Hot Memories
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Conheci Denys Vasilopoulos, no curso de cinema, quando eu ainda morava no hotel ao lado da cidade universitária. Ele tinha os cabelos lisos, a pele clara e quando sorria com os dentes alvos e regulares, seus olhos semicerravam-se enquanto uma covinha formava-se no canto direito da sua boca. Era o oposto de Jonas, o príncipe húngaro. Denys tinha tudo de um macio e sensual gato plebeu, daqueles que nas noites de lua cheia percorrem os telhados quentes de uma ilha grega à procura de aventuras. Com efeito, ele nascera na ilha de Paros, mas fora educado em Atenas e estava exilado por motivos políticos. Desde 1967, quando um golpe militar colocou no poder uma junta dirigida pelo coronel Georges Papadopoulos, o meu amigo, além de dedicar-se ao cinema documentário, militava clandestinamente em Paris. Apaixonei-me sem vacilar. E quando, nos primeiros dias de agosto, Jonas anunciou por carta que viria me buscar enviei um telegrama:
“Inútil vir. Parto hoje Itália. Não te amo mais”.
Como eu merecia aquelas férias de verão! Paguei a conta e deixei o hotel alegre e definitivamente, certa de que quando voltasse encontraria um lugar melhor para morar. Ah, se eu soubesse que seria com as duas bretãs! Enquanto arrumava livros, rádio, discos e roupas, tudo que possuía, no meu “pote de iogurte” – o qual Denys e eu havíamos combinado conduzir em rodízio - pensava que, afinal, o semestre inteiro cheirara à clausura. Nossos quartos, o Museu do Homem onde estudávamos, as salas de aula em Vincennes, Nanterre, os restaurantes universitários, a cinemateca, o metrô, o
Polly Magoo, as festas alucinantes e mesmo as ruas. Que delícia seria atravessar a França, depois a Suíça e poder respirar o ar dos Alpes para, finalmente, conhecer Florença, Roma e talvez esticar até a Sicília!
Na minha imaginação, aquelas cidades deviam emanar o perfume das flores que eu via nas reproduções da
Primavera e do
Nascimento de Vênus de Botticelli, onde a deusa do amor e da beleza recebe um manto bordado de flores das mãos de uma
Hora. Só depois que passei férias com o meu segundo marido na
Villa d’Este em Cernobbio, mudei de idéia. Hoje, para mim, a Itália possui o perfume das trepadeiras de madressilva com o qual eu ia dormir, despertava e tomava o café da manhã no terraço, ao lado de uma fonte renascentista de sonhos, olhando o lago de Como. Penso que se um historiador construísse apenas a história dos cheiros ele não se afastaria um milímetro da realidade como fazem tantos outros que se dizem “cientistas”!
Nada, por exemplo, exalava odor mais fétido do que a cinemateca de Paris. De todos os “claustros fedorentos”, aquele era a pior. Somente a gratuidade dela e o nosso amor ao cinema podia explicar um tal sacrifício. Jovens "marxistas aspirantes" que éramos, sem igreja ou sinagoga, dando valor apenas ao intelecto muito antes de freqüentar o luxo do grande mundo, a cinemateca era o nosso fausto e sagrado templo. O lugar onde “rezávamos” diariamente depois dos cursos, assistindo a todas as sessões que pudéssemos – às vezes mesmo sem pausa para uma refeição - até a hora do último metrô.
Eisenstein, Griffith, Chaplin, Buster Keaton, Jean Renoir, Orson Welles, John Ford, as imagens desfilavam enquanto analisávamos cada movimento da câmera, lance de direção, fotografia, etc, e isto sempre com deleite e uma emoção da descoberta que jamais se repetiria em nossas vidas. Sentíamo-nos poderosos, como se ninguém além de nós chegasse a um “tal conhecimento e a uma tal compreensão da vida e do cinema”. Só hoje sei o quão pouco sabíamos e o quanto reduzido era o nosso entendimento...
Além das imagens, sucediam-se as celebridades que sentavam-se a alguns metros de nós. Henri Langlois, o diretor da cinemateca, estava sempre lá. Ao lado dele, de tempos em tempos, via-se uma atriz, um cineasta ou um ator famoso. Com a febre do
Cinema novo, não só assistimos a todos os filmes de Glauber Rocha, Ruy Guerra, Cacá Diegues, Paulo Cesar Saraceni, Walter Lima Jr. e Nelson Pereira dos Santos, como avistamos alguns deles, sobretudo os dois primeiros, várias vezes na platéia. Nos intervalos discutíamos a idéia de “uma câmara na mão e uma idéia na cabeça” de Glauber, acreditando que isso mudaria o mundo! De um lado eu lia com horror as notícias sobre a ditadura no Brasil no jornal
Le Monde, de outro vibrava quando saía algo sobre o cinema brasileiro na
Cahiers du Cinéma.
Tanto que, um dia, quando eu tomava um cafezinho num self-service universitário perto do bulevar Saint Germain, aceitei conversar com um rapaz apenas porque ele disse que era crítico daquela revista. Vejo-me ainda de minissaia, capa-de-chuva e botas, dando longas baforadas no meu
Gauloise, agitando os cílios à maneira de Twiggy, as pernas cruzadas e os longos cabelos loiros saindo do chapéu em feltro vermelho de abas que possuo até hoje. Não foi à toa que ele se apresentou e pediu para sentar: “Gilbert, muito prazer!”. Quando eu disse que era brasileira e estudante de cinema, então, o rapaz quase despencou da cadeira.
As suas três armas de sedução não podiam ser melhores:
Deus e o Diabo na Terra do Sol,
Terra em Transe e
Barravento*. Gostei bastante quando ele começou a discorrer sobre a importância da “estética da fome” contra o “formalismo burguês”. Segundo o rapaz, em pouco tempo a revista romperia com os “últimos laços capitalistas” e, sob os auspícios de Mao, da cultura do proletariado e do materialismo histórico, ela se tornaria... vermelha como o meu chapéu!
Ele não tinha mentido. Não só era crítico com alta posição no expediente da
Cahiers du Cinéma, como me levou à redação da revista e me apresentou, um a um, todos os colaboradores da época que já anunciavam situar-se “fora da atualidade burguesa”. Foi assim que apertei a mão de Jean-Luc Godard, saudei o “chefe capitalista” Daniel Filippachi (proprietário da publicação que, evidentemente, caiu fora algum tempo depois), tomei café com Jean-Louis Comolli e conheci Marina Vlady. Hoje, eu mesma custo a acreditar com que naturalidade e falta de apreensão eu conversava com todos.
Como em todas as histórias de amor, Chico Buarque que o diga e cante, o meu amigo Gilbert parecia apaixonado por mim que estava apaixonada por Denys que estava apaixonado por... E isso enquanto todo mundo descobria Andy Warhol e John Cassavettes, publicava-se os textos de Sergueï Mikhailovitch Eisenstein, o que fazia não só com que a teoria e a leitura marxista-leninista não conseguisse ficar de pé como se minimizasse a importância dos namoros. Naturalmente, o meu amigo Gilbert preferia a rígida postura universitária à nossa "velha cinefilia de cinemateca". Ele me dizia:
- Chega de ficar sentada naquela sala de projeção e estude mais! O legal é poder analisar
Intolerância de Griffith plano por plano ou uma seqüência inteira do
Os Pássaros de Hitchcock em vez de ficar se extasiando diante dos filmes!
Hoje, eu que não gosto especialmente de Truffaut, até entendo porque que no ano seguinte ele deixou aquela redação que eu visitava tão regularmente para encontrar Gilbert e os seus amigos. Gostei do que ele escreveu em seguida: “A leitura da revista está ficando proibida a qualquer um que não seja universitário. Quanto a mim, jamais li uma só linha de Marx”. Deve ser por isso que até meados dos anos 70, o Gilbert não conseguiu mais do que três mil gatos pingados como assinantes... Pena que não conheci Serge Daney que foi quem redescobriu o "prazer" do cinema e salvou a revista. Mas àquelas alturas eu já tentava trabalhar como assistente e escrever sobre cinema no Brasil...
