felícia voltava a meter a cabeça no grosso volume, perdida no esplendor romanceado daquela família burguesa em plena decadência. Eu perguntando se os alemães do Grande Hotel eram nazistas e ela ansiosa para saber se os novos ricos iam conseguir comprar a casa dos opulentos Buddenbrook... Não é à toa que os nazistas queimaram esse livro de Thomas Mann. Alemães, sobretudo os poderosos hanseáticos, "não tinham direito ao declínio". Mas... pensando bem, quem sabe Felícia – com todo seu poder premonitório - interessava-se pelo romance porque previa que aquele fausto que vivíamos também teria o seu fim?

Minha avó podia não me contar o que sabia ou o que não sabia pois acredito que eu muito via. Vi, por exemplo, quando no estacionamento o loiro Gunther, do alto de seus quase dois metros, agarrou Hilda pela cintura e beijou-a impetuosamente. Me pareceu que a grande e elegante morena tão admirada pelo meu avô aquiesceu com ternura, porém, quando tentei me imaginar no lugar dela, voltou à lembrança a figura de Felícia ou de Gica segurando a minha testa à beira da estrada enquanto eu regava a erva-cidreira com o frango à passarinho. Era o que aconteceria, desta vez com o vol-au-vent, se aquele arrogante homem loiro, cheio de cicatrizes, provável ex-nazista, ousasse me tocar.

Como é que Hilda podia ser amante dele? Evidente, caro Watson, ou melhor, caro Terence, silencioso e ideal interlocutor dos meus monólogos imaginários no escuro do nosso quarto. Hilda também tinha servido no exército alemão! Espiã! A Wehrmacht é o símbolo da solidariedade entre eles!

- O que é Wehrmacht? perguntava Terence, fechando os olhos de sono.

Mas a minha carreira, de férias, de detetive dos Alpes não parou ai. Além do constante mal estar que eu sentia perpassar os espíritos germânicos do Grande Hotel (gerido com a perfeição de um quartel-general) percebi também que os cabeleireiros Hank e Gretchen ficavam muito embaraçados com as perguntas que eu fazia. Quando vinha verificar se as mechas já estavam secas, ele lançava um estranho olhar às mulheres que estavam sob o secador. Gretchen vivia com a cabeça baixa e sempre parecia pensar em outra coisa quando se falava com ela. Eu tinha a impressão de que os dois, assim como os outros, carregavam um pesado segredo e que estavam ali contra a sua vontade.

A gorda Gretchen lavava e enrolava com “bobies”, o vermelho Hank cortava, penteava e lançava nuvens e mais nuvens de laquê enquanto as freguesas cobriam o rosto com a toalha. O resultado devia ser parecido com o da receita de bolo que eles trouxeram da Baviera: duro, armado e barroco. Um capacete! Mas Hank também era barbeiro e Gretchen manicura, de modo que eles se dividiam entre o salão feminino do lado esquerdo e o masculino do lado direito, indo de tempos em tempos atender alguém nas lojinhas do meio. Talvez fosse por isso - e porque Hank usava sempre um colete cinza de grossa lã sintética sobre a camisa de mangas curtas – que ele vivia transpirando e cheirando a suor.

- Terence, sabe qual é a maior vingança que Deus pode fazer aos nazistas? Obrigá-los a lavar, cortar, enrolar, pentear os cabelos, fazer a barba e as unhas dos judeus e ainda por cima vê-los no secador para se lembrarem eternamente das câmaras de gaz!

- O que são câmaras de gaz? Perguntava Terence cuja compreensão dos inimigos, assim como a minha, era aguçada pelas histórias em quadrinhos. São como secadores de cabelo?

Ao invés daquele quarto de hotel que cheirava à armário, cuja persiana deixava passar a luz do terraço no térreo e cujos cobertores ásperos e pesados não parávamos de afastar, Terence teria preferido estar no sítio que ficava em Interlagos perto do Golfe Clube. O sítio não era para férias longas, eu explicava. Era para o fim de semana, quando podíamos nos balançar na rede do jardim, sentir o cheiro da floresta de eucaliptos de nosso avô, catar limões-cravo perto da casa dos caseiros, brincar com os bichos, olhar a criação de faisões e ver o caseiro Arnaldo cortar o fumo com o canivete enrolando-o no papel de palha, sentado na escadinha. O sítio era o verdadeiro Éden, porém do tipo "breve". Até a varanda e os quartos da casa, com tábuas brancas nas paredes, lençóis de linho e lampiões como lustre, tinham o mesmo frescor da floresta. Além do que, podíamos ir a pé ao Golfe Clube para almoçar no domingo e passear com os nossos avós. Naturalmente, do sorvete na casquinha que eles me compravam, Felícia com a colherzinha de madeira, sob o meu olhar inconsolável, cortava uma parte e deixava cair no chão. E isso estragava bastante o sentido que eu dava à palavra Éden...

- Muito sorvete engorda, dizia ela. Metade é suficiente.

Apesar de tudo, Terence tinha razão de preferir o sítio. Além do mais, era lá que estava Madalena. A querida "Nena" - mulher de Arnaldo, imigrante italiano como ela - cuja presença era quase tão indefectível quanto a de meu irmão. Pais se iam, mães voltavam, avós repreendiam, tios namoravam, casais se separavam, gente morria, amigos apareciam e desapareciam, cães ladravam, gatos fugiam, empregados mudavam e... a Nena estava sempre lá! Sorrindo desdentada, fazendo comentários marotos cheios de humor, acariciando nossos cabelos com as mãos enrugadas. Limpando uma ou outra lágrima fortuita dos seus olhos claros com a ponta do avental por causa, dizia ela, "das misérias que sofria com o sobrinho" e enxugando as nossas, sempre com palavras sábias. Claro que vou contar quem era Madalena. Muito antes da minha mundana e profana experiência política, artística e social, vou relatar quem era a nossa santa Madalena.
 
Quarta-feira, Novembro 02, 2005
  21
No Galaxy de meus avós, do planalto paulista às montanhas de Campos do Jordão, espécie de Chamonix misturado com Berchtesgarden (que fica na frente do lago Königssee, na Baviera) era preciso calcular – com as paradas para descansar e vomitar – no mínimo 5 horas. Junto com os preparos materiais e psicológicos anteriores e os cuidados posteriores, segundo os quais devíamos ficar pelo menos 24 horas em repouso “por causa da altitude”, a viagem em si levava quase uma semana.

Não era um hábito ruim, visto que férias assim, além de inesquecíveis, são bastantes valorizadas. Terence e eu certamente jamais esqueceremos a visão das zonas industriais e rurais das estradas, a passagem por São José dos Campos e a cantina Bella Venezia cujo telhado pontudo avistávamos com alegria ainda da avenida Presidente Dutra. Naquele grande galpão sem estilo, transformado em restaurante, os garçons, que já conheciam o meu avô, apressavam-se em preparar duas mesas vizinhas para o almoço: a nossa e a dos empregados, nas quais nos seriam servidos invariavelmente o mesmo “Frango à passarinho” e “salada mista” com palmito, sob a recomendação de Felícia: “Crianças, cuidado com o enjôo. Não comam demais!”

O resto da viagem era um aglomerado de referências que serviam para nos garantir que mais uma etapa tinha sido alcançada e que, por isso, o objetivo estava cada vez mais próximo. “Quanto falta?”, perguntávamos ansiosos. “Já estamos chegando, olhem aqui à esquerda as pamonhas de milho verde! Vejam à direita a casa do queijo de minas e da goiabada!”. E quem é que queria pensar em comida naquela hora? Assim, depois de passar pelo vale do Paraíba e nos assegurarmos que a fábrica dos cobertores continuava lá e, mais tarde, da chegada à cidade de Monteiro Lobato, onde procurávamos com o olhar o nosso adorado “sítio do Pica-pau amarelo”, sabíamos que faltava pouco. Campos do Jordão encontrava-se incontestávelmente perto. Agora o sofrimento das paradas em urgência na serra, nauseados que estávamos também pelo cheiro do capim-cidreira, estava prestes a acabar. A mim, nem as batatas cruas impediam de juntar as mãos e rezar para que aquilo terminasse o mais rápido possível!

Penso que, apesar do sofrimento dele, Terence nunca rezou. Como já escrevi, mais tarde recusou-se a cumprir o barmitzva e é bem possível que desde criança fosse agnóstico ou ateu. Não rezou nem mesmo quando me viu aos prantos com 40 graus de febre e, como naquela noite nos haviam deixado a nós mesmos, ainda pequeno descobriu com rapidez o telefone para chamar o médico da família. A bondade do meu silencioso e introspectivo irmão não se limitava àquele ritual que, para grande parte das pessoas, constitui apenas um desencargo de consciência. Terence não orava mas estava firmemente presente e as suas indefectíveis ações sempre diziam muito mais do que as suas palavras. Tanto, que nunca deixei de desculpá-lo pelas (também indefectíveis) traquinagens que fazia.

Um dia, por exemplo (ele devia ter 3 anos e eu 6) ambos estávamos no banheiro sentadinhos, ele no urinol, da forma como a governanta nos havia deixado. Acredito que discutimos sobre alguma coisa que não o agradou pois Terence levantou-se calmamente e virou todo o conteúdo do seu penico em minha cabeça. O meu desespero não terminou com o banho e as palmadas que ele levou da Dona Edith, pois ela teve que chamar a minha mãe para lavar o meu couro cabeludo mais uma vez. Tudo de novo e tantas vezes quanto implorei para que aquele cheiro desaparecesse não apenas dos meus cabelos, mas da minha memória!

Naturalmente, haviam também travessuras conjuntas, nem todas totalmente escatológicas. Como a de acendermos as lanternas de bolso sob os cobertores na hora de dormir, depois que as luzes do nosso quarto tinham sido apagadas por Felícia. Nessa altura podíamos ler ou desfiar, às gargalhadas, o rosário de todas as palavras escabrosas aprendidas durante o dia. Havia também as sessões de queima das taturanas com álcool e fósforos que roubávamos na despensa, alguns outros sadismos com repugnantes minhocas e as “guerras”, como a “da melancia”. Esta foi travada com uma empregada maldosa, que (merecidamente) acabou indo embora com uma fatia da fruta atravessada na cabeça.

Mas a pior das nossas maldades de comum acordo foi com a vizinha enjoada. Do branco e engomado vestido de fustão daquela menina grã-fina cheia de “não me toques”, nós tomamos o cuidado de sujar toda a parte posterior com as fedorentas matérias fecais de Voltan, nosso pastor alemão ex-cão de guarda do oficial nazista morto por nosso pai. Diante dos protestos da vizinhança que se seguiram, coube à Gica, mais uma vez, portanto, a nobre função diplomática de restabelecer a paz na família e nos arredores.

Do que faríamos em Campos do Jordão ainda não tínhamos idéia. Mal sabíamos que aquelas montanhas seriam o palco dos formidáveis Vaudeville do Grande Hotel, onde vimos no telhado até mesmo um senhor conhecido de meus avós fugindo do marido da sua amante. Também não imaginávamos que seríamos obrigados a fazer chapas de pulmão e proibidos de pegar o trâmuei por causa dos tuberculosos que “andavam à solta” pela cidade, ou que iríamos encontrar tantos alemães “ex-nazistas”(dizia-se) buscando refúgio na “suíça brasileira”.

Nem supúnhamos quantos amigos conheceríamos no terraço, nos bailes, salões de chá e na cocheira. Mal adivinhava eu que Campos, além de ter servido para o famoso “Floradas na Serra” de Dinah Silveira de Queiroz, seria ainda o cenário de boa parte das minhas próprias histórias amorosas, desde a concepção do meu primeiro filho até o festejo de meu segundo casamento, entre as hortênsias do jardim da minha avó...