Não sei o que Gilbert pensou quando desapareci para ir à Itália. Com a viagem eu queria não só escapar da passividade e diletantismo diante dos livros e dos filmes, coisa que ele tanto reprovava. Desejava sobretudo esquecer que ele, o cinema e a literatura existiam, convencendo-me de que a tela descortinada da existência era a única realidade possível. Cinema, livros e Gilbert – fora o cheiro deles mesmos, sendo que o perfume do meu amigo não era muito diferente da cinemateca - não têm odor do manto bordado de Botticelli! Não têm perfume de vida! E lá vamos nós!
Que belo e inesquecível percurso! Atravessar os Alpes com um “deus grego” dentro de um “pote de iogurte” foi, para mim, algo tão memorável e heróico que consegui até mesmo me sentir na pele, não de Giuseppe, mas de Anita Garibaldi. Ao atravessarmos Lugano, no entanto, quando paramos arrebatados para olhar o lago uma primeira pontada no lado direito do baixo-ventre me alertou que algo estava errado. Já no camping em Florença a febre subia enquanto eu observava a cidade do alto e depois o céu e as estrelas no meu saco de dormir. E praticamente não conseguia mais ficar de pé, quando chegamos a Roma e encostamos o carro em frente a um café.
Mas o pior de tudo aconteceu depois que pagamos as nossas deliciosas
orzatas, saímos à rua e o "pote de iogurte" não estava mais lá... Denys, para quem "férias não eram ficar sem carro e com uma companheira doente", comprou um bilhete de avião e no dia seguinte voou para a Sicília deixando-me sozinha, dolorida e fechada num quarto do
Albergo del Sole, entre o
Campo de Fiori e a
Piazza Navona...
O que fazer agora? E depois? Continuarei apaixonada? Conseguirei fugir das feras bretãs? Aguarde o próximo capítulo!!
*
Deus e o Diabo na Terra do Sol,
Terra em Transe e
Barravento: filmes de Glauber Rocha
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Interstellar Overdrive: antológico encontro de Frank Zappa com Pink Floyd no dia 25 de outubro de 1969. Amougies, Bélgica.
Porque um restaurante belga tinha paredes tão altas com imagens espanholas em tons pastéis? O que pensariam os donos do lugar ao verem que a fumaça e o odor de incenso davam aos corpos deitados uma languidez sensual? Provavelmente o mesmo que a velhinha, dona da única hospedaria de Amougies. Ela confessara a um de nossos amigos que os jovens a decepcionavam: “eles não gostam mais de sopa!”
Enquanto eu desdobrava o papel timbrado com o símbolo da Polícia nacional, lembrava - ainda mais, talvez, do que a própria música - a maneira como nos havíamos amontoado jogando os sacos de dormir sobre o piso aquecido do grande salão com lareira atrás do bistrô, por certo reservado às festas familiares do vilarejo. Praticamente não conversávamos. A nossa solidariedade revelava-se apenas por meio de gestos, sob sons de flauta e guitarra. Eramos, afinal, "a grande e unida família" que certamente nenhum de nós havia encontrado em sua própria casa.
Fernanda, Jeanne e eu felicitávamo-nos pela nossa decisão de não ter saído muito tarde da enorme tenda neste primeiro dia do Festival, onde a maior parte dos espectadores já dormia, mesmo sob os acordes feéricos de um dos grupos de rock. Os mais abastados reservaram o pequeno hotel, mas o nosso intento de encontrar abrigo e calor estava plenamente satisfeito naquele salão coletivo onde não pagamos mais do que alguns francos para descansar e nos aquecer. Durante quatro noites milhares de jovens distribuiriam-se entre este restaurante, o salão de festas da prefeitura, a igreja e as casas em construção.
Ao observar as duas bretãs convencionais sentadas à minha frente com os seus lenços de seda no pescoço, eu pensava naquele vilarejo de 400 habitantes invadido por seres estranhos vindos de todas as partes da Europa, em peregrinação quase bíblica, apenas para ver e ouvir os deuses da música contemporânea. Lembrava sobretudo do longo caminho no prado entre a cidade e a tenda do Festival. Formávamos uma pequena multidão a se deslocar naquele verde apenas permeado por manchas brancas as quais, quando nos aproximávamos, transformavam-se em vacas.
Chapéus, sinos, colares de contas, lenços e roupas coloridas, peitos nus, pés descalços... As indas e vindas do concerto compunham um cortejo solene e ao mesmo tempo jubiloso. Mas o ritmo era sempre lento. Talvez porque fizesse frio demais, talvez porque fumássemos demais. Da tenda já se ouviam os acordes amplificados pela aparelhagem e por alto-falantes espalhados em todos os cantos. Quando chegamos e nos acomodamos, escrevi em meu caderno: “Tudo preparado: droga ingerida, coração aberto, o sorriso e a flor para oferecer. Sem tropeços, sem pressa, acabamos de nos espalhar em volta do palco de luz. Estamos próximos da cena. Em poucos instantes a viagem ao mundo dos sons começará. Uma viagem infinita...”.
O segundo dia do festival de Amougies foi inesquecível! Logo cedo, o sol mal se levantara, chegaram os caminhões de leite. As duas únicas lojas estavam apinhadas pelos que tentavam obter um chocolate ou uma lata de biscoitos. Via-se centenas de figuras espalhadas pelo campo com garrafas de leite nas mãos. Uma fila estendia-se no local onde havia água para despertar os rostos entorpecidos pela noite mal dormida. Com a mesma escova de dentes alguns tentavam tirar o hálito viscoso de fumo e bebida.
Na sala do bistrô restavam os esquecidos de si. Estes ainda tocavam flauta e se beijavam. Tudo era partilhado ou oferecido dentro de uma atmosfera absoluta de amor e boa vontade. Como se as fronteiras da individualidade, assim como a música, servissem apenas de caminho para a aproximação entre as pessoas. Ilusão ou realidade, depois destes dias, jamais viveríamos a mesma experiência em nossas vidas...
Alguém acendeu uma fogueira perto de uma das casas em construção onde acabaríamos ficando naquela noite. Avistamos Carlinhos, companheiro carioca de
Polly Magoo. Este saíra de família milionária para procurar o próprio rumo. Deixara para trás muito mais do que nós, razão pela qual o admirávamos em segredo. Ele acenou da porta. Andamos até encontrar um esconderijo onde pudéssemos acender calmamente os nossos cigarros. Sentados sobre materiais de construção, vasculhamos os bolsos e nada. Nem um resquício de papel. Mas o cigarro era essencial! O que faríamos?
Fernanda estalou os dedos como quem lembrava de algo e rapidamente procurou na bolsa a carta que o pai lhe enviara dias antes. Rasgou um pedaço e entregou a Carlinhos. Este enrolou um cigarro gordo e branco que fumamos com langor, devagar. Sem remorso algum em queimar o papel aéreo com os garranchos queixosos que o médico laboratorista rabiscou para a filha. Pensei naquela letra. Ela desobedecia os riscos paralelos do papel que fumávamos da mesma forma como o pai de Fernanda desobedecia os “riscos paralelos” de sua relação simbiótica com a filha... Sorri, quando ela me passou o toco do cigarro ao qual, depois de dar uma profunda tragada segurando bem a respiração, apliquei um peteleco.

Frank Zappa recebe Captain Beefheart
no Festival de Amougies. 1969, Bélgica.
Eram 4 horas. Novos acordes anunciavam que o espetáculo recomeçava. Ao longe vislumbrávamos o mesmo séqüito que reiniciava a sua passagem. Esta noite teremos Pink Floyd! Exclamamos e começamos a correr. Enquanto nos deslocávamos os nossos movimentos iam ficando cada vez mais lentos até o momento em que o ritmo do cortejo e o nosso fizeram-se totalmente sincrônicos. Flutuávamos numa estrada verde infinita, cheia de luz, sentindo-nos cercados por seres divinos e adoráveis. Entreolhávamo-nos sorrindo:
- Fernanda, veja! Fiz um sinal com a cabeça em direção à Jeanne que caminhava com os olhos semi-abertos.
Carlinhos abriu a página de uma grande revista em tons vivos. Aquele gesto foi mais forte do que o sol. As cores saltaram do papel e espalharam-se pelos prados. O tempo não se dividia mais. A terra já não apresentava dimensões, era engolida pelo céu e desta totalidade podíamos fazer parte. Apenas os sons ficavam cada vez mais fortes. O chão começava a tremer. Arrepios de emoção nos invadiram...