Quando, finalmente, conseguíamos ler a placa de motivos alpinos que acolhia os visitantes – isso, depois de termos prestado bastante atenção ao sanatório que ficava no alto daquela montanha à direita, o qual a minha avó sempre comparava com o da “Montanha mágica” de Thomas Mann - sabíamos que estávamos prestes a entrar em Abernéssia, o primeiro dos dois vilarejos da cidade. O segundo era Capivari, no final da grande avenida coberta de aceráceas que nos levava ao Grande Hotel. De todo modo, fosse ou não delimitada a nossa geografia, ali no novo “paraíso das férias”, o tempo seria justamente um pouco como dizia Thomas Mann a respeito de sua “Montanha Mágica”: “quando um dia é como todos, todos são como um só; e numa uniformidade perfeita, a mais longa vida seria sentida como brevíssima e decorreria num abrir e fechar de olhos”.
 
Quarta-feira, Outubro 26, 2005
  20
Alguns anos antes de saber se as montanhas seriam o nosso paraíso das férias na terra, portanto, eu pensava que a cultura, o mundo e o Brasil eram uma coisa só. E que estavam restritos apenas à minha geografia doméstica que também se limitava a São Paulo ou, para ser mais exata, ao meu próprio bairro.

Ainda pequena, tinha realmente a sensação de que vivia um momento essencial para essa totalidade cultura-mundo-país-São Paulo que, além do mais, fazia 400 anos. Comprovados pela minha adorada placa comemorativa de metal colocada na frente da casa. A isto juntava-se a nova palavra "Bienal" que, no meu entendimento, mais do que nos museus e galerias, era o único lugar onde as pessoas podiam realmente descobrir os mistérios da arte e dos seus artífices.

Mas, porque as primeiras bienais de São Paulo eram tão grandes e importantes? Em relação a mim, o Trianon que mudava para o "imenso" espaço do Ibirapuera, o acúmulo "infinito" desses objetos que os adultos chamavam de pinturas e esculturas, a descoberta dos valores da "arte moderna" que, me parecia, eles consideravam "supremos", e sobretudo a escala "gigantesca" dessa Guernica (de Picasso) tão anunciada em 1953, tudo isso possuía um poder oculto e amedrontador. Eu me sentia minúscula como um gato numa usina, porém plena de um grande e inexplicável sentimento cívico de "progresso cultural", cujo significado não só não conhecia, como mais tarde iría questionar.

Havia coisas esquisitas, como acordar com Pagu (Patrícia Galvão) ou Mário Pedrosa dormindo no sofá verde da biblioteca, depois da soirée regada à vinho nos salões da rua Guadelupe. Ou vê-los serem despertados com a chegada da gorda Odette, a chapeleira francesa de minha avó. Se, por um lado, eu não gostava de beijá-la por causa do cheiro de suor misturado com o perfume de seus extravagantes vestidos de pura seda ou crepe Georgete, por outro lado adorava vê-la pregar e arrumar as pétalas de uma flor de tecido, contar anedotas ou falar de maneira ligeira sobre moda. Ela dizia que as mulheres, depois de uma certa idade, deveriam sempre usar algo imponente: "Quando você usa um grande laço, colar, broche ou chapéu, ninguém repara no tamanho do seu traseiro!" afirmava a sábia e espalhafatosa Odette sacolejando os grandes seios com a explosão de suas gargalhadas.

Mas haviam outras coisas mais estranhas do que a visão dos hóspedes estremunhados no café da manhã. Durante muito tempo, por exemplo, não entendi o motivo pelo qual – apesar das digressões de Odette - o abstrato continuava a brigar tanto com o figurativo nas discussões sociais e familiares. Eu tinha três anos quando meus pais me carregaram pela primeira vez ao Museu de Arte Moderna, cinco quando me apresentaram a tela de Picasso já no Pavilhão de Niemeyer, sete quando os prêmios a Léger e a Kubin foram contestados respectivamente pelos críticos Mário Pedrosa e Lourival Gomes Machado, e já me afligia diante da batalha do "bem" da arte moderna contra o "mal" ao qual eles davam o terrível nome de "obsoleto".

A procissão de milhares de pessoas que se dirigia ao Ibirapuera como a um templo, me marcou profundamente. A pressa e as cotoveladas para conseguir um lugar em frente à famosa tela de Picasso, e os comentários que se seguiam, também. As palavras guerra, comunismo, revolucionário, cubista, expressão, proporção, divisão, desproporção, assimetria, liberdade, grito, silêncio, ficavam soltas na minha imaginação. Como eu estava na idade dos porquês, presumo o que essa torrente de novidades devia exaurir meus pais e avós em suas respostas, pois eles acabaram por adotar a fórmula do "porque sim". Isso certamente deve ter me obrigado, por exemplo, a conceber sozinha, uma vez que crianças gostam de cores, a razão pela qual aquele quadro esperado era tão sombrio.

Uma criança, uma situação impressionante de arte e a ausência de grandes explicações. Trata-se da inteligente didática da anti-didática. O melhor método talvez para formar um futuro crítico. Não era Harold Rosenberg que dizia que o crítico é o oposto do educador de arte – forma seu caminho em meio à turbulência de valores nos quais a arte se origina?

Assim, desde criança eu via a Bienal de São Paulo como uma enorme e eficiente fábrica de turbulências e contradições, onde nem mesmo a feira das vaidades conseguia subjugar os seus valores nascentes. Apesar de fazerem parte de grupos e movimentos ideológicos coletivos, nos anos 50 e 60 as singularidades e as personalidades individuais falavam mais alto e o mundo das artes fabricava estrelas tanto quanto Hollywood.

Hoje as crianças vêem "Star Wars". Eu vivia "Art Wars", onde o que estava fora da arte não raro se misturava com o que estava dentro. Logo, na mesa redonda da casa de meus avós, construtivismo, lirismo, expressionismo, semi-abstracionismo, semi-figurativismo, unidade tripartida de Max Bill, limões de Di Preti, também essas palavras se confundiam com IV Centenário, hors-concours, prêmios, juris de seleção, juris de premiação, comissários estrangeiros, críticos, artistas, política, justiça e injustiça.

Muitos personagens, cujos rostos e personalidades jamais esqueci, freqüentavam a casa de Felícia e Isai, e de Gica também. Entre os que passavam diante dos meus olhos ingênuos, lembro especialmente de Mané-Katz, com a sua pequena estatura, rosto bondoso e longos cabelos brancos. Este artista da Escola de Paris, amigo de Chagall e Soutine, durante a sua estadia como hóspede na casa de meus avós, conseguiu até mesmo me convencer a segurar durante algumas horas, em vários dias, a bola de cristal de Murano que servia de peso à correspondência de Felícia. "Sheila, está na hora da sessão de pintura!" convocava ela. Foi de maneira obediente, sentada numa poltrona vermelha com aquela pesada bola entre as mãos e ouvindo a conversa interminável entre eles, que vi Mané-Katz pintar o meu retrato.

Haviam algumas pinturas dele na coleção porém presumo que o artista partiu levando esta tela, pois ela sumiu. E quando, muito mais tarde, procurei-a no Museu Mané-Katz em Israel, a conservadora disse-me que se lembrava perfeitamente da menina loira na poltrona vermelha com a bola de cristal mas que, hoje, a obra pertence a um colecionador em Paris e ainda não está documentada. Pelo menos enquanto "assunto plástico" o pequeno e insignificante gato assustado da usina serviu para alguma coisa.

Para aqueles adultos, certamente nada era gigantesco, infinito, supremo, misterioso ou amedrontador. Não apenas a (não tão grande) Guernica possuía os seus reais 3,49 x 7,76m, dos quais me dei conta mais tarde visitando-a repetidas vezes desde o MoMA até o Reina Sofia, como, para eles, o tamanho e a importância de qualquer vida, obra ou evento estavam relacionados à verdadeira noção de escala. Dai em diante, foi sentindo o cheiro enjoativo do capim-cidreira (ou chá-de-estrada, como Antônio chamava esta erva que grassava o caminho da serra para Campos do Jordão) que me restava descobrir qual era o tamanho do meu mundo...
 
Quarta-feira, Outubro 19, 2005
  19
Guernica de Picasso - 2a Bienal de S. Paulo
Gica reconstruía a vida dela; seus irmãos mais novos Mehlson e Rudolf (que todos chamavam de Rudi), entre noivas, namoradas, Vespas e Romi-Isettas, ainda procuravam pela identidade deles; Terence, criança, mesmo se igualmente não soubesse quem era, aos bons entendedores já revelava o que não queria ser; e meu avô Isai, quando não trabalhava na indústria Ponto-e-Lã, ocupava-se em: primeiro fundar, depois dirigir e por último levar a efeito, como diretor-tesoureiro, as contas do Museu de Arte Moderna de São Paulo.

"Féééé-la!" Era assim que ele chamava a minha avó, ainda da porta, ao chegar em casa para almoçar. Consistia numa espécie de melodia carinhosa cujo tom e primeira sílaba alongada nunca esqueci. Houvessem ou não convidados, Felícia estava sempre fresca e perfumada da ducha com que invariavelmente terminava o seu trabalho matinal no ateliê. Nem as unhas deixavam notar um traço sequer de argila, pois antes de subir para a toalete ela sempre as escovava cuidadosamente no lavabo social de mármore que ficava perto da porta principal, à direita do compartimento destinado ao telefone. Nesta peça, com uma pequena janela que dava para o caminho que cortava o jardim para levar à garagem, situavam-se - assim como a chapeleira e o porta-mantôs – vários assuntos que povoam as minhas memórias e que contarei mais para frente à medida que for avançando no tempo visto que, para efeito de organização, da cronologia por enquanto não consigo escapar.

Naquela casa branca, aberta e de muros baixos, que ainda não havia sido destruída (e transformada em cinzento cofre-forte com guarita, quando foi vendida nos anos 80), as refeições eram servidas na sala de almoço, ao lado do chamado "jardim de inverno". Ali a família ou os amigos mais próximos se encontravam para o café e os bate-papos informais. Os imensos salão de jantar e living com lareira, em forma de L (que terminava na biblioteca do sofá de veludo verde encimado pelo óleo de Chagall), embora alojassem o estilizado bufê de verniz com o aparelho de televisão - onde o meu avô assistia ao Repórter Esso, às partidas de Maria Esther Bueno em Wimbledon e a todos os jogos das Copas de Futebol - ficavam reservados às grandes ocasiões. Mas, em todas estas peças que, apesar de acolhedoras, não tinham nada de carregado, além da coleção de arte sacra e moderna, alguns objetos trazidos das viagens e dos enormes e antigos tapetes persas, o grande luxo certamente estava no fato de que pertenciam à mesma "varanda" envidraçada que se abria para o exuberante jardim. Sim, porque a única coisa que as separava dele, eram grandes portas e janelas angulares em cujas transparências biseladas folhas e flores sempre formavam um caleidocópico balé.

Na parte social ficavam as telas de "seniores" como Portinari, Pancetti, Segall, Guignard, Tarsila, Di Cavalcanti, Maria Leontina, Milton Dacosta, Bonadei, Léger, Braque, Picasso, Miró, Campigli, Pascin, entre outros. Da mesma forma que alguns colecionadores daquela época, os meus avós preferiam a marginalidade da Escola de Paris ao academicismo europeu. Porém, na sala de almoço e jardim de inverno, quando ainda não existia a noção de art brut, eles também abriam espaço para primitivos brasileiros como Raimundo de Oliveira ou Cassio M’Boi (em cujo sítio Terence e eu adorávamos ir, aos domingos, chupar cana). E nas paredes da escada de mármore em caracol, coberta por um tapete vermelho que era preso por engastes de latão lustrados pela minha querida Amélia, assim como nos corredores que levavam aos dormitórios, ficavam os desenhos e as gravuras de Flávio de Carvalho, Grassmann e dezenas de outros artistas.

No almoço, quando se tratava de arte, as conversas habitualmente mostravam-se muito enfáticas em volta daquela mesa redonda de 8 lugares. Tão excessivas, que às vezes eu me perguntava se brigavam ou se entusiasmavam. Com ou sem convidados de honra, o clima e o delicioso menu caseiro eram sempre idênticos. Por esta razão, talvez, é que eu tinha a impressão de que mesmo os estranhos sentiam-se à vontade. E como os lugares não eram fixos, no rodízio, todos – até as crianças – acabavam tendo o mesmo direito à vista para o jardim onde, no fundo, se enxergava Rin Tin Tin, os gatos e o ateliê de minha avó.

Enquanto Terence e eu nos entreolhávamos torcendo para novamente surpreender o professor, diretor do museu, embaraçado com alguma almôndega quente nas bochechas vermelhas (o que quase nos fazia pedir para sair da mesa e poder estourar de rir longe dali), a copeira, com o seu uniforme de rendas engomadas, deslizava suave e silenciosamente em torno de nós estendendo a travessa de prata e os talheres de serviço. Invariavelmente eu rezava para que a batatinha não escorregasse de novo para o colo vizinho.

Lembro perfeitamente das discussões em torno da polêmica suscitada pelo corte da maioria dos brasileiros de tendência figurativa, inscritos na 4ª Bienal de São Paulo. Os senhores e senhoras presentes gritavam bastante quando diziam que "o júri tinha privilegiado os concretistas". Deve ser por isso que, na idade adulta, levei um bom tempo para compreender que os artistas e poetas daquela tendência não eram os vilões que eu imaginava.

Ouvia o meu avô falar, indignado, que iria se demitir do museu em protesto "contra os critérios de seleção". Enquanto ele falava, Amélia (cuja especialidade não era servir a mesa e sim arrumar os aposentos íntimos e atender o telefone) ia e vinha da cabine onde estava o pesado aparelho preto de discar com as formas arredondadas, chamando ora Isai, ora Felícia. Só depois atinei que aquela não era apenas a residência dos meus avós. Era um quartel-general onde nasciam estratégias, tal qual a organização da exposição que não apenas presenciei, como foi graças a ela que descobri a minha vocação jornalística.

Quando acompanhei o meu avô à esta mostra-protesto dos principais artistas "recusados" pela Bienal, no saguão do edifício do jornal Folha de S. Paulo na Alameda Barão de Limeira, vi pela primeira vez, atrás de vidros, as imensas rotativas do jornal. Elas faziam muito ruído e a menina que eu era imaginou, extasiada, todo aquele papel impresso sendo lido por milhares de pessoas. Claro que, depois daquela emoção, a exposição do meu avô não me impressionou. O que era uma prosaica exposição de pinturas diante de tal instalação em performance cinética? Para ele tanto fazia pois, com o sucesso do seu evento artístico e o estímulo que isso representou, durante alguns almoços ouvi-o falar na grande novidade: a criação "oficial" da Galeria de Arte das Folhas, da qual ele seria o diretor.

Dai em diante, era "Prêmio" para lá e "Prêmio" para cá. Além de falarem muito em "debates" e "conferências", o Prêmio Leirner de Arte Contemporânea tornou-se o assunto preferido do jardim de inverno. Era para "incentivar a arte abstrata informal", diziam eles. De minha parte, pensava apenas que, além do pequeno apartamento na praia, felizmente eles tinham o projeto de construir uma casa secundária nas montanhas. Se não, eu me perguntava, onde é que colocariam todos os trabalhos adquiridos com o prêmio? No meu quarto???

Quanto a isso, foi a minha avó que me sossegou. Explicou que as obras seriam doadas a vários museus. Assim, não só compreendi o significado da palavra "mecenas", como passei a suportar um pouco melhor a subida da serra dentro do Galaxy guiado por Antônio, cujo objetivo final era passar são e salvo o mata-burro antes da chegada ao Grande Hotel. Afinal, depois de termos vomitado uma ou duas vezes - apesar das batatas cruas e descascadas que a nossa avó nos fazia segurar dizendo que eram anti-enjôo - e sempre amparados por Antônio e por ela, Terence e eu tínhamos a certeza de que a nossa futura casa em Campos do Jordão, ao invés de constituir um museu, seria o paraíso das férias na terra. E foi?
 
Quarta-feira, Outubro 12, 2005
  18
Victor Brecheret
Quando, então, descobri que Felícia era escultora?

Hoje, se acaso passo diante do Monumento às Bandeiras no Parque Ibirapuera, imediatamente me vem à memória a maquete de pedra que Victor Brecheret ofereceu à minha avó e que ela, com todo cuidado, pousou na mesa da biblioteca entre os pesados livros de arte. Atrás, circundado pelas estantes e encimado por um grande óleo de Chagall que tinha sido adquirido do próprio artista, ficava o sofá de veludo verde, onde ela lia, estudava ou tirava uma soneca. Era nele que Felícia subia com os pés descalços quando queria alcançar um volume de arte bizantina, escultura africana, um número da revista L’Oeil ou da inesquecível coleção Gallimard com a capa em tons pastel desenhada por Mário Prassinos. De vez em quando eu vinha me fazer acocorar debaixo das "asas" dela, talvez menos por interesse pela cultura ou falta de carinho, do que por simples curiosidade. Apenas queria saber que imagens olhava-se com tanto interêsse...

Mesmo sem ir ao Ibirapuera, eu não teria como esquecer daquela maquete que provavelmente ela ganhou porque trabalhou na verdadeira obra ao lado do mestre. Da grande poltrona na qual geralmente me sentava - sob a tela Cartão Postal de Tarsila que pertencia à coleção dos meus avós e que eu adorava por causa dos macaquinhos e do Pão de Açúcar - o barco, as figuras dramáticas e os cavalos de Brecheret sempre interpunham-se ao meu olhar obrigando-me a entortar o pescoço se, além de ouvi-la, eu também quisesse ver a sua expressão.
Tarsila do Amaral, “Cartão Postal” -1928
Tarsila do Amaral, Cartão Postal -1928
óleo/tela 127,5 X 142,5cm

Talvez porque eu fosse muito criança e não compreendesse ainda o vocabulário que os artistas e os críticos usam para se comunicarem entre si ou simplesmente para reafirmarem que "são do ramo", as visitas que fazíamos a Brecheret não me revelavam muita coisa sobre a "missão" a que minha avó se havia proposto. Sim, porque a escultura para ela, e isto eu soube mais tarde, tinha sido uma descoberta totalmente acidental. Foi depois de ter saído de um coma cirúrgico de alguns minutos, durante os quais os médicos testemunharam a sua morte e em seguida uma miraculosa ressurreição, enquanto ela se encontrava com figuras alongadas que, no final de um túnel luminoso, lhe avisavam que a sua hora ainda não tinha chegado. "Volte, você tem uma missão a cumprir", determinaram elas. Felícia voltou à vida, mas sem saber qual era esse "dever". Pouco tempo depois, todavia, já recuperada, quando passou por um ateliê cuja janela dava para a rua exalando cheiro de tinta e mostrando a desordem das telas, pincéis e cavaletes, ela soltou um grito! Arte! Revelação: a sua missão estava... na arte!

Só que a arte, para uma menina que cantava nos coros e admirava às escondidas as figuras religiosas das igrejas de Varsóvia, não podia se resumir apenas em telas, pincéis e cavaletes. Talento ela tinha, basta ver o primeiro retrato que fez do meu avô quando eu ainda era bebê. Mas o que lhe faltava, na pintura, era a matéria, o contato físico e... a tridimensionalidade! Justo ela que, mais tarde, quando terminasse uma obra, ficaria longamente girando-a em seu suporte para examiná-la, vê-la de todos os ângulos. Por mais que a pintura pudesse representar as três dimensões, como é que Felícia poderia se contentar com a bidimensionalidade de uma tela?

Foi quando, sem dizer a ninguém, procurou Victor Brecheret. A despeito de tudo que ela sabia, de negativo, a respeito daquela técnica. Sabia, por exemplo, que a criação escultórica era complexa. Desde a procura de uma linguagem que expressasse perfeitamente os seus objetivos plásticos e que fosse consoante com a manipulação do material que iria escolher, até a execução, bem mais árdua e problemática do que as demais. Acrescentando-se a isto os obstáculos do custo, venda, peso e dimensão, me admira que nada era suficiente para quebrar a sua determinação. Não foi por acaso que, de início, Brecheret recusou-se a lhe ensinar. "Escultura não é coisa para mulher, ele disse". Mas, qual é o homem que resiste a uma mulher resoluta e segura de si?

Assim, quando visitávamos Brecheret na rua Atlântica, não longe de onde ela morava, e depois do café com biscoitos que ele e a esposa nos ofereciam, eu ainda não podia compreender porque Felícia acariciava os objetos que estavam lá como se tivesse ela mesma amassado o barro de que alguns eram feitos. Só entendi mais tarde, quando passei a lhe fazer companhia enquanto ela trabalhava no seu próprio ateliê envidraçado, no fundo da casa. Lá, ela me fazia uma pequena armação de madeira e arame, geralmente com a forma de um homem. Depois, dirigia-se ao tanque onde afastava os pedaços de pano encharcados de água que protegiam a argila do ressecamento, arrancava um bom pedaço daquele material úmido e cheiroso e depois de amassá-lo e transformá-lo em uma bola, mostrava-me como preencher com ele o homenzinho. Enquanto eu me aplicava em copiar os gestos dela, usando as mesmas as espátulas de madeira com aros de ferro, ela se esforçava em me explicar, entre outras coisas, as diferenças entre “abstrato e figurativo”.

E desta maneira, à medida que preparava-se para atravessar a fronteira que separava um do outro, Felícia empregava mais e mais toda a sua energia e diligência para manipular a forma na duração eterna e inquebrantável dos contornos. Foi exatamente esse o princípio básico, herdado de Brecheret, que ela me passou: perpetuar os volumes num só transcurso, sem interrupções na linha que os contorna, imprimindo às formas em barro – e depois em gesso, bronze ou cimento - força e sensualidade. Mas, enquanto ela explorava a arte e eu descobria a minha avó escultora, o que preocupava Gica, seus irmãos, Terence e, sobretudo, o meu avô Isai?
 
Quarta-feira, Outubro 05, 2005
  17
A rainha Elizabeth II e o príncipe Phillip visitam o Brasil
Agora que ela morreu e a minha juventude ficou para trás a pergunta volta, desta vez de forma adulta, e dirige-se a mim mesma: "S., quando você vai morrer?" Sei que não sou a única a se questionar assim. É um pouco como se nós os vivos estivéssemos vez por outra, em pensamento, a margear a fronteira que separa as dimensões (contrárias?) da existência e do fim. Talvez até mesmo para compreendê-las melhor. No meu caso, como a minha avó projetava em mim tudo o que era e queria ser, e eu mesma sempre me identifiquei com a sua forte personalidade, a morte dela teria necessariamente que me chamar à realidade e às suas contingências.

Mas, atenção! Não há necessariamente nada de lúgubre neste passeio. Seguir por aquela estreita margem pode nos ajudar também a permanecer melhor ancorados à vida. E, se possível, tentando encontrar o nosso próprio caminho ao invés de passarmos o tempo a cumprir o desejo de outrem. Freud explica, e vamos além. Hoje, depois de tudo que ela me passou e talvez por causa disto, acredito que Felícia reprovaria várias de minhas decisões. Isto é bom, pois se não fosse assim com quem eu discutiria horas a fio nos momentos em que estou sozinha?

Eu dizia que os passeios com a minha avó tiveram uma qualidade didática. Penso que anos de escola não me ensinaram tanto quanto pude observar, por exemplo, nas casas que visitávamos. Naquela época, ela já não precisava remendar as suas roupas ou lustrar os sapatos para sair. Os seus enormes armários, com gavetas embutidas onde me era permitido ficar horas descobrindo e experimentando os tesouros – colares, pulseiras, broches, lenços perfumados de seda (anéis jamais! “onde já se viu uma escultora com anéis?”) - estavam carregados de trajes requintados que ela trazia de suas viagens com o meu avô ou comprava em São Paulo. Quantas vezes a acompanhei à Casa Vogue na rua Marconi, onde ela ficava conversando com o proprietário, ou à loja Madame Rosita, na Barão de Itapetininga e depois na avenida Paulista, onde também era conhecida da dona e de todos os simpáticos vendedores! Quantas vezes a vi abrindo os baús (que iam vazios e voltavam cheios de navio) e sacudindo aquelas toaletes perfumadas antes de pendurá-las nos armários.