Dos alto-falantes, porém, avisavam que deveríamos esperar do lado de fora. Enquanto nos agrupávamos em torno daquela tenda, que agora mais parecia uma nave espacial, chegavam também os curiosos habitantes de outras aldeias. Traziam os filhos, velhos e cachorros. Certamente não para ouvir a música, mas para saber quem eram os “invasores”. Arames farpados os separavam de nós, assim como um pequeno e discreto exército armado. Na época eu não compreendia porque representantes “da paz e do amor” eram recebidos com armas. Hoje eu sei, infelizmente, que a “diferença” inspira medo. Algumas professoras de escolas primárias trouxeram os seus alunos.
- Olha os hippies! As crianças nos apontavam.
Flashes, questionários. Jornalistas empunhavam bloquinhos: “O que você pensa sobre a encíclica Humanae Vitae?” “É a favor das drogas?” perguntou-me uma moça com quem antipatizei de imediato. Fisicamente ela lembrava a Danielle, estudante reacionária e gaullista que tentava contato com os exilados para defender uma tese negacionista sobre a tortura no Brasil. Não lembro o que respondi, só sei que começamos a latir e a rugir. Em pouco tempo todos em volta da tenda pulavam e uivavam. Já que nos observavam como animais num zoológico, precisávamos contentar os visitantes...
Pink Floyd! Por felicidade Pink Floyd estava lá e transportou-nos...
- Sheila, se você não ler o que está escrito neste papel, vamos ter que tomar providências!
- Que providências?
- Vamos telefonar à sua mãe e avisar...
Levantei-me, tirei o telefone do gancho e o estendi à Gaby:
- Pode telefonar. Aliás, vem a calhar. E assim eu não vou ter que descer à rua para chamá-la da cabine.
- Como ?!!!
- Telefone já! Quer o número? Perguntei.
- Bem...
- 0055... E diga à minha mãe, por favor, que encontraram o “pote de iogurte” que ela me deixou! É isso que está escrito aqui nesta carta da Polícia nacional. Só isso! Veja: encontraram o nosso Fiat que foi roubado em Roma!
Praticamente esfreguei a folha de papel no nariz de Gaby, em seguida no de Sylvie e saí. Desci os cinco andares e fui direto à primeira agência imobiliária que encontrei.
- Vocês têm um estúdio para alugar? Sim, sim, posso dar caução. Talvez a minha mãe concorde que eu tire do dinheiro que acabo de receber da companhia de seguros, pois o nosso carro foi roubado. Quer dizer... ele foi achado, veja esta carta. Mas agora é como se a companhia de seguros o tivesse comprado, entende? Só preciso avisar a polícia e a minha mãe... não tenho culpa de nada... você pode confiar em mim.

Interstellar Overdrive: antológico encontro de Frank Zappa com Pink Floyd no dia 25 de outubro de 1969. Amougies, Bélgica.
Conseguirei fugir das feras bretãs? O que eu fazia em Roma quando o “pote de iogurte” foi roubado? Aguarde o próximo capítulo!
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O tempo que levei para pegar o envelope durou uma eternidade. Mais as duas pestes demonstravam impaciência, mais eu demorava. Uma vez que eu já estava sentenciada sem precisar abri-lo, não havia razão para que me apressasse. Ainda na entrada, procurei a janela com os olhos. O sol jogava réstias sobre os móveis empoeirados e o azul rutilante que escapava por trás dos velhos prédios, lembrava o céu de Amougies. Suspirei ao pensar nos quatro dias que passara naquela aldeia belga aos pés do Mont de l’Enclus. Gaby e Sylvie, essas bretãs sentadas à minha frente com as caras amarradas, nunca saberiam o que era fazer parte de uma lenda!
Tudo começou quando as árvores começaram a perder as suas folhas. Fernanda chegou excitada ao café
La Palette na rue de Seine onde à noite, a partir das oito e meia, encontravam-se os brasileiros, muitos deles exilados, alguns pintores, outros fotógrafos ou cineastas. Era meu aniversário e Mozart desenhava o meu retrato num pequeno pedaço de cartolina.
- Estão organizando o primeiro festival de rock da França! Este foi o “boa-noite” de Fernanda.
- Daqui a pouco vocês se falam. Sheila não vire a cabeça! Veja o que fiz com a sua orelha! Saiu horrível. Agora vai ficar orelhuda assim mesmo...
Eu me olhava naquele cartão e lamentava um pouco o cabelo que pedira ao cabeleireiro para cortar rente quando fui roubada em Roma, no verão. Quisera experimentar a liberdade de não ter nada... nem mesmo cabelos! Ao menos ficava mais fácil para lavar agora naquela mísera ducha atada à pia e secava mais rápido. Dei um beijo no meu amigo, agradeci o presente e puxei Fernanda de lado.
- Festival de rock? Onde vai ser ?
Fernanda abriu a bolsa e tirou um pedaço de papel impresso:
- Presente de aniversário! Entrada para o
Actuel. Daqui a exatamente um mês estaremos assistindo Pink Floyd e muitos outros!!! Vai ser uma fábula! Não se sabe ainda o local pois parece que não estão conseguindo autorização do governo francês para realizar o festival nos Halles de Saint-Cloud. Ouvi dizer que será transferido para a Bélgica, talvez Courtrai. Parece que esse ministro Michelet gaullista que pegou o lugar daquele reaça do Malraux só gosta de música clássica e está abalado com o
Woodstock do mês passado... Esses políticos tem medo dos jovens e da música!
Será que o governo francês estava com medo pois na abertura de
Woodstock aquele moço falou no microfone que o que eles tinham em mente era “o café da manhã e uma cama para 400 mil pessoas”? Só por isso? Ou era porque uma semana depois também teve a Ilha de Wight com Bob Dylan e 250 mil espectadores? Que bobagem! Quem é que não leva sanduíche e têm um saco de dormir?
- Vamos sim, Fernanda! Cadê a Jeanne? Ela vai adorar! E, como carro eu não tenho mais, se for na Bélgica é no 2CV dela que nós vamos viajar!

Nem mesmo em Courtrai o
Actuel conseguiu se apresentar. Apenas na minúscula Amougies, bem no meio de um imenso pasto verde salpicado de vacas, que a gigantesca tenda do Festival foi montada sobre suportes de aço. Ficava, segundo Frank Zappa numa entrevista que deu muitos anos mais tarde “no meio de um pedaço de nabo, nos confins do nada”... * Contudo, como a maior parte dos espectadores que vinham de toda parte da Europa, nós partimos naquela sexta-feira, 24 de outubro de 1969, com o coração aos pulos. Certamente iríamos viver uma experiência única em nossas vidas!
Antes, não podíamos deixar de passar pelo apartamento de François, rico herdeiro da burguesia parisiense. Não que o rapaz quisesse assistir Captain Beefheart e precisasse de uma carona. Mas, enquanto grande turista do Tibete, representante da esquerda festiva e esclarecida da Sorbonne, cujos bolsos jamais eram aprovisionados pelos pais, somente ele poderia nos vender aquela pedrinha de haxixe que faltava em nossa bagagem. Estávamos enganadas. Nada de pedrinha. Ele as tinha consumido todas! A solução foi procurar o amigo do meu “irmão adotivo” Aron Blikman. O polonês Andjei, que se apresentava sempre como famoso cineasta formado em Lodz e - quem não sabia? - nada mais era do que um grande picareta. Talvez justamente por isso, com ele tivemos mais sorte...
Escondemos o pequeno e perfumado fragmento de resina no laço do chapéu de Fernanda e iniciamos a travessia da França no carrinho de Jeanne, excitadas e felizes. Cantávamos, ríamos e tagarelávamos febrilmente. De vez em quando as três paravam para lembrar da "fossa". E, então, cada uma recontava a história “única” de sua desilusão e o desejo de romper com os vínculos familiares e sociais. “Quando eu voltar a Boulogne-sur-Mer, ameaçava Jeanne, vou dizer tudo aos meus pais!” “E você acha que eles vão mudar? Tentava moderar Fernanda.