O cheiro de Europa, hotéis de luxo e roupa nova que se desprendia daquelas malas tinha para mim muito mais fascínio do que o que saía lá de dentro. Sobretudo porque o que ela me trazia nunca era do meu gosto. Não falo das castanholas e saias de flamenco com purpurina, tamancos e touca de holandesa que eu ganhava. Refiro-me às saias kilt escocesas, casaquinhas de lã austríaca com botões prateados, luvas e coletes suíços bordados com flores Edelweiss, boinas e pulôveres de cashmere, blusas holandesas de renda com as mangas bufantes, sapatinhos italianos de verniz com fivelas e laços de cetim... Jamais iría me apresentar com esses “horrores” às minhas coleguinhas de classe! Ao invés, ficaria dias a imaginar como tinha sido a descoberta de países tão longínquos...

Das casas que visitávamos, o que a minha memória mais retém é o afeto e o calor com que sempre a recebiam, sentimentos dos quais os remanescentes choviam indiretamente sobre mim. Deve ser por isso que eu entrava e saía dos lugares sempre contente. Adorava acompanhá-la! Íamos tomar chá na mansão da Condessa Crespi, visitávamos o seu professor Victor Brecheret no ateliê da rua Atlântica, atendíamos a todos os convites. Além de visitar casas mais modestas e chácaras de pintores nos arredores de São Paulo, passávamos sempre nos casarões das grandes famílias judaicas e paulistanas dos Jardins, onde de vez em quando eu fazia amizade com alguém da minha idade, como Martine, cujo irmão tornou-se ministro de Estado. Íamos também freqüentemente à casa de meus tios-avós, onde gostava muitíssimo de encontrar a minha prima Jeanine, que – mais experiente e desembaraçada do que eu - tinha sempre algo engraçado para contar. Além do que, quanto mais ela crescia, mais as suas lindas roupas iam passando para mim.

Aos poucos, talvez, voltarei a tudo isto. Pois gostaria de começar pelos jardins de Assis Chateaubriand, por onde passávamos antes de entrar no palacete. Eles eram, nada mais nada menos do que, uma gigante gaiola aberta de pássaros tropicais! Uma das coisas mais deslumbrantes com as quais os meus olhos de criança aprenderam a distinguir o extravagante do convencional. Eu amava observar a revoada deles e a dignidade com que as araras pousavam nos troncos das árvores exóticas daquela floresta doméstica protegida apenas por um diáfano véu de metal. Talvez porque fosse pequena, Chateaubriand me parecia um homem alto e corpulento. Ele discutia, gesticulava muito e conversava com os meus avós sobre coisas que só vim a compreender depois. Falavam em "Diários Associados", “milhões de cruzeiros”, Masp, rua 7 de abril, Joaquim Eugênio de Lima, Lina Bo Bardi, Figueiredo Ferraz, Pietro Maria Bardi. Exceto o nome de algumas pessoas que via na hora do almoço ou nas festas de meus avós, a única expressão que eu conhecia de fato era “rua 7 de abril”. E mesmo assim porque era a minha grande, única e detestada concorrente. Quando saía e permanecia bastante tempo fora de casa, Gica, minha mãe, nos dizia que ia ao museu, às exposições, cursos, barzinho, dentista, compras etc, e tudo isso sempre ficava... na rua de 7 de abril!

Lembro que, mais tarde, quando meu pai já tinha desaparecido do mapa e meu avô ainda lutava contra a sua doença, visitamos, com algumas daquelas pessoas, as obras do prédio de 2 andares - erguido sobre 4 colunas formando um vão livre de 8 metros de altura por 70 metros de comprimento - que eu sempre tinha medo que desabassem. Finalmente estava nascendo o Museu de Arte de São Paulo (Masp), que parecia ser o maior sonho deles! E como ficaram excitados, oito anos depois, quando a instituição saiu da famigerada 7 de abril e foi inaugurada na avenida Paulista! Na comemoração, ao contrário da minha família, eu estava no meio da massa, de onde conseguia ver apenas o príncipe Phillip e alguns dos amigos de Felícia. Já o meu tio Mehlson, existe até uma foto dele fazendo uma pequena reverência no beija-mão da rainha Elizabeth II, que foi madrinha do evento. A minha avó, que me confessava não sentir nenhuma diferença entre ela e a rainha da Inglaterra "pois, afinal, ambas iam ao toalete como todo mundo", naquela época pensava que a pessoa certa para mim seria o príncipe Charles. Verdade que estávamos com idade idêntica, mas, por mais que a minha avó estivesse brincando, era difícil me imaginar na corte inglesa uma vez que eu sempre escolhia o lado da plebe...
 
Quarta-feira, Setembro 21, 2005
  16
Porto de Santos
Quando me pediram para escrever sobre a minha avó, pensei de imediato que devia começar pelo momento de minha vida em que percebi que ela era escultora. Podia iniciar pelo seu nascimento em Varsóvia, numa família de rabinos e estudiosos da Torá. Conseguiria principiar apenas pela graça, altivez e habilidade com que se saía da miséria, fome e medo do anti-semitismo crescente do pré-guerra. Teria possibilidade de contar primeiro o seu amor à música, o que a levou a cantar no coro de Igrejas e a desenvolver a sua atração pelas imagens de devoção proibidas por sua religião. Depois relataria a viagem interminável que ela fez no navio dos imigrantes em 1927, com a velha mãe tuberculosa, para chegar ao porto de Santos, onde o meu avô a esperava. Ele que, um dia após o casamento, partiu, a pedido dela mesma, para fundar e garantir a vida deles no Brasil.

Há tantas histórias maravilhosas e, ao mesmo tempo, terríveis que ela me contou, como aquela dos lindos sapatos de papelão, destinados à primeira e importante festa, que derreteram na chuva; das roupas que ela lavava e remendava para se apresentar como a “rainha” que sentia ser; da maçã que lustrava como um brilhante para levar à escola; do ovo quente que invejou ao ver a prima rica à mesa, enquanto esperava a tia à porta; do encontro (no mesmo Clube de Escritores freqüentado por Isaac Bashevis Singer e pela “intelligentsia iídiche” de Varsóvia) com o meu avô, jovem e convicto socialista, que não era bem aceito pela sua família de eruditos porque pertencia a um meio de abastados industriais; dos rapazes que, com gritos racistas, quando suspeitaram que ela era judia, começaram a apedrejá-la junto com a amiga no deslumbrante e imenso parque Lazienki não longe do famoso monumento a Chopin. Creio até mesmo que, inspirada pela Providência divina, foi naquele momento que ela decidiu deixar a Europa. Ela não sabia, mas intimamente devia pressentir, que com aquela resolução salvaria a sua futura família do Holocausto.

Voltarei, talvez, a tudo isso mais tarde. Neste momento, começo como decidi. Mesmo porque, prefiro falar apenas do que me lembro. Felícia escultora. Afinal, um artista só descobre que é artista junto com o espectador, nem que a sua única testemunha seja ele mesmo. Quando, então, comecei a ser espectadora de minha avó?

Contaram-me que, quando voltei da maternidade, primeira neta, ela acordava mais cedo apenas para vir tirar o carrinho das mãos da babá, enquanto meus pais ainda dormiam. Era Felícia que me levava a passear. Estava perdidamente apaixonada por aquele bebê. Pensando bem, minhas fotos não mentem: quando nasci, tinha o ar de uma criança feita. O sofrimento que os meus cinco quilos causaram à Gica durante um parto, sem anestesia ou cesariana, foi compensado, assim dizem, pela minha aparência de “reclame” de produtos Johnson. Até Abe, meu pai - de quem me safei graças à minha mãe e ao médico religioso de Bogotá - voltou a falar com ela.

Não demorou muito para que eu descobrisse que a minha avó era escultora. Eu já andava, conversava e sobretudo perguntava muito. Acompanhava-a, assim como o meu avô, por toda parte e em todos os compromissos diurnos que eles assumiam. Banco, cabeleireiro, compras, visitas. Cheguei até mesmo a ser a mascote do time de futebol que o meu avô Isai criou para si e para os empregados e operários da fábrica que construiu. A mim cabia sempre dar o primeiro chute da partida, o que eu fazia com grande orgulho antes de ser encaminhada à arquibancada onde assistia o jogo no colo de meus pais.Na verdade, o meu grande prazer era observar os adultos em suas diligências específicas. Ouvia todas as conversas, negociações, observações, e mesmo que não entendesse muita coisa, nenhum comportamento, tom de voz ou humor escapava do meu escrutínio prazeroso.

Ao longo dos anos estes percursos, cuja maioria era feita no bairro dos Jardins, tiveram uma qualidade didática, além de me fazerem conhecer em carne e osso alguns personagens sobre os quais falarei em seguida. Mas penso que comecei a compreender o que significava a escultura para Felícia, pouco depois de um dos passeios que ela fazia comigo ainda no carrinho. Naquela vez eu a olhava insistentemente. Ela deve ter se sentido embaraçada pois disse: "Sheila, o que é?". E então perguntei: "Vovó, quando você vai morrer?"
 
Sexta-feira, Setembro 16, 2005
  15
As vezes eu tinha a impressão de que Terence passava por tudo aquilo como um pequeno Buda. Ou melhor, um pequeno Yeshiva. Magro, traços delicados, olhos imensos e cabelos castanhos sempre encaracolados. Embora mais tarde, aos 13 anos, tivesse recusado cumprir o barmitzva, ele parecia mesmo um precoce aprendiz da Torá numa escola religiosa, a Yeshivá. Lia muito, tinha a introspecção e a candura de um futuro sábio e, além de uma "experiência de vida" vinda de não sei onde, uma enorme aptidão natural para a escrita e os elementos visuais. Nem bem crescido, as suas ponderações faziam sentido e os seus poemas e pinturas reinventavam o mundo. Tanto que – após ter sido casualmente descoberto, aos 10 anos, por um crítico - tudo o que ele fazia era imediatamente publicado em jornal.

Naquela época, os suplementos literários prezavam os talentos precoces. Hoje não se estima mais nem os maduros...

Ainda acredito que as pessoas que são tocadas por uma chama divina, sejam quais forem as diversidades que encontraram na vida, ou talvez até mesmo por causa delas, conhecem profundamente o terreno em que pisam e sabem exatamente para onde vão. Meu irmão era assim e não me admira que fosse considerado "difícil". E que, apenas alguns anos depois, tivesse sido enviado a um colégio interno, não muito longe de Nova York, onde nossa mãe resolveu ir morar. Mas estou certa de que ele, criança em Milford, devia estar menos perdido do que Gica em Nova York ou eu, em São Paulo, em plena adolescência acarinhada por minha avó.

A estadia no apartamento de nossa mãe, depois daquele dia em que encontramos a árvore de Natal arrumada, não durou muito. Apenas tivemos tempo de brincar um pouco com Saskia, brigar outro tanto com a governante alemã, ver algumas vezes Gica partir furiosa no carro Isabella Borgward branquinha dizendo que não sabia se voltaria (enquanto eu a seguia pela janela, com lágrimas nos olhos) e chupar jabuticaba no muro do jardim que ficava em frente do prédio. Descíamos correndo quando o caminhão passava com os alto-falantes: “Jabuticaba! Jabuticaba! Fresquinha de Ituverava!” Não demorava para que Osvaldo, o zelador que ficou lá durante décadas, nos enxotasse carinhosamente dizendo que estávamos emporcalhando a calçada...

Aquele foi também o tempo que restava para o meu avô morrer. Presenciávamos o desespero da família, a movimentação de médicos, as idas e vindas do hospital, e ainda assim desconhecíamos a dimensão da tragédia. Isto, até o dia em que, voltando a pé da escola, passou por mim um carro com uma passageira na parte de trás. O veículo diminuiu a velocidade para dar passagem a um outro, a mulher virou-se e me encarou. Vi a sua face esquálida de olhos fundos e senti um calafrio. Quando o carro se afastou, tive a certeza absoluta de que acontecera o que eu mais temia. Ao chegar em casa, de fato, fui avisada de que ela tinha levado o meu avô.

Gica resolveu partir para Nova York. E quando alugou o apartamento para a mesma colunista social que alguns anos depois, sem querer, me fez entrar para o jornalismo, fomos, Terence e eu, morar com a nossa avó, agora viúva. O que nos esperaria naquela mansão?
 
Segunda-feira, Setembro 12, 2005
  14
Não sei como Abe e seus pais viveram esta derrota. Votan tinha morrido e sido substituído por uma cachorra collie. O nome dela, Lassie, retirado de filmes e uma série de televisão, por si só já era um sinal de que a existência do meu pai provavelmente não tinha mais a mesma graça, desafio e originalidade. Talvez acontecesse o mesmo do outro lado da família, cujo cachorro se chamava Rin-tin-tin, nome igualmente retirado de um seriado televisivo. Enquanto Lassie movia vaidosa e elegantemente as patas para pedir o meu afago, este repousava gordo e satisfeito, sem muito o que fazer fora sofrer com as sessões de arrancadura de ácaros e inseticida na orelha, debaixo da garagem onde dormia Amélia.

Eu a amava muito, mas hoje vejo a Lassie um pouco como símbolo do amolecimento pelo conforto e proteção do dinheiro. Um entorpecimento que recusei para sempre, mesmo durante os anos de esplendor de minha vida milionária! Espécie de indolência que, acredito, pelas poucas provas que me restam, também acabou sendo rejeitada por meu pai.

Já o único animal que representava alguma possibilidade de salto, com os inerentes riscos e desafios, emblemático de uma vida cheia de mistérios e descobertas, um dia sumiu para sempre. Era uma gata siamesa, chamava-se Saskia, personagem de alguma mitologia oriental, nome da mulher de Rembrandt... e não ficou por muito tempo no apartamento de minha mãe.

Nunca passou pela minha cabeça que a família paterna tivesse realmente sofrido com a nossa perda ou ausência. A impressão que me sobra é a de que experimentaram, depois daquela audiência no Tribunal, apenas a frustração pela destruição de suas provas de resistência. Apesar do afeto que demonstravam, também não tive a nítida a noção de nosso lugar dentro da família materna. É muito possível que nós, Terence e eu, fossemos apenas dois pequenos peões dentro do grande jogo de xadrez que se travava entre as duas famílias. E peões são peões. Em qualquer partida, continuam assim, mesmo quando os trocam de lugar.

Deste modo, depois do rapto, quando nosso pai soube que, de acordo com a sentença proferida pelo juiz, seria obrigado a nos ver para sempre diante de um oficial de justiça, os nossos encontros começaram a se rarefazer. Os fins de semana foram se espaçando, espaçando e plin! A corda rompeu-se e o balão voou para o desconhecido, sem deixar nenhum traço. Como já contei, só viemos a saber – com enorme surpresa! - para onde foi, quem era, com quem estava e o que fazia, quase 30 anos depois.

Mas confesso que fiquei aliviada. Além de as visitas se haverem tornado muito tensas e desagradáveis, o fato de não mais ter que optar entre um e outro, em si, já era um desafogo. E dizer que Gica tinha se tornado “mãe e pai” não só era suficiente para enfrentar os colegas na escola como para me deixar até mesmo orgulhosa. “Você tem mãe e pai como todo mundo? Ah! Isso não é vantagem nenhuma”. Muito mais interessante, claro, era ter um genitor polivalente!

Talvez este argumento tivesse convencido alguns, inclusive a diretora do Colégio Rio Branco, dona Saudade. Pelo menos, foi desta maneira, mesmo se não representasse exatamente a idéia que ela tinha de si, que nos passaram a imagem de minha mãe. Uma heroína, sempre. O problema é que heroínas, e ela sabia disto, só existem nos romances...
 
Sábado, Setembro 10, 2005
  13
Com o mesmo conjunto de algodão estampado permaneci sentada, ao lado de Terence, até que nos chamaram. A sala cheirava a madeira encerada e tudo reluzia. Atrás de uma grande mesa estavam quatro adultos, dos quais reconheci os dois respectivos advogados de meus pais. Os outros eram o juiz de direito, que nos fitou fixamente, e o escrivão, que continuou rabiscando o seu livro.

Eu nutria uma especial simpatia pela advogada de minha mãe. Gica havia recusado o primeiro mediador porque, puritano, ao contrário de ajudá-la queria que voltasse ao lar. Contratou o segundo que, enquanto profissional do sexo feminino, colocou-se imediatamente ao seu lado. E mais tarde, apesar da diferença de idade entre elas, ainda tornou-se sua amiga. Até hoje penso que se devesse escolher um advogado, os homens que me desculpem, daria preferência a uma mulher.

Estela era grande no porte e na profissão. Devia medir mais de um metro e setenta. Hoje reconheço no perfume Shalimar de Guerlain aquele seu aroma de "armário", mistura de baunilha, rosa, jasmim, tangerina, naftalina e pó de arroz. Quando cruzava as pernas, certamente não era na saia reta em tweed leve que se prestava atenção. E quando falava, lábios cobertos de carmim e rosto impecavelmente empoado, as frases mais simples alcançavam a categoria de uma declaração. Estela, advogada de minha mãe, que viria a tornar-se no futuro uma brilhante personalidade no governo do Brasil, fazia uso do seu perfume capitoso, tailleur Chanel e charme até mesmo no Tribunal! Talvez sobretudo no Tribunal, onde, se dizia, derretia o coração dos magistrados!

É possível que isto deixasse ciumento até mesmo o meu avô. Sim, porque ele também estava sob o encanto da nova (e solteirona) egéria da Justiça. Solteirona ela era. Ouvi dizer que ficava um dia por semana descansando só para eliminar as águas. Diurético natural. Não saía da cama senão para urinar. Todas as águas eliminadas, no dia seguinte retornava à carga. Fresca, bem vestida e cheirosa. Tilintando o seu colar de pérolas pelos corredores do Palácio da Praça da Sé.

Foi Estela que interrompeu aquele ex-desembargador de meu pai quando este tentou nos induzir em falso depoimento. Foi ela que inverteu as questões e, como nós apenas repetíamos o que Abe nos disse, não demorou para que as contradições se averbassem. Na verdade Terence e eu pouco entendíamos o que todos, e nós mesmos, falavam ali. Somente ficou claro o gesto com o qual aquele juiz nos fez deixar a sala. Compreendemos imediatamente que, agora, poderíamos ver a nossa mãe. Ela nos esperava ansiosa e parecia feliz, mas não fez perguntas. Estávamos com queimaduras de sol, imundos e famintos. Antônio levou-nos em silêncio para casa, onde uma árvore de Natal estava arrumada num canto e um banho morno nos esperava.

Hoje entendo porque Estela foi a única rival que a minha avó teve orgulho de possuir. Mas, o que faria Abe depois desta terrível derrota?
 
Segunda-feira, Setembro 05, 2005
  12
Era quase um barraco. Uma casa de madeira tosca que cheirava a mofo de beira-mar. Um bolor diferente dos outros, mesmo daquele do Edifício Caiçara da minha primeira infância, no Guarujá. O Caiçara, onde eu tinha um berço de madeira escura no qual sempre chorava sem ser atendida, ficava mais afastado da praia, perto da peixaria. Nem a sala de ping-pong, o elevador e a repugnante rede de pescador salpicada de conchas e estrelas do mar, que enfeitava o hall, cheiravam assim.

Em pouco tempo vi-me, com o conjunto engomado de algodão barato, comprado na Sears Roebuck, diante de uma beliche, num cubículo quente e abafado que eles chamavam de quarto. Terence escolheu a cama de cima o que, para ele, era novidade. Eu sentei na de baixo e respirei fundo para não sufocar. Exceto o terraço, um largo deque com tábuas paralelas, cada cômodo daquela habitação não merecia o nome que tinha. A sala era um espaço rude e desconfortável, com poucos móveis. A cozinha, lugar improvisado, onde um engenho elétrico com duas bocas servia de fogão e, nas prateleiras, filas de formigas desfilavam entre restos de mantimentos. No chuveiro mal podíamos levantar os braços para lavar os cabelos, mas do deque, felizmente, podíamos ver o mar.

É possível que fosse o exemplar deteriorado de uma daquelas casas pré-fabricadas dos anos 60 que os americanos adoravam. É possível também que tivesse sido emprestada por algum dos empregados, testemunha de meu pai. Naquela época, algumas empresas que faziam a logística para as grandes empreiteiras, construíam moradias provisórias em canteiros de obras. Com isso, criaram também um novo mercado de residências de veraneio feitas de madeira. Lembro de ter ouvido falar em "engenheiros, empreiteiros, ajudantes de obra".

O fato é que lá ninguém nos encontraria. Não me recordo exatamente do nosso cotidiano durante os 21 dias que ficamos retidos como reféns de Abe e dos pais dele. Apenas três coisas me marcaram: a arma, os falatórios e a minha preocupação com Gica. Tinha certeza de que ela pensava que estávamos mortos e o meu maior desejo, mesmo se não pudéssemos vê-la, era tranqüilizá-la. Afinal, quando minha mãe tomou a decisão de deixar meu pai, foi sob o conselho de alguém que lhe assegurou que corríamos perigo. E, no mesmo dia em que saímos da casa de Pinheiros, ele ameaçou por telefone: “Podem me esperar. Virei esta noite. Não sobrará ninguém”.

Abe não veio, é claro. Porém, entre a palavra e a ação, é melhor não subestimar a primeira em relação à segunda. Daí a tradição judaica que confere tanto peso ao que se diz. Tanto no ato quanto no verbo, sobretudo quando há violência, mesmo se os resultados não são iguais, a carga e a intenção são idênticas.

Além de fritar o peixe, a cozinha servia também para discursos aliciadores e a limpeza da arma de fogo. Recordo de cada minuto em que ele desmontava e remontava o revólver sobre a mesa de fórmica enquanto nos preparava para depor. Afinal de contas, este preparo era a única razão pela qual permanecíamos incomunicáveis naquele cativeiro. Tenho as reminiscências tanto da dissuasão pelo medo, quanto da sedução pelas promessas de um futuro brilhante para nós. Iríamos para Nova York, "onde a nossa carreira estaria garantida". Teríamos altos estudos, "nada mais a ver com a vida num país subdesenvolvido e com a sociedade rica e burguesa de meus avós".

A proposta não era ruim. Os métodos, absurdos. Mesmo se explicados por uma neurose de guerra. Deve ser por esta razão que eu, não tendo vivido a segunda Grande Guerra, sinto sempre tão próximas as imagens do Vietnã, do Iraque e de seus sobreviventes. De certa forma, eles e a família deles me dizem respeito. Quando um país envia os seus filhos ao front, são também os netos que ele está atingindo. Na última noite fomos avisados de que na manhã seguinte partiríamos cedo para São Paulo. Veríamos minha mãe, sim. Segundo Abe, "apenas de relance e depois de testemunhar contra ela", no Palácio da Justiça, ao lado da Praça da Sé.
 
Sábado, Setembro 03, 2005
  11
Descemos a serra enevoada, a caminho do mar, em silêncio. De tempos em tempos, Terence lançava-me um olhar inseguro no qual eu percebia duas interrogações simultâneas. Ao mesmo tempo que queria saber o que acontecia conosco, também me perscrutava com os olhos para adivinhar o que eu sentia. É possível que, apenas fitando-o, eu o tenha acalmado pois ele não chorava mais. E eu podia, então, deixar os meus pensamentos divagar.