“Eu vou escrever uma carta à minha família, como já disse ao Denys”, repliquei. “Aliás foi ele mesmo quem me sugeriu: falou que se eu voltar ao Brasil não escapo de viver da exploração do proletariado com a desculpa de ser intelectual. Carrinho, piscina... eu não quero ser aquela burguesa com álibi falso, ‘bem estudar’, terminar ‘bem’ a faculdade e depois casar-me com um rapaz ‘interessante’ e ter o bom apartamento decorado pela
Mobilínea ou pela
Artes e Objetos e receber o grupo dos falsos e imbuídos de si próprios, dos satisfeitos com o próprio intelecto como a Marina Barbosa ou algumas pessoas lá em São Paulo!”
- Carta não é uma boa idéia. Carta é coisa que machuca e fica. Objetou Fernanda. Jeanne perguntava-se o que era
Mobilínea e
Artes e Objetos... Expliquei que eram lojas de decoração. E continuei:
- Pois eu quero que a carta fique mesmo! Além disso, vou escrever que, apesar dos meus estudos, não pretendo fazer filminhos de arte ou freqüentar o cine
Belas Artes e menos ainda fazer “arte para o povo”, quando se explora esse mesmo povo que nem ler sabe! E tem o Guarujá! Ai meu Deus! Tem aquele Guarujá para os cansados do trabalho da exploração da massa. Lá eles recebem o descanso merecido, não é? Se eu voltar, não escapo! É batata!
- Guarujá? Perguntou Jeanne.
- Guarujá é como Deauville, Jeanne. A mesma merda! Se alguém me disser: “mas Sheila, você sempre pode optar, não precisa seguir o esquema da família ou da sociedade, você segue o seu” vou responder que isto não é verdade! Pois a gente está dentro do troço e se sair está sozinho e se está sozinho não é nada. Tanto faz se eu estiver no Brasil ou na França, o que eu quero mesmo é ficar independente economicamente, arrumar um trabalho, continuar estudando pois é o que eu amo e mudar de vida de vez! Pois se eles pensam que rompendo com o Jonas e com o que ele representa, eu mudei a minha vida, estão enganados. Foi uma mudança muito superficial...
- Eu acho que a Sheila está certa, Fernanda! Disse Jeanne enquanto já nos dirigíamos a Tournai e ela virava a direção à direita para sair da estrada rumo à Amougis. No sinal estava escrito que faltavam apenas 7 quilômetros.
Ao avistar a cidade e a tenda armada no campo, comecei a ficar com arrepios. Pressenti que, além de ouvir pura música e poesia, iria viver os dias e as noites mais loucos da minha vida!
***
Afastei os olhos da janela, sentei-me diante da mesa, peguei o envelope e comecei a abri-lo lentamente. As cenas do bistrô aquecido, onde alugava-se dois metros quadrados para os que quisessem dormir no chão protegidos pelas paredes pintadas com motivos espanhóis durante os quatro dias do festival, permaneciam indeléveis em minha memória. Os acordes de todo aquele rock, free jazz e música contemporânea misturados, ainda soava em meus ouvidos. Refletida no papel eu via a imagem do mestre de cerimônias, nada menos do que Frank Zappa, grande trangalhadanças vestido com um impermeável amarelo, que improvisara com quase todos os músicos, Pink Floyd especialmente em um longo e inebriante
Interstellar Overdrive. Fechando os olhos ainda me parecia ouvir a poesia do extraordinário Captain Beefheart, a música de Archie Shepp, Don Cherry, Yes, East of Eden, Soft Machine, Freedom, Renaissance... Jamais poderia imaginar que trinta anos depois a música na França estaria sujeita à uma festa “normalizadora” organizada pelo próprio governo (a risível
Fête de la Musique) e que nada restaria aos jovens como revolta senão as vazias e imbecilizantes “rave-parties”...
- Sheila, você está dormindo? O que está escrito ai na carta?
* Society Pages issue no. 2 "They're doing the Interview of the Century" December 22, 1989 Frank Zappa interview by Eric Buxton, Rob Samler, Den Simms:
F. Z.: (…) This tent held thousands of people in Amougies. Freezing cold, damp weather, constant log, the most MISERABLE (laughter) circumstances you could find yourself in, for four days, and it was a twenty-four-hour-a-day festival, and the kids would come there, and they had their sleeping bags, and they were sleeping through ... they were just in this tent FREEZING, laying on the ground, sleeping, while music went on around the clock with all these groups...(…)
No próximo capítulo, finalmente o conteúdo da carta e os dias e noites mais loucos da minha vida!
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Bacchanal, Tiziano Vecellio di Gregorio, Ca. 1518, Veneza, óleo s/tela (175 x 193 cm). Escola Italiana, Renascimento, séc. 16.
Naquela soirée Polly Magoo, Richard, angustiado, balbuciava em francês contando como abandonara o exército americano durante a guerra no Vietnã. Tony, tão desertor quanto ele, sorvia o seu chocolate com os olhos perdidos em sonhos e alucinações. Fernanda reclamava porque Furio, o músico “sensual” que fora visitar a recebera nu e ela, sentada na poltrona, tomou café em frente dele olhando para... “mas que coisa absurda, não?” E Léa chorava pois fora expulsa da casa do namorado. Como ousara rasgar um poema feito especialmente para ela? “Vou para o campo!” dizia. De repente, um beliscão no seu traseiro:
- O que vão tomar?
- Esse sacana do dono sempre gosta de bolinar! UM COPO DE VINHO TINTO, OK? ... e em voz baixa, para si - é mais barato.
O indiano, de quem nunca se soube o nome, levantou-se subitamente e escolheu os convidados para a festa improvisada daquela noite. Como de hábito, Fernanda e eu estávamos na lista. Apenas não sabíamos o que nos esperava... Jeanne acostumara-se a ficar excluída e já se preparava para voltar ao pequeno estúdio do Quartier Latin, forrado de cartazes e penduricalhos étnicos que trouxera do Nepal. Gordinha, cabelos desbotados cortados rente ao crânio, boca fina e traços marcados, não se podia dizer que a minha amiga fosse pródiga em sex-appeal. Além do que, apesar do esforço que fazia para se vestir como hippie, possuía algo de solteirona do norte, uma expressão facial um pouco dura que os rapazes parisienses tinham dificuldade em apreciar. Pois eu adorava Jeanne! Foi com ela que aprendi que as árvores plantadas nas estradas em distâncias iguais causavam acidentes por causa do que ela definia como “freqüência de ondas cerebrais”. Era observando e comentando a paisagem que atravessávamos a França no carrinho dela para visitar os seus pais em Boulogne-sur-Mer.
Porém, como as minhas impressões sempre foram um pouco exageradas e dramáticas, as únicas lembranças que tenho daquela cidade são de uma tristeza atroz. Ali cheguei até mesmo a pensar que podia ser plausível alguém por fim à própria vida. Pois quando Jeanne levou-me à praia cinzenta e enevoada para mostrar as minas deixadas durante a guerra, não pude me impedir de imaginar todos os sombrios habitantes de Boulogne-sur-Mer atirando-se à água para fugir daquela desolação. Lembro do apartamento em frente ao mar onde comíamos melancia às escondidas na cozinha. Lembro dos velhos e da curiosidade com que me receberam. Aliás, eu teria preferido um milhão de vezes que aquela curiosidade em relação aos brasileiros fosse substituída completamente, e em mesmo grau, por pura generosidade. A mesma generosidade que eu havia testemunhado no Brasil. Porque comíamos melancia às escondidas?
Também de forma mesquinha, e sempre às ocultas, transcorria a minha vida com Gaby e Sylvie. Mesmo com o queixo duro e quadrado, as marcas de preocupação na testa e o olhar azul metálico, Jeanne era infinitamente mais humana do que aquelas pequenas burguesas bretãs de capa-de-chuva e lenço Hermès que subalugavam o apartamento na rua Vaugirard! Ali, embora no final do mês o aluguel acabasse dividido em três partes iguais, elas escolheram duas peças imensas e um grande e confortável banheiro, deixando ao sublocatário o quartinho dos fundos e o lavabo. Naturalmente, a quantidade de roupas que possuíam devia ser acomodada nos armários maiores e a importante toalete que as impecáveis BCBG faziam merecia um banheiro à altura.