A neblina sempre me dava medo. Aliás, pensando bem, desde bebê, eram raras as coisas que não me assustavam. Aquela névoa densa nos despenhadeiros, era exatamente assim que eu imaginava a morte... ou mesmo a dimensão antes da vida quando eu ainda não tinha sido salva pelo médico colombiano. Sim, porque quando Gica, em sua lua de mel descobriu que estava grávida, Abe convenceu-a a fazer imediatamente um aborto. O médico, católico fervoroso fez o trabalho contrário: persuadiu-a de que uma mulher casada, jovem e saudável não podia cometer aquele pecado. Gica transformou-se, então, pela primeira vez em "leoa prenha" e enfrentou a "fera": "Vou ter este bebê, queira você ou não". O que lhe valeu uma implacável emenda. Daquele dia em diante, e durante toda a gravidez, o meu pai não lhe dirigiu mais a palavra. Eles terminaram a lua de mel taciturnos, mas eu fui salva em Bogotá.

Parece que, logo quando voltaram à São Paulo, lá estava o convite dos pais de Abe para a festa americana do casamento. Naturalmente, a pequena sociedade nova-iorquina também tinha que conhecer a noiva brasileira e a família dela. Assim, depois de ser concebida e passar a lua de mel com os meus pais, viajei em seguida à Nova York, sendo que foi a primeira e única vez em que não precisei de bilhete. E embora o Hotel se chamasse Sherry Netherland e ficasse de frente para o Central Park, os meus aposentos eram certamente bem mais confortáveis do que aqueles onde ficaram meus pais e avós.

Nem bem Gica e Abe haviam desfeito as malas, o telefone tocou. A voz do meu pai soou em falsete e minha mãe compreendeu. Era Ruta Flicker que, segundo as explicações apressadas dele, tinha que ser visitada imediatamente porque estava à beira de cometer suicídio. Não sei o que minha mãe pensou naquela hora, mas duvido que tivesse acreditado que tal militante da força clandestina para a criação de um estado que ainda nem tinha sido fundado, cogitasse em colocar fim aos seus dias. Gica terminou de pendurar o largo vestido que usaríamos (ela e eu) na notória festa do dia seguinte e acompanhou a mãe à loja Saks Fith Avenue, onde Felícia compraria um lindo chapéu claro enfeitado com véu e flores. Foi com este chapéu que a minha avó recebeu os cumprimentos dos convidados que a confundiram com a noiva. Convidados estes presentes bem antes de Abe, que só mais tarde e depois de ter passado a noite e o dia com a "senhora suicida", deu o ar de sua graça. Não sem antes passar pelo Hotel para fazer a barba, colocar o smoking e aspergir-se com o indefectível Old Spice. A tímida noiva e a barriga dela ficaram num canto, enquanto meu pai – como é hábito receber presentes de casamento nos Estados Unidos - ia introduzindo no bolso os envelopes recheados de dólares dos quais, diga-se de passagem, minha mãe nunca viu a cor.

A serra finda, já nos aproximávamos do mar. Estava escuro e Terence dormia. Pensei que iríamos à casa de Jane Austin, a loira arquiteta americana, mal casada. Esta possuía uma casa de verão não longe de Ilhabela, onde, uma vez, enquanto o marido dela viajava, meus pais passaram o fim de semana e voltaram estremecidos. Como já era de seu hábito, Abe, depois de passear com Jane na praia, sumiu com a anfitriã deixando a minha mãe de novo a ver navios. O carro parou, tentei descobrir onde estávamos. Não, não era a casa de Jane Austin.
 
Quinta-feira, Setembro 01, 2005
  10
Penso que na época em que meus pais se separaram ainda não havia divórcio, pois as expressões que eu mais ouvia eram "desquite amigável" e “"desquite litigioso", sendo esta última a mais freqüente. "Juíz", "advogado", "testemunha", "petição", "audiência" também eram as palavras mais repetidas nas conversas familiares. Meus avós maternos de um lado, meu pai e avós paternos de outro, todos pareciam organizar uma grande ação militar onde iriam, finalmente, se enfrentar. Nós e nossa mãe, esperávamos.

Tive conhecimento de que haveriam audiências decisivas com relação ao nosso destino, o de Terence e o meu. Dependendo delas, saberíamos com qual deles iríamos ficar. Testemunhas eram arroladas dos dois lados. Da parte de minha mãe, estavam escritores, artistas, intelectuais. Do grupo do meu pai, faziam parte pessoas que viviam o nosso dia-a-dia mas que "certamente estavam sendo compradas" como eu escutava dizer: a governanta, as empregadas, os dois israelenses que trabalhavam na fazenda de Mato Grosso e outros mais. Nunca entendi a maior parte das acusações e também não compreendi porque a mentira era pecado para crianças, uma vez que certos adultos não faziam outra coisa.

Abe, no entanto, havia decidido secretamente com um famoso desembargador, seu advogado, que as mais importantes testemunhas seríamos nós, meu irmão e eu. Aos 9 e 12 anos, respectivamente. Assim, em vez de nos proteger dos problemas da vida adulta nos expôs diretamente a eles, usando-nos como escudos. À força de influência, chantagem emocional, e mesmo ameaças, empenhou-se em nos treinar às escondidas, sem que nós mesmos percebêssemos, para aquele depoimento. Gradualmente o nosso futuro, passou a depender apenas de nós. Dependendo de contra quem testemunhássemos, era com o favorecido que iríamos ficar.

Assim, como em todas as sextas-feiras alternadas, Abe veio nos buscar no novo apartamento de minha mãe. Estávamos de férias mas, como o que ficou combinado era voltarmos no domingo, levamos poucas roupas. Na minha cabeça, o programa já estava feito. No sábado, depois de brincar de índio, certamente iríamos à lanchonete “Bon Voyage”. Era uma espécie de nave espacial à beira de uma estrada na zona oeste de São Paulo, decorada ao estilo dos anos 60 e parecia ter saído de uma tela de Edward Hopper. Lá pediríamos “Banana Split” ou “Ice-cream soda”. Se não, com certeza iríamos ao cine Paulista e depois, ao lado, à outra lanchonete que adorávamos, para comer cachorro-quente e batatas chips numa embalagem riscada de papelão.

Não foi o que aconteceu. Abe resolveu nos levar à Sears Roebuck, (provavelmente a loja que mais se parecia na época com os “department store” americanos) onde fomos abastecidos de um guarda-roupa completo de verão e apetrechos de praia. Não sei se achei estranho ou agradável o contato com o tecido de algodão das saias e blusas coloridas que ele escolheu. Estava inquieta e lembro daquele cheiro de goma até hoje. Mas como Terence parecia contente, isso me deixava mais sossegada.

Na volta, talvez porque pressenti que algo estava fora dos eixos, pedi para telefonar à minha mãe. Junto com o diagnóstico dos médicos que 35 anos depois entregaram-me o meu filho em coma, penso que a resposta de meus avós foi a pior que ouvi em minha vida: daquele dia em diante eu não poderia mais me comunicar com ninguém. Partiríamos para longe, lugar sobre o qual falarei em seguida. Assustados e chorosos, presenciamos a movimentação. A minha preocupação maior era com Gica. Sabia que ela ficaria desesperada. Abe e meus avós prepararam as malas e objetos que, tanto quanto nós, foram enfiados no carro. Ficamos incomunicáveis durante 21 dias sendo que apenas no penúltimo tomei conhecimento de que sairíamos cedo do nosso cativeiro para ir, diretamente, depor no Tribunal de Justiça.
 
Terça-feira, Agosto 30, 2005
  9
Como meu pai, herói de guerra americano, foi parar no Brasil e encontrou a minha mãe?

O máximo de experiência de vida que Gica possuía, aos 17 anos, era 13 anos de leitura ininterrupta desde que lhe deram o seu primeiro livro e a estadia de um ano em Nova York e Miami. O que já era enorme naquela época em que os pais não permitiam nenhuma escapada. Com os livros, não sei o que ela aprendeu, mas na primeira cidade sei que tornou-se apta a se vestir de Carmem Miranda como estava na moda, a usar o buttom “Remember Pearl Harbor”, a repetir a frase “never put bananas in the refrigerator” e a desenhar na Art’s Students League. Em Miami, com o seu tio inventor aposentado, tomou conhecimento de como fazer coquetéis, passear à beira da praia, nos shoppings e ouvir as velhas histórias da família em inglês. Voltou ao Brasil carregando duas crianças que tinham perdido os pais em um desastre aéreo e recusou um arranjo de casamento que os seus pais e os amigos deles tinham preparado para ela.

A experiência que Ruta Flicker possuía, aos 32 anos, era com a Haganá, a força clandestina da autodefesa judaica que se tornou o mecanismo central do Movimento Sionista até a criação de Israel em 1948. Provavelmente pouco preocupada com arte ou Carmem Miranda, Ruta fazia parte da Hassadah, a famosa “Organização Sionista Nacional das Mulheres da América” em Nova York, que teve um papel preponderante na imigração para a Palestina. Como todas as mulheres daquela estirpe, seus objetivos certamente não eram o casamento, filhos e um lar. Amantes, sim. De preferência belos, mais jovens, muito brilhantes. E também militantes, de esquerda. Exatamente como meu pai.

Quando Abe voltou da Guerra, a América não era mais a mesma. Propagava-se o desemprego, a miséria, o caos. A guerra fria, a caça aos comunistas, o macarthismo em seu início, tudo isso levou-o a procurar um primo industrial, fabricante de persianas, para lhe propor uma representação. Eldorado! Uma vez que a palavra Brasil soava-lhe como se definisse a única terra pródiga restante no planeta, era para lá que ele iría como representante das tais persianas.

Não sei se ele veio com Ruta ou a reencontrou aqui. Enquanto ela organizava reuniões de arrecadamento de fundos para o Estado de Israel nas principais capitais brasileiras, ele tentava se estabelecer em São Paulo. O fato é que nunca se separaram, nem mesmo durante o namoro, noivado e casamento de Abe com Gica. Durante a primeira semana da lua de mel de meus pais, que durou três meses - começou no Rio de Janeiro, continuou por vários países da América Latina e terminou nos Andes - ela se instalou no mesmo hotel que eles. Assim, ao cair da tarde, depois de tomar um drinque com Ruta, Abe invariavelmente desaparecia e voltava apenas no dia seguinte.

É possível até mesmo que Ruta Flicker fosse conivente com um casamento por conveniência, do mesmo modo como dizem ter sido Camilla Shand Parker-Bowles em relação ao príncipe Charles Philip Arthur George Windsor e Lady Diana Frances Spencer. Em todo caso, creio que foi numa destas reuniões militantes e sociais que a jovem Gica encontrou o seu príncipe. Não faltaria o uniforme de gala de oficial condecorado, a elegância, a postura, a verve e sobretudo o saber que as centenas de livros devorados a tinham feito admirar. Não faltaria a certeza de que nenhum daqueles moços que lhe tinham sido apresentados chegava aos pés do preeminente americano. Em comum, todavia, eles tinham apenas a literatura.
 
Segunda-feira, Agosto 29, 2005
  8

Quando se é criança, ficar 21 dias sem saber exatamente onde e proibida de se comunicar com a mãe é coisa para não esquecer jamais. Mas, antes de voltar ao meu drama e de desenrolar tudo que de glamouroso veio depois (pois, afinal, a vida é feita de fel e açúcar) eu não poderia falar de Antônio, sem lembrar de outros que também marcaram a minha vida, como a velha Madalena, a cozinheira Clarisse e sobretudo Amélia, a graciosa mulata arrumadeira da minha avó.

Eu adorava Amélia e era com ela que, apesar da nossa enorme diferença de idade, ficava horas conversando sobre sexo e rock-and-roll no alto da garagem, onde ela tinha o seu quarto. Foi naquele cubículo rosa e rendado, cheirando a pó-de-arroz e remédio inseticida, que entrava pela janela porque usado na garagem para combater os ácaros das orelhas do cachorro, em meio a pilhas da revista de fotonovelas Grande Hotel, que ela me contava o quanto gostava da anatomia masculina. “Repara só Sheilinha, como os homens são atraentes! Essa única saliência deles que a gente percebe quando a calça está um pouco mais justa, ai meu Deus! É linda! Só de pensar, já fico em fogo”. E, falando isso, cobria as faces afogueadas com as mãos gastas e esbranquiçadas pelo tanque e a lixívia.

Naquela idade em que eu estava, essa observação me deixava indiferente. Só muitos anos mais tarde é que compreendi a sua naturalidade e singeleza. Coisa que se, naquela época, tivesse sido dita a alguém que não fosse apenas uma menina atenta, certamente faria de Amélia no mínimo uma “puta” e, no pior dos casos, uma ninfômana. Porém, como era delicada, silenciosa e discreta, vestia-se como uma freira e transitava pela casa como um gato durante os afazeres domésticos, foi sempre com Amélia que a minha avó Felícia nos deixava, Terence e eu. Foi até mesmo com ela, que ficamos na parte de trás do Hotel Copacabana Palace, quando não só viajamos ao Rio de Janeiro, como experimentamos uma "Galinha ao molho pardo" pela primeira vez! Galinha esta que valeu a reprovação severa de Felícia:

"Amélia! Onde é que já se viu encomendar, por telefone, em quarto de Hotel uma 'galinha ao molho pardo'? Não podia encomendar um hambúrguer? Molho pardo é feito com sangue. Não serve para crianças!!!'

E, no entanto, enquanto os meus avós, junto com Gica, assistiam à inauguração da retrospectiva das esculturas de Felícia Leirner no Museu de Arte Moderna, nós nos deliciamos com aquele prato e com a vista do Cristo redentor, de quem Amélia contou a história. Dormi feliz, depois de ter lido mais um capítulo de “Os desastres de Sofia” da Condessa de Ségur, pensando na volta de avião ao lado do meu avô. Pedia ao Cristo para não me deixar derrubar de novo o café sobre o seu terno, o que me envergonhou muito diante da primeira aeromoça que vi em minha vida. E, intimamente, desejei também boa viagem à Amélia e a Antônio. Sabia que eles voltariam no Galaxy, pela via Dutra, assim como vieram.

Amélia, mãe solteira e fã de Elvis Presley, amadora de cinema, fotonovela, novelas de rádio e literatura cor-de-rosa, inteligente demais para se adaptar à pobre, rígida e religiosa camada social na qual tinha nascido, era uma feminista antes da hora. De modo que, sem que ninguém soubesse, passei boa parte da minha adolescência levando essa amiga secreta e querida à Associação dos Alcoólatras Anônimos, pegada à Igreja Nossa Senhora do Brasil.
 
Domingo, Agosto 28, 2005
  7

Antônio era aquele tipo de pessoa que dava a impressão de estar sempre sorrindo. Tanto a satisfação quando a reprovação provocavam o mesmo ricto que atravessava os seus olhos e lábios. Eu ficava fascinada ao observar a dança que fazia o seu braço ao trocar as marchas do Galaxy e o ritmo com que o pé o acompanhava. Enquanto a mão esquerda com a grossa aliança de ouro tocava a direção como se ela fosse um instrumento de música, a outra com o anel de brasão dirigia uma orquestra. E quando ele descia para abrir a porta do carro era o seu alfinete de gravata, também em ouro, que brilhava ao sol. Antônio era reluzente e penso que, além do mais, devia ser mineiro pois foi a primeira grande personalidade diplomática que conheci. Exceto quando se aposentou, não tenho lembrança de nenhum acontecimento no qual ele não estivesse presente.

Assim, é claro que foi ele que nos conduziu naquela histórica data familiar em que a minha mãe deixou meu pai. Com o seu peculiar balé motorizado, saiu de Pinheiros em direção ao centro, atravessou a avenida Brasil, deu a volta pela rua Estados Unidos e entrou na rua Guadelupe onde parou o carro do lado direito na frente daquela casa branca com um grande jardim. Era a mansão de minha avó, onde iríamos morar durante o tempo necessário para que Gica encontrasse um apartamento. Ali, Antônio descarregou o porta-malas e, quando meu irmão e eu fomos informados do que ocorria, mal tivemos tempo de ficar tristes, pois imediatamente ele recebeu ordens de nos levar à loja de brinquedos na rua Augusta onde poderíamos escolher o que melhor nos aprouvesse. Não lembro o que escolheu Terence. Mas talvez porque a casa de verdade tivesse ruído, optei por uma de bonecas enquanto ambos, por causa dos presentes, provávamos sentimentos mistos de tristeza e alegria, culpa e indiferença, preocupação e excitação com a novidade.

Tanto quanto os amigos e certas pessoas da minha família, alguns empregados marcaram profundamente a minha vida. Antônio, por exemplo, foi quem, alguns dias depois, buscou o cachorro Votan que tanto me fazia falta e que por isso tinha sido cedido por meu pai. Acabou levando-o de volta, pois eu não parava de chorar. Para mim foi muito mais difícil suportar a culpa de saber que Abe estava só e, ainda por cima, sem o seu cachorro.

Mas Antônio, além de ter comprado comigo a minha primeira máquina de escrever, foi igualmente quem me levou à escola pela primeira vez. Era ele que tentava acalmar a minha angústia no trajeto dos jardins até a rua Maria Antônia onde, naquela época, ficava o colégio Rio Branco. Sem qualquer curso de psicologia, não sucumbia jamais às minhas chantagens. Mesmo quando lhe ofereci a minha lancheira em troca de um passeio no lugar da classe. Desta tentativa de corrupção ele se lembrou para sempre, tanto que a recontou até mesmo para os meus filhos.

Foi Antônio, ou melhor, o Sr. Antônio, que é como o chamávamos, quem me ensinou a dirigir quando fiz 18 anos e ganhei um fusca “café com leite” de minha avó. Mas, sete anos antes disto, foi ele também que, com minha mãe, nos buscou, meu irmão e eu, após o rapto, no Tribunal de Justiça.
 
Sexta-feira, Agosto 26, 2005
  6
Enquanto os meus pais estiveram juntos, moramos em três casas. Não tenho lembrança da primeira que ficava na rua Tucumán, mas lembro-me perfeitamente das duas últimas, inclusive a da rua Salvador Mendonça onde, em frente, habitava Luz del Fuego. Seria difícil esquecê-las pois tanto nesta quanto na residência da rua dos Tamanás, o que mais me marcou foram as brigas e... as festas. De tal maneira que, quando criança, pensava que a vida adulta devia ser muito dosada e excitante. Como acontece com a tempestade e a calmaria, parecia-me que os adultos misturavam, nas devidas proporções, a violenta agitação e o divertimento.

Assim, nas minhas casas, as refeições, festas e reuniões nunca eram monolíticas. Compunham mosaicos de histórias de vez em quando felizes, mas não raro dilacerantes. Estas, geralmente acabavam em agressões físicas e verbais, ruídos, gritos, soluços e desespero.

Por isso, não sei se por medo, curiosidade ou as duas coisas juntas, na última casa do bairro de Pinheiros, quando deixei de ser bebê, escolhi um mirante de onde pudesse acompanhar o desenrolar dos acontecimentos, sobretudo à noite. Era um ponto estratégico. Situava-se em frente do meu quarto (para onde podia fugir, se a coisa apertasse) no alto da escada que ligava os quatro andares da mansão. Nem o desconfortável degrau esmorecia o meu empenho em testemunhar os episódios. O meu miradouro situava-se no caminho da toalete das visitas. Ali, eu só não era transparente para a minha mãe que, de hora em hora, tentava me reconduzir à cama. E para alguns convidados ilustres que, às vezes, me punham no colo com palavras de carinho.

Uma vez que meus pais ligavam-se à fundação, ou apenas apoiavam, várias instituições culturais e artísticas da época, aqueles convidados pertenciam sobretudo ao mundo do teatro, cinema, jornalismo, arte e literatura. Se por ali passavam Nydia Lícia, Eni Autran, Walmor Chagas, Ítalo Rossi, Ruggero Jacobbi, Maurice Vaneau, Alberto D'Aversa, Gianni Ratto, Aldo Calvo, Jorge Andrade, entre muitos outros, para mim não fazia a menor diferença. Apenas um, que se chamava Rubem de Falco, e que me tratava como uma princesinha, tanto se me dava se era príncipe ou ator. Só o nome já me fazia sonhar...

Quando Gica, aos 29 anos, deixou Abe, ele beirava os 40 e devia estar na fábrica dele. A noite anterior é possível que eu tivesse passado, como sempre fazia, em meu mirante e que ela, ao transpor o corredor, estivesse em soluços. É possível também que aquela foi a noitada em que Abe desapareceu com Cacilda Becker, deixando a minha mãe e os convidados atônitos, e voltou apenas de manhã para o café quando exigiu suas vitaminas, levedura de cerveja, suco de laranja, waffles, ovos fritos e bacon. O que que não representava grande novidade pois, desde a lua de mel (e até mesmo antes do casamento), parece que ele fazia a mesma coisa com Ruta Flicker e, depois, Jane Austin, que conheci. A primeira, espiã e guerrilheira sionista em trânsito pelo mundo; a segunda, loira arquiteta americana, mal casada com um quatrocentão paulistano.

Gica fez as nossas malas, colocou um livro de Hermann Hesse na bolsa Hermès de tela bege e couro escuro e disse adeus à sua biblioteca, quadros, piano, casa, jardim. Entrou conosco no automóvel de minha avó e cumprimentou o motorista: “Antônio, por favor, para a casa de minha mãe!”.
 
Quarta-feira, Agosto 24, 2005
  5

Sempre associei as pessoas a pequenas particularidades que, se não tinham importância em sí, deviam servir como referência simbólica à personalidade delas em relação a mim. Evidentemente, existem alguns destes pormenores que liguei a meu pai. O apelido dele era Abe, diminutivo americano de Abraham, provavelmente porque a minha avó teria gostado de dar-lhe um nome bíblico quando ele nasceu. No Brasil ninguém o chamava de Louis Adams. Ele era Abe para os íntimos, Sr. Abe K. para os conhecidos e Seu Abe para os empregados, nome sempre pronunciado à maneira americana, “eibe”.

Para mim, que ainda queria acreditar que meu pai era como os outros, Abe diferenciava-se apenas por quatro coisas: as roupas, os óculos, o perfume e o automóvel. Quando estava no Mato Grosso não sei, mas nos momentos em que se encontrava na cidade andava inváriavelmente de terno. Dependendo da estação, estes eram em príncipe-de-gales, tweed ou pied-de-poule, elegantemente combinados com gravatas de crochê. Não me lembro de tê-lo visto uma só vêz sem o lenço alvo e bem passado que saía em ponta da algibeirinha do peito. Nunca vi homem mais elegante e sei que Gica, minha mãe, Felícia minha avó, Ruta Flicker e Cacilda Becker também pensavam assim.

Os óculos eram muito importantes. Não só serviam para proteger e esconder os olhos das ressacas homéricas das manhãs, como consistiam nos únicos símbolos possíveis a reafirmar a segunda Grande Guerra, onde oficial que se prezasse fazia uso do Ray-Ban.

Old Spice era o seu perfume. E o frasco cônico de vidro leitoso estampado com uma caravela azul ficava sempre à vista, em cima da pia do banheiro. Jamais esqueci daquele aroma que eu adorava ir sentir quando meu pai, ao terminar a barba, tapeava o rosto com ele. E nesse ponto eu era soberana, podia entrar e sair de lá da forma e na hora que me aprouvesse. Afinal, fui bebê Spock* e criança Summerhill**, tratada e educada segundo os métodos mais modernos e revolucionários que eles pensavam ter encontrado na época! Não sei se minha mãe concordava com isso, mas Abe considerava que os membros de uma família precisavam agir com naturalidade entre sí e que até mesmo a nudez não devia ser um tabu. Foi igualmente por causa daqueles conceitos progressistas que ninguém (exceto Gica, às escondidas) me pegava no colo quando eu chorava desesperadamente em meu berço. "Criança não se pode mimar!"