Logo que cheguei estenderam-me um papel onde estavam minuciosamente descritos os meus direitos e deveres, sendo que o número dos últimos era bem superior ao dos primeiros. Nunca vi tantas proibições! Eu não podia entrar no grande banheiro, devendo me contentar com o lavabo onde o meu “chuveiro” seria apenas a pequena ducha atada à torneira da pia. A entrada na cozinha tinha hora certa e não devia coincidir com o horário das refeições delas. O telefone era permitido para chamadas de fora, porém se eu quisesse telefonar deveria descer os cinco andares sem elevador e, mesmo se estivesse nevando, usar a cabina da rua. Música, rádio, TV, tudo isso só era possível caso as pestes também decidissem se distrair. A música eu conseguia contornar com Aquele abraço de Gilberto Gil, a única que as moças gostavam depois do biniou e das danças da Fest-Noz. Uma vez, e apenas uma vez, tomaram um copo de vinho a mais e chegaram a ensaiar alguns passos de samba comigo. Devem ter se arrependido, pois no dia seguinte saíram sem dizer bom-dia...
Imagine se elas soubessem que a maior parte da minha pequena biblioteca fora formada depois que roubaram todos os meus pertences e que era presente de Bern e Frank, velho casal de livreiros homossexuais que eu freqüentava com grande ternura? Se tivessem conhecimento de que, nas férias, antes de vir morar ali, eu tinha atravessado os Alpes de carro com Denys até chegar à Roma, onde o meu “pote de iogurte” foi furtado com tudo que eu tinha na vida? E se tivessem notícia de que este meu namorado e o poeta Acinos Tritsibidas, que eu adorava, eram exilados, militantes do PC grego e, além de tudo, bissexuais como é tradição na Grécia? Ou se descobrissem que alguns amigos, como o casal Macha e Edmond, eram louquinhos da silva, neuróticos o bastante para inspirar até mesmo um roteiro de Eric Rohmer?
Creio que foi a primeira e última vez que me senti plenamente no papel de Cinderela, a gata borralheira, e suas duas “irmãs”. Era o que eu queria contar aos meus amigos do Polly Magoo, porém ninguém dava muita atenção ao que eu dizia. Jean-Luc relatava de novo, desta vez a outra moça, a sua viagem à Grécia. Wanda, a professora brasileira exilada, frustrada em todos os níveis da vida dela, quase caía da cadeira de metrô depois do sétimo copo de vinho rosé. O nosso querido manco do bordel, grande sujeito que alugava quarto num prostíbulo para poder escrever, rabiscava notas em seu caderninho. O incorrigível Michel vermelho usava habilmente os seus atributos de líder do PCU (Partido Comunista Universitário) para seduzir mais uma menina... Foi quando o indiano voltou a nos chamar. Fernanda virou-se para mim e decidimos: “desta vez não vamos sem a Jeanne!” Iríamos embora. De todo modo em nossas cabeças a festa já estava desenhada, dissecada, acabada. Afinal, acreditávamos, em Paris todas as festas são idênticas...
- Podemos não ir à festa, disse Fernanda. Mas dormir eu não vou! Ela pensava no seu estúdio sem aquecimento onde passara a noite anterior acordada. Verdade que tremia ainda quando, pela manhã, nos encontramos para um café. Seus lábios e mãos estavam violáceos...
De minha parte também imaginei o trajeto metrô/rua Vaugirard/cinco andares. Pensei na porta que, ao abrir, rangia e acordava as duas feras bretãs. Adivinhava de antemão os acessos de tosse que acompanhariam a minha toalete antes de me deitar naquele colchão que tinha um buraco no meio, e nos bilhetinhos de repreensão ou falsa amizade que eu encontraria sobre o travesseiro. O gesto de solidariedade à nossa amiga não durou muito.
- Vamos à festa, eu disse! O pessoal já está esperando lá fora. Jeanne, sinto muito. Mas a gente se vê amanhã!
Nada revelava que a coisa se transformaria a partir da meia-noite. O apartamento parecia espaçoso e, embora possuísse apenas um quarto, dispunha de grande salão com vista para um jardim. Sobre o parquê, como que ilhotas, espalhavam-se almofadões coloridos. Num canto, uma escrivaninha improvisada em bufê apresentava bebidas e alguns acepipes. Havia cinzeiros de lata por todos os lados e uma pessoa se ocupava da vitrola e da troca constante dos discos de vinil. Apenas o grande sofá azul, no fundo, sofria a indiferença dos convivas. Ninguém sentava nele. Naquela época tal móvel era símbolo da rigidez burguesa, para cujos adeptos foi inventada a sigla TTCS, tasse de thé cul serré (taça de chá bunda apertada). Não me admira, portanto, que foi justamente aquele sofá que nos salvou!
Fernanda e eu conhecíamos boa parte das pessoas e conversávamos animadas. Mais contentes ainda quando pensávamos nas pequenas misérias das quais tínhamos nos livrado até o momento. Vimos quando alguns casais começaram a dançar, namorar e, para nossa surpresa, tirar algumas peças de roupa. Tudo parecia muito natural e os almofadões estavam lá para provar. É hora de ir embora, pensamos. Carona já não vamos ter. Porém, ao olhar o relógio... metrô não havia mais! Também não podíamos atravessar Paris à pé naquela hora. E quem tinha dinheiro para táxi? Depois de escapar de um ou outro assédio, rapidamente fui ao quarto buscar um cobertor e voltei. Fernanda estava confusa. Bendito sofá TTCS! Por sorte alguém diminuiu a luz e sem que se percebesse, pulamos atrás dele. A atmosfera esquentava diante de nós e, em nossa trincheira, sob o cobertor, era possível observar o desenrolar dos acontecimentos. Eu preferi me cobrir e não espiar.
- Ai Meu Deus! Onde é que fomos parar? Olha aqueles dois! exclamava Fernanda. Eles não têm vergonha?
- Fernanda, pára com isso. Vê se dorme. Logo vai chegar o dia e vamos sair daqui. Ao dizer isto, enfiei a minha cabeça sob a coberta de lã pensando como são sábias as avestruzes. O que não deve ser visto, não se deve ver...
- Sheila, não agüento!!! Já imaginou o que diriam os meus pais? Sheila, nós estamos no meio de uma suruba! Nem acredito no que estou vendo!
- Então pára de olhar, Fernanda! Psit! De repente descobrem que estamos aqui!
- Não consigo não olhar. Veja! Ali têm três juntos!!! Ai meu Deus, está chegando mais um. Mas aquela moça é muito sem-vergonha. Ai Nossa Senhora da Aparecida! Ai se meus pais souberem!
- Você quer ficar quieta, por favor? Está parecendo locutor de rádio! Os seus pais não vão saber, ninguém vai saber. Só eu vou saber e isso é como se ninguém soubesse pois estou na mesma fria que você!
- Tá bom, falo baixinho. Não é que eu queira irradiar o jogo, mas... Sheila, escuta os gemidos, está todo mundo no chão! Todo mundo pelado! Olha!
Olhei para verificar se não era imaginação dela. Não era. Voltei a cobrir a cabeça com o cobertor enquanto dizia:
- Fernanda, nós vivemos numa sociedade avançada. Podemos não estar de acordo e não participar. Mas eles são livres para fazer o que quiserem. Então, DEIXE DE SER CAIPIRA E DURMA!
Quando os primeiros raios de luz apareceram na janela, levantamo-nos devagar e andamos com cuidado para não esbarrar nos corpos adormecidos sobre os almofadões. Ninguém percebeu quando giramos a chave na fechadura e, finalmente, conseguimos escapar. Na rua, os cafés começavam a abrir e os garçons a dispor as mesas nos terraços cobertos. Sentamo-nos para conversar antes de nos despedir e tomar o metrô. Estávamos muito deprimidas e não sei qual das duas sentenciou, mas continua escrito no meu caderno:
- Ainda bem que às 3 horas passa Eisenstein na Cinemateca.
Quando cheguei em casa e abri a porta ofegante, assustei-me ao ver Gaby e Sylvie sentadas no sofá da sala com os braços cruzados. Em cima da mesinha de chá estava um envelope que uma delas apontou, dizendo:
- É para você. E vem da Polícia nacional! Da Polícia!!!
Elas me fuzilavam com o olhar. Eu me sentia julgada e condenada, antes ainda de saber qual era o meu crime. E o fato de ter passado a noite fora só piorava a minha situação. Imaginei como seria fantástico se eu pudesse girar aquela cena ao contrário, assim como fazia com os filmes na tábua de montagem do meu curso de cinema. Sorri ao ver-me andando rapidamente para trás e descendo de costas os cinco andares até chegar na rua...
- Não vai abrir? Queremos saber em que enrascada você se meteu.
Olhei para aquele envelope e compreendi perfeitamente que não tinha nada a ver com a pequena agenda do Dia das Mães na loja Printemps. Mas... o que seria?
O que há no envelope? Aguarde o próximo capítulo.
34
No Mercado das Pulgas, Paris, julho de 1969.
Copyright©Giselda LeirnerA solidão não durou muito. Depois de me inscrever em todos os cursos e encontrar um apartamento velho e deteriorado na rua Vaugirard, que dividi com Gaby e Sylvie, duas jovens bretãs BCBG, “bon chic, bon genre” (que traduzo aqui por BCBC, “bem chiques e bem chatas”), mal tive tempo de pensar no passado. Já estavam longe o aborto, a primeira viagem à Paris durante as desordens de 68 - quando fora a Brugges e à Bruxelas com Gica - Totó, os meus amigos e a vida com Felícia na rua Guadelupe. Em menos de um mês, a minha agenda e carnê de endereços ficaram lotados. Verdade que, como dizia a minha avó, “as pessoas tem alfinetinhos que arranham depois de um certo tempo de convívio. Sempre deixam um pózinho em cima da alma da gente...”. E ela acrescentava: “Sou como um bichinho, de casca dura, que sabe muito bem por a cabecinha pra dentro.” Ainda assim, mesmo sem casca dura, pensava eu naquela época: melhor mal acompanhada do que sozinha!
Gosto de lembrar o exército de amigos com quem me liguei na cidade-luz. E isto não é difícil, pois cada um deles foi perfeitamente descrito por mim, no meu caderno, com vistas a um eventual (e "nada" pretensioso) romance à maneira de Balzac. Mesmo as pessoas que via apenas de passagem (ou um pouco mais do que de passagem) - como os meus professores Jean Rouch, Pierre Francastel, o brilhante Nicos Poulantzas (ex-aluno predileto de Louis Althusser); artistas, intelectuais, músicos, cineastas, críticos de cinema ou fotógrafos como Hervé Télémaque, Roland Barthes, Geraldo Vandré, Georges Moustaki, Glauber Rocha, Henri Langlois, Jean Narboni e Henri Cartier-Bresson, entre tantos outros - eu também observava e gravava na memória pensando que um dia talvez figurassem em minha futura “obra literária”. Testemunhei Cartier-Bresson, por exemplo, fotografar Paris. Magro que era, parecia um pernilongo saltitante a metralhar uma imagem atrás da outra com a sua Leica sem fotômetro nem flash. Quando o reconheci, acompanhei-o sem nenhuma vergonha pelas calçadas até que ele percebeu a minha presença e sumiu. Foi a primeira vez que assisti alguém fotografar daquela forma não intermitente (que depois copiei) e agora arrependo-me de não ter comentado isso com ele, 27 anos depois, quando o entrevistei.
Claro que voltarei a alguns destes figurões mais adiante. Porém, antes deles e do novo exército de amigos, estava Aron Blikman, o belo e “eterno turista” brasileiro, estudante de cinema como eu, quem eu ia freqüentemente visitar na Casa do Brasil e cujo homossexualismo eu só descobri quando dormimos lado a lado como dois irmãos. Como dois irmãos continuamos, mesmo quando voltei, bem mais tarde do que ele, ao nosso país. Esta foi a primeira de algumas histórias de amor, platônicas pelas mesmas razões, que povoaram a minha juventude. (Com os cabelos, jeito e rosto de um menino delicado, eu não devia ser do tipo ameaçador para homens que não fossem heterossexuais). Ainda conservo a batelada de fotos que Aron fez de mim nos anos 70, em São Paulo.
- Deixe eu fotografar você rapidamente, disse ele arrumando o tripé. Antes que...
- Antes que o quê? Perguntei, já prevendo alguma daquelas “arranhadas de alfinetinhos” das quais falava a minha avó.
- Antes que acabe.
Naturalmente ele estava falando da minha beleza que, como até aquele momento para mim, não existia, não tinha como “acabar”. Mas as palavras dele me marcaram, pois foi apenas e exatamente então que compreendi que, como todo mundo, também iríamos envelhecer. Não foi o que ocorreu com ele. Para a nossa infelicidade, Aron Blikman não teve tempo de ficar velho. Conversamos e nos encontramos ainda algumas vezes até a hora em que a Aids o levou, precocemente. Ele morreu, como viveu. Lindo, apaixonado pelo cinema e pelas cidades onde morou. Procurei consolo tentando convencer-me que, apesar de tudo, a alma do meu amigo estava feliz. Foi ser turista... no céu.
Primeira viagem à Paris. Visita à minha mãe, ainda hospedada no Hôtel du Quai Voltaire. Junho de 1968. Copyright©Giselda Leirner
Diferentemente importantes, para mim, foram o militante exilado do PC grego Denys Vasilopoulos, neurótico colega responsável pelo meu malogrado flerte com o suicídio num estágio de cinema no sul da França; Loïc, o presidente da União Nacional dos Estudantes Franceses, para quem escrevi discursos sobre a ditadura na América Latina; e sobretudo Fernanda, filha de conhecido médico, dono de um dos grandes laboratórios paulistas.
Não me lembro onde a conheci. Só sei que, mesmo atuando em campos completamente diversos (ela queria ser advogada), sentimos imediatamente que nos ampararíamos naquela dura vida de estudantes. Mais do que isso, descobriríamos por igual a aspirada liberdade sabendo que, juntas, poderíamos tanger levemente os seus limites. Devia ser por esta razão que, como um pêndulo, só ousávamos algo mais arriscado por rodízio. Uma sempre ficava de plantão em caso de necessidade. Raras foram as vezes que entramos “numa fria” em conjunto e só isso já é motivo para lembrá-las.
A primeira ocorreu em Maio, na semana anterior ao Dia das Mães no Brasil. Fernanda chegou esbaforida ao apartamento da rua Vaugirard e, após ter subido os meus cinco andares sem elevador, disse:
- Pronto! Aqui estou. Quais são os planos tão secretos que você não quis falar por telefone?
A verdade é que não tínhamos um tostão para comprar os presentes para as nossas mães e, ainda por cima enviá-los ao Brasil pelo correio. Eu já estava devendo 30 francos ao Denys, os quais tinha gasto inteiramente com o “bife do mês” que fritei numa panela com uma lasca de manteiga, meia dúzia de gordurosas gulodices árabes de uma doceira perto do bulevar Saint Michel e dez bilhetes de metrô. A solução?
Printemps. A loja era deslumbrante. Ficamos vários minutos extasiando-nos com os produtos e a apresentação deles, antes de nos decidir. Experimentamos ainda alguns chapéus, rindo uma da outra, e já na papelaria, fomos à ação. Ela escolheu um calendário e eu uma pequena agenda que delicadamente deslizamos em nossas bolsas. Fomos andando em direção à porta, mal contendo as gargalhadas. Só quando já nos encontrávamos no bulevar Haussmann, é que explodimos. Não sei se porque achamos graça na aventura ou porque estávamos realmente nervosas com aquele primeiro roubo da vida. Mas a alegria não durou muito. Logo sentimos um apertão no braço:
- Favor entrar, mademoiselles! Vamos conversar com o gerente.
O segurança da loja nos acompanhou até o andar superior. Além de nos passar um sermão, o gerente ameaçou chamar a polícia que, segundo ele, mandaria-nos de volta ao Brasil se tal VERGONHA se repetisse. Ficamos ainda algum tempo de pé em frente da escrivaninha dele. Eu, que não me sentia humilhada pois acreditava na nobreza dos nossos propósitos, não dei a mínima para aquele discurso. Olhava Fernanda de esguelha. Ela, sim. Estava pálida como uma folha de papel. O homem propôs que pagássemos os produtos para podermos, enfim, sair da loja. Porém, quando viu que as nossas carteiras estavam vazias e soube o motivo do “crime” creio que ficou penalizado pois rapidamente mandou-nos embora junto com os “valiosos” objetos do nosso roubo. A mãe da Fernanda não sei, mas Gica guarda preciosamente esta pequena agenda florida até hoje. Penso que ela sabe o quanto a “compra” dela foi suada!
Quando a minha amiga e eu não estávamos às voltas com este tipo de experiência, livros, provas e aborrecimentos do cotidiano, freqüentávamos, junto com Jeanne, o Polly Magoo. Segundo o que escrevi no meu caderno sobre aquele lendário bar que ficava no número 11 da rua Saint Jacques, aonde ia Jim Morrison quando estava em Paris, “eram noites sem significado". Mas aqui entra um pequeno parêntese que, de modo inopinado, me vem ao espírito. Por ironia do destino e não porque eu considere este fato regozijador (muito ao contrário), mesmo morto, Jim Morrison continua a freqüentar o mesmo canto que eu! Ele no cemitério Père Lachaise e eu na Praça Gambetta, ambos no mesmo bairro e não muito longe um do outro. Que coisa estranha!
Até hoje, porém, não entendo porque um lugar “tão sem significado”, escuro e construído sobre porões como o Polly Magoo, nos atraía daquele modo. O fato é que naquelas noites, segundo os meus escritos, procurávamos outros sonhos iguais aos nossos. Escrevi: "Vamos ao Polly Magoo? As três reuniam os seus encantos e os seus charmes e com um suspiro de coragem enfrentavam uma sala vermelha decorada com cadeiras de metrô, fotografias de presos políticos ou bandidos perigosos. Todos estavam sempre nos mesmos lugares. Não existia separação entre aquela e a última vez”.
Foi aí que me enganei e entramos em mais uma fria. Diferente de todas as outras, a festa para a qual fomos convidadas depois daquela soirée Polly Magoo era, para nosso grande espanto, uma... orgia sexual! Uma verdadeira “partouze” sobre a qual também me arrependo de não ter conversado com Catherine Millet na ocasião em que ficamos amigas, 14 anos depois. Afinal, enquanto continuei no mesmo aperto, a famosa crítica de arte e escritora francesa discorreu bastante sobre o assunto – ela, sim, “de cátedra” – e ganhou uma fortuna com isso!

Como se passou a bacanal? Aguarde o próximo capítulo.
33

Antes de partir, Gica legara-me o seu pequeno revólver. Tratava-se de um engenho que estava na moda e podia ser encontrado com facilidade. Inofensivo e eficaz, o projétil dele - bem menos importante do que o que usavam os policiais franceses da CRS (Companhia republicana de Segurança) durante os motins de maio de 68 - resumia-se apenas numa minúscula cápsula de gás lacrimogêneo. Elegante como é, a minha mãe deixou-me também uma delicada bolsa acolchoada com floridos motivos Liberty onde eu deveria guardar a minha “arma”.
Considerei aquele gesto como um dos mais simbólicos que possa haver entre pais e filhos. Ele tomava inteiramente o lugar da frase: “Confio em você. Sei que poderá encontrar dificuldades, mas saberá defender-se sozinha”. Embora em sua juventude, naturalmente despreocupada, Gica não acreditasse que eu pudesse realmente correr grandes perigos, esta sentença tácita acompanhou-me pelo resto da vida, sobretudo em meus combates. E penso que deveria ser emprestada por cada genitor com tendência a enfraquecer a sua cria tentando protegê-la demasiado.
Não demorou para que eu mudasse a idéia de que aquele objeto constituía apenas um instrumento de precaução do qual eu certamente “jamais me serviria”. Poucos dias depois da bebedeira no acanhado Hotel du Parc Montsouris, onde o chuveiro ficava dentro de uma cozinha improvisada e a cama encostada numa parede cuja pintura descascava, tive a prova de que deveria carregá-lo na bolsa, onde quer que estivesse.
Eu seguia a pé no final da manhã, pelo bulevar Jourdan, margeando a cidade universitária com o intuito de ir a algum restaurante estudantil, quando um homem alto e escuro me abordou. Como não entendi o que ele falava com um forte sotaque, sorri, fiz um gesto de escusa e continuei andando. Ele insistiu, me seguiu, e desta vez já não sorri. Andei reto, decidida a escapar do assédio, apenas procurando com os olhos alguém para me ajudar. Foi quando começou a vociferar e então entendi o que dizia:
- Vocês brancas são todas iguais! Não fala comigo porque sou negro, não é? Putain! Salope! Você vai ver uma coisa!
Com estes insultos ele apressou o passo, parou diante de mim bloqueando-me a passagem e cuspiu no meu rosto com tal violência que fiquei paralisada sem compreender o que me acontecia. Em seguida partiu em disparada antes que eu procurasse o estojo acolchoado em minha bolsa. Em vez disso, tirei o lenço e apoiei-me num muro pensando que ia desmaiar. As lágrimas escorriam pela minha face quando atravessei a rua para procurar um banco no Parque Montsouris. Molhei o tecido de algodão na fonte, lavei-me e fiquei longo tempo pensando no passado e na incógnita que seria a minha vida em Paris.
O banco que eu havia escolhido ficava sob uma árvore de tronco retorcido cujos galhos tinham a forma de cobras. Enquanto olhava para a água do lago que arrepiava com o vento, tentava distrair-me pensando em mulheres corajosas que não arriariam com uma simples cusparada. Luz del Fuego, por exemplo...
Qual francês naquele parque, já que raros são os conhecedores de línguas estrangeiras, sentiria a ardência daquele nome? Ali, só eu conhecia Luz del Fuego! Quer dizer, nunca tínhamos sido apresentadas e ela certamente jamais soube quem eu era, mas parecia que eu convivera com a corista pois quando se vê uma pessoa várias vezes e, a maior parte delas, sem roupa, quase dá para considerá-la “amiga íntima”.
Terence devia ter apenas 3 anos e eu 6, quando a nossa mãe nos proibiu de ir fuçar a casa desta vizinha, que morava, como nós, perto da praça Morungaba. Não acredito que fosse por moralismo, porque Gica dizia sempre: “Cuidado com as cobras!”.
O fato é que a Luz del Fuego não morava sozinha. Ela vivia com pelo menos uma centena daqueles répteis que tinham a forma dos galhos desta árvore do Parque Montsouris. Isto, dentro da casa dela e no jardim. Porém, qual criança resiste a um espetáculo de circo gratuito para o qual só é preciso atravessar a rua? Entre o clube Pinheiros e a casa da Luz del Fuego, preferíamos de longe a segunda! E assim, sempre que a nossa mãe saía, íamos ver as cobras e a dona das cobras que não raro aparecia vestida apenas com duas ou três delas em volta do corpo. Onde ela surgia desse jeito? A casa que tinha escolhido possuía uma espécie de jardim de inverno com uma enorme e providencial vidraça que dava para a rua. Era naquele palco-vidraça que fazia as aparições.
Como pequenas multidões de adultos se juntavam para ver o show diário, tinha vezes que passávamos entre pernas para poder enxergar. E quando conseguíamos, que alegria! Só que até hoje não sei ao certo se esse júbilo se deveu à domadora de serpentes ou se foi porque estávamos desobedecendo às ordens e, de certa forma, vingando o nosso pai. Pois ele, sim, obedecia direitinho as recomendações para "tomar cuidado com as cobras”.

Já mais calma, foi pensando em Abe que dirigi-me ao restaurante da cidade universitária. “Se ele estivesse aqui, sem dúvida zombaria do meu revólver de gás lacrimogêneo. Sacaria a sua pistola de oficial americano e com o cabo daria uma boa pancada, de lição, no queixo do meu agressor!” Mas onde estava Abe, afinal? Se eu não tinha mais pai, se minha mãe e minha avó encontravam-se do outro lado do oceano, para quem iría me queixar? O que eu não sabia é que, naquela idade, a grande vantagem de não ter a quem lastimar-se era aprender a fazê-lo quase nunca ou, pelo menos, com bastante parcimônia, sobretudo na vida adulta. Sinal de independência e coisa de grande ajuda para manter as relações saudáveis e sem culpas.
- Feijão com arroz, por favor. Pedi ao moço do self-service.
- Sinto muito. Os dois juntos não pode. São acompanhamentos e a senhora só tem direito a um. Escolha um ou outro.
Não adiantou eu explicar que é assim que se come no Brasil e o quanto eu estava com vontade daquela “mistura”. Também de nada valeu a minha proposta de trocar o prato principal e o pão por outro acompanhamento. Embora eu ainda desconhecesse a palavra “psico-rígido”, sentei-me à mesa de fórmica calculando que em três meses de Paris eu já tinha encontrado mais pessoas inflexíveis do que em vinte anos de São Paulo! Com quanto amargor comi aquele feijão descasalado... tanto quanto eu, ex-noiva do Jonas, ex-futura mãe, auto-expatriada, cuspida, sozinha em Paris!
No entanto, em vez de passar pela loja Nicolas e novamente afogar as minhas mágoas na garrafa de plástico de vinho barato, comprei um caderno, voltei ao quarto de hotel e escrevi o segundo ou terceiro conto da minha vida. O último, com o título “Rosa de enxerto”, fora uma história dramática que começava com um cachorro mutilado por uma grã-fina que julgava as orelhas e o rabo dele proeminentes demais e terminava com um suicídio a gás de cozinha. Este que resolvi inventar não teria nome, o personagem principal seria o Jonas, de quem eu trocaria o nome, é claro, e começaria assim:
“Roberto (Jonas) viveu uma estranha história em sua vida mas nunca percebeu. Só eu, que o acompanhei desde criança, posso contá-la. Quando nasceu em Budapeste, foi inteiramente vestido de verde e deram-lhe bananas para que funcionassem os seus intestinos. A mãe tinha as faces coradas, brilhantes, e o corpo gordo e satisfeito do filho que dera à luz. Seu pai trabalhava o dia inteiro e todas as noite abria uma garrafa de vinho Tokay em sua homenagem. O plano era ajuntar dinheiro para irem ao Brasil de navio. Tinha ouvido dizer que lá em São Paulo diamantes nasciam nas calçadas e telhados. Como era perito em lapidação, faria uma fortuna!
Anos depois, conseguiram comprar a passagem. Porque os bilhetes eram de primeira classe, vieram sentados sobre corpos. E as refeições, eles as comiam sobre costas humanas que lhes serviam de mesas. Muito desagradável, pois as pessoas se mexiam e os pratos caiam de vez em quando. Ao chegarem, subiram no Terraço Itália e ficaram deslumbrados. Com Roberto no colo, sempre vestido de verde, encontraram um palacete para morar. Foi aí que a verdadeira educação do menino começou. Seria um príncipe! Aprendeu que não podia cuspir na rua, por o dedo no nariz, praguejar contra os americanos (“eles sempre ajudam contra o comunismo”) ou fazer masturbação. Quando completou 13 anos, o pai levou-o a um cirurgião plástico para que o rosto do filho fosse idêntico ao seu. O rapaz nunca ousou rebelar-se. Ao contrário, sentia-se feliz.
Quando iniciou a ouvir os noticiários na Rádio Bandeirantes seu pai mandou fazer tubinhos especiais de borracha para enfiar em seus ouvidos. Televisão Roberto podia ver, desde que colocasse os óculos exclusivos que recebera. Assim, estava autorizado igualmente a ler os jornais e ir ao cinema. Verdade que não tinha muita escolha, pois os únicos permitidos eram o jornal O Estado de S. Paulo e os filmes de caubói e musicais.
Sempre vestido de verde, ele freqüentou a escola, depois a faculdade. Casou-se com uma perfeita reprodutora de pequenos seres vestidos de verde. Fizeram um exército de crianças, quase 3 mil. Todas educadas segundo as "leis do emigrante húngaro". Em São Paulo havia muitos empecilhos para a proliferação desta casta. Roberto fundou, então, uma organização nacional e internacional de emigrantes húngaros. Encontrou forte resistência nos países da Europa oriental (mesmo a Hungria) e também na China e em Cuba. Viu que a única solução seria a força para poder impor a nova ideologia. Distribuiu armas compradas com o dinheiro da exploração do proletariado... e a guerra começou.
No Brasil, conseguiu substituir os militares por aquele exército nacional e internacional que visava unicamente a exploração de diamantes e do povo. Pouco a pouco, todos os países da América Latina foram sendo atingidos. E quando quase todo o ocidente, inclusive os Estados Unidos, Africa e Europa caíram subjugados pela dominação dos vestidos de verde, os países comunistas resolveram se manifestar contra tal epidemia reacionária e exploratória. Mas estavam diante de uma força equivalente à sua: os emigrantes húngaros aliados aos nativos capitalistas de cada país!
O extraordinário da história de Roberto foi como o pequeno budapestense, que comia bananas para os intestinos funcionarem, transformou-se em líder e responsável pelo desencadeamento da terceira guerra mundial. Estou na única cidade do mundo que sobreviveu à esta guerra: Paris. E é de Paris, desta mistura de verdes, azuis, vermelhos e roxos que vai sair a reconstrução da humanidade. Devo descrever este fenômeno: “O Renascimento do ano 2000!” FIM. Próximo conto: “O Renascimento”.”
Fechei o caderno, entrei no "pote de iugurte" e fui me inscrever nos cursos da faculdade. Mesmo sabendo que aquele meu "conto" era uma porcaria e que nem eu mesma compreendia muito os jargões que repetia, bradara a minha revolta aos ventos! Estava bem aliviada. E, apesar de tudo, confiante que, em pouco tempo, talvez fizesse novos amigos, vivesse novas aventuras! Contente que Terence viria estudar teatro em Londres. Não só poderíamos, talvez, falar ao telefone, como atravessaríamos o Canal da Mancha em rodízio – nem que fosse de carona – para, enfim, nos encontrar!
32

O noivo “certo” não podia ter sido mais errado. O retrato de Flávio de Carvalho acabou voltando para o meu quarto, assim como o solitário de diamante retornou ao bolso dele. O resto dos presentes eu conservei, tanto quanto a lembrança das corbelhas que decoraram a passagem externa, o terraço e os salões em festa da rua Guadelupe. O que aconteceu foi prova de que já estava longe o tempo em que eu adorava ficar doente para não ir à escola e, com a cumplicidade de Terence, colocava o termômetro na lâmpada acesa para enganar Gica (quantos termômetros nós estouramos com aquele método!). Pois a novela da Rádio Nacional que eu me comprazia em ouvir debaixo do cobertor enquanto tomava chá com biscoito Maizena, repetia-se na minha própria vida e desta vez comigo mesma enquanto real protagonista. Exceto talvez os trovões e as tempestades, na minha novela particular não faltava nem a sonoplastia.
Jonas tinha tudo de um príncipe... infante. Embora homem feito, maduro ele não era. Já que estávamos noivos, nem prestei atenção a este pormenor quando engravidei. Ficamos felizes e consideramos tudo natural até o momento em que o pai dele apareceu na casa de Felícia para conversar com Gica, que naquelas alturas havia trocado Nova York por Paris e estava de visita em São Paulo. Ele não quis sentar e foi cortante:
- Como é possível que uma moça de boa família fique grávida antes do casamento?
- O que é que tem? Respondeu minha mãe. Se eles se amam...
- A sua filha vai estragar os planos que eu fiz para o Jonas. Ele tem um futuro brilhante e ainda não pode ser pai.
- Mas ele quer ser pai, disse Gica enquanto eu, atentamente no alto da escada, ouvia a discussão.
Felícia se interpôs:
- Vamos ao ponto. O que o senhor está sugerindo?
Pelo que ocorreu em seguida, imagino qual foi a resposta dele. Vi a calvície do meu futuro sogro se refletir no espelho enquanto ele passava pelo hall perseguido pela minha mãe. Ela gritava:
- Ponha-se daqui para fora e não volte nunca mais! Como é que ousa vir à nossa casa para nos dizer o que minha filha deve fazer! Quem o senhor pensa que é para sugerir um absurdo desses!
Temi pelo vidros da porta de ferro. Só nos efeitos acústicos da Rádio Nacional eu ouvira portas batidas com tanta fúria. Enquanto Gica provavelmente pensava no médico religioso de Bogotá - que, junto com ela, salvou a minha vida quando meu pai tentou convencê-la a se livrar do bebê - do meu