Hoje entendo porque a primeira coisa que a minha mãe fêz quando se separou de Abe foi tirar uma carta de motorista. Durante os onze anos que ficou com ele, ouviu a idêntica lengalenga de que “nunca teria capacidade de guiar”. Ele, sim. Depois de fazer a barba, vestir o seu terno, afundar o lenço perfumado no bolsinho do paletó e ajustar no nariz os óculos Ray-Ban, entrava em seu Buick conversível e partia com uma arrancada. Aquele mesmo automóvel no qual meu irmão e eu fomos obrigados a entrar, antes de desaparecermos do mapa durante 21 dias.

* Dr.Benjamin Spock
** Summerhill
 
Terça-feira, Agosto 23, 2005
  4
Porque a palavra "capanga" era usada por um americano culto, formado em letras, especialista em August Strindberg e comunista são e salvo da cruzada Macarthista, na época em que o comunismo ainda era uma idéia possível? Como essa palavra tinha entrado no vocabulário de um apreciador da geração beat - Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti - alguém que apoiou a Casa do Povo, participou da criação do Teatro Brasileiro de Comédia, publicou artigos nos mais diversos jornais paulistas e detinha talvez uma das bibliotecas mais extraordinárias do Brasil sobre a literatura americana do pré e pós-guerra? Porque aquela figura, misto de Orson Welles, Bonaparte e Marlon Brando, que fumava cachimbo e possuía uma coleção notável deles exposta sobre o baú com os restos do material bélico apreendido (bem debaixo do quadro no qual se fez pintar por cima do general nazi), por que razão aquele homem usava uma expressão que nunca viu nem no exército do país dele?

Capanga, cabra, cabra-de-peia, cacundeiro, curimbaba, espoleta, guarda-costas, jagunço, mumbava, peito-largo, pistoleiro, quatro-paus, satélite, sombra. Estas são as palavras que Louis Adams devia ouvir quando desaparecia dos olhos de minha mãe e passava semanas sem fim em suas fazendas de café no Mato-Grosso. Sim, porque não contente com a fábrica têxtil que o meu avô paterno ajudou-o a construir e que, diga-se de passagem, ia de vento em popa, comprou terras perto de Cuiabá. Para onde chamou Yuri e Aaron, dois israelenses ex-sionistas que resolveu contratar. Yuri e Aaron, assistentes de meu pai em suas fazendas de café, iriam desempenhar um papel nada desprezível nas peças que constituíram o divórcio litigioso.

A propaganda, ou melhor, o “reclame” daquela usina foi o primeiro que assisti em minha vida na enorme televisão em branco e preto que, no começo dos anos 50, ele trouxe para a casa da rua dos Tamanás. A fábrica dele chamava-se Nitco e a primeira parte da publicidade era um relógio que ocupava a tela inteira, transmitida pela TV Tupi, fazendo “tic-tac-tic-tac-tic-tac”. Em seguida aparecia a modelo, loira platinada com um coque “banana”, vestindo um conjuntinho “Banlon” cor-de-rosa que consistia num pequeno pulôver de mangas curtas até a cintura e outro aberto, com botões, jogado nas costas. Ela exclamava com o ar feliz: “Nitco! No passar das horas!” E o relógio voltava: “tic-tac-tic-tac-tic-tac”. Nós batíamos palmas e ele, Louis Adams, meu pai, quase estourava de orgulho. Justo ele que defendia os beatniks, o ritmo e a linguagem assimétrica do jazz contra a obsessão da classe média por objetos e pela harmonia. E isso acontecia todas as noites, é claro, antes do “Repórter Esso” onde ouvíamos uma nova interpretação da “Carmen” de Bizet: “só Esso dá ao seu carro o máximo!”.

Sim, é compreensível que a palavra fosse usada por meu pai. Só não é justificável que, eu e meu irmão, tenhamos sofrido um rapto e que, ainda crianças, tivessemos que depor como testemunhas em um Tribunal de justiça!
 
Segunda-feira, Agosto 22, 2005
  3
As razões que levaram meu pai ao Brasil, o seu encontro com Gica, meu nascimento e infância como "Bebê Leirner", segundo a expressão carinhosa do crítico Pierre Restany, afluirão depois. Existe algo que deve vir antes, pois, como a lã ou a linha, se eu quiser costurar ou tricotar, é o que preciso para desenrolar o novelo ou a bobina.

Sofri um rapto pouco antes de completar 13 anos. Era julho e, como nossos pais já estavam separados, tínhamos ido, Terence e eu, passar o fim de semana na casa de Louis Adams. Ele morava com os pais no bairro de Pinheiros em São Paulo. Tinha deixado a mansão da Rua dos Tamanás, onde habitávamos, para ocupar uma pequena e agradável casa térrea, não longe de lá. Apesar da angústia que estas visitas obrigatórias causavam, sempre tentávamos nos convencer de que não era tão ruim assim ficar naquele estranho e confortável lar decorado à maneira americana dos anos 50. Enquanto a minha avó me ensinava a fazer doces, Terence aprendia com o avô a mexer no microscópio e ambos recebíamos de nosso pai noções interessantes sobre o cosmo e o microcosmo.

No tempo em que não aprendíamos, brincávamos de índio numa cabana que ficava montada no jardim. E, à noite, nas vezes que Louis Adams permitia que fossemos cedo para a cama, líamos com voracidade o amontoado de gibis que eram restritos na casa materna. Mutt & Jeff , Popeye, Sobrinhos do Capitão, Tarzan, Fantasma, Capitão América, Zorro e Tonto, Super Homem, Homem Bala, Capitão Marvel, Tocha Humana, Flash Gordon, entre muitos outros igualmente deliciosos, além de todos os medonhos quadrinhos de terror que caíssem em nossas mãos.

Quando não bebia, meu pai era uma enciclopédia. Quando bebia, em contrapartida, virava um roman noir. Propunha a mais pessimista visão de um universo que ele não suportava mais. Naquele mundo dominado pela paranóia, os personagens e os horrores da guerra misturavam-se às figuras romanescas de Faulkner, John dos Passos, Hemingway e também às pessoas e aos fatos da vida corrente. De forma que nunca soubemos o que delimitava a realidade dele da sua ficção. Com freqüência, meus avós iam dormir e ele nos retinha no sofá de veludo, em forma de ameba, para contar aquelas histórias. Terence encostava a cabeça em meu ombro, nossos olhos fechavam-se de sono, mas não ousávamos interrompê-lo. Não raro, ele nos arrastava até a janela e fazia-nos ficar agachados para que “os atiradores não nos pudessem ver”. Até hoje tenho terríveis pesadelos recorrentes, com janelas...

Era nesse momento que Louis Adams ia buscar o revólver e nos contava que estava sendo perseguido "pelos capangas de meu avô". Mesmo a uma criança era impossível persuadir que uma pessoa terna como o meu avô materno, conhecido mecenas, colecionador de arte, honesto e íntegro homem de negócios, alguém que provavelmente nem sequer conhecia o significado da palavra "capanga", pudesse pensar em algo semelhante. Não me surpreende que esta provação, pela qual passávamos, iría terminar em rapto!
 
Segunda-feira, Agosto 15, 2005
  2
A minha memória começa antes do meu nascimento. Sinto até hoje a sensação da súbita perda de altitude do avião onde voltava a minha mãe de sua prolongada e triste lua de mel na qual fui concebida. Lua de mel assim, só numa peça de E. Albee ou Tennessee Williams. O que não me admira, pois tenho a íntima convicção de que, apaixonado como era pela literatura americana, meu pai transformou a vida dele num romance. O problema é que o personagem que escolheu como vítima foi minha mãe. E, conseqüentemente, seus dois filhos.

Louis Adams nasceu numa família judaica de origem austro-húngara que, como tantas outras, depois da primeira Grande Guerra imigrou para os Estados Unidos instalando-se no Brooklin, em Nova York. Não sei o que faziam os meus avós paternos, porém o falecido tio Jonathan foi um médico e biólogo de renome, PhD, professor de Genética Molecular e Pediatria no Albert Einstein College of Medicine, Editor-chefe de uma revista científica importante e fundador da Sociedade internacional de Citogenética e Genoma. Minha tia é psicanalista e penso que está viva neste momento. Louis Adams, meu pai, formou-se em letras e com a eclosão da 2ª Grande Guerra foi chamado, como outros milhares de jovens, para servir no exército americano. Com a função de major e ajudante direto de ordens do Marechal Eisenhower, entre outros feitos, ele desembarcou na Normandia, foi ferido, atravessou a França, dirigiu-se à Baviera e, na jornada, matou vários alemães. Finalmente, tendo feito fuzilar um general, tomou Garmisch-Partenkirchen da qual tornou-se governador militar.

Meu pai, judeu, foi governador militar na Baviera antes de voltar para o Brooklin levando o quadro, o cachorro e o baú que eu conheci. O quadro o representava como governador militar: era o seu retrato pintado sobre o do oficial nazi que ele tinha prendido e mandado fuzilar (no reverso da tela podia-se ver ainda uma cruz gamada). Nesta pintura, que imitava a academia alemã do século 19, Louis Adams vestia o uniforme de major e segurava o fuzil com aquela expressão bonapartiana que nos era familiar. Afinal, pelo que me foi descrito, pelas fotos que vi e pelo que me é contado até hoje por alguns amigos da família como o famoso editor, escritor e teatrólogo Isaac Gainsborough, meu pai, fisicamente, era um misto de Napolão Bonaparte, Orson Welles e Marlon Brando. E ainda por cima o seu corpo avantajado exibia, não uma tatuagem, mas as cicatrizes da granada que estourou em suas costas. Não me admira que minha mãe Gica, aos 18 anos, tenha caído perdidamente apaixonada por ele.

Além do quadro, o cachorro e o baú também são inesquecíveis. Quando íam para a Guerra, os simples soldados levavam uma mochila. Já os oficiais tinham o direito de portar um baú de metal. O baú de Louis Adams, que ele trouxe de volta consigo, continha as armas de fogo, espadas e uniformes de todos os soldados e oficiais de quem tirou a vida. E o cachorro, um pastor alemão que se chamava Votan, o deus-personagem do Anel dos Nibelungos de Wagner, foi o companheiro querido da minha infância. Eu, uma criança judia, vivendo entre duas famílias que escaparam do Holocausto - sendo que uma delas se dedicava ao colecionismo de arte, à criação e ao intelecto - tive como amigo um cachorro de nome wagneriano, herdado de um general nazista morto pelo meu pai na Baviera. Um cachorro que Louis Adams, penalizado, havia recolhido pois Votan, tendo perdido o mestre alemão, seguiu imediatamente o seu assassino. E isto, no Brasil.

Hoje compreendo que tudo o que eu fosse viver em seguida também não poderia ser banal. E não foi. Daí a razão destas memórias.
 
Domingo, Agosto 14, 2005
  1
Sem deixar qualquer traço, meu pai nos abandonou, meu irmão e eu, quando tínhamos respectivamente 10 e 13 anos. Terence construiu boa parte da sua vida procurando-o e eu passei a minha tentando esquecê-lo. Graças a um artigo chamado 'Utopia Versus Reality' In Brazil's Art Biennal publicado no dia 9 de dezembro de 1987, no New York Times, reencontramos Louis Adams K.. Mais de 25 anos depois.
 
Trechos da vida glamourosa de S.L. e seus bastidores singulares, a ser publicada na íntegra em breve. As semelhanças com pessoas que existem ou existiram não são fortuitas. Todos os fatos relatados são verdadeiros. Exceto alguns nomes, nada foi inventado ou acrescentado e o que foi retirado espera, na gaveta de S.L., o dia de ver a luz. Blog criado no chamado "Dia dos Pais", e dedicado a todos os psicanalistas que a mãe da autora conseguiu enrolar.




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S.L agradece o maravilhoso feedback recebido e anuncia a retirada temporária da caixa de comentários pois, assim como acontece com os livros, a natureza do texto não permite, por motivos óbvios, uma atividade interativa entre autor e leitor. Por outro lado, a autora continua a receber (e a responder, quando possível) as flores de seus leitores no QOC.

Para que não se percam tão importantes comentários, no entanto, eles continuam reproduzidos aqui:

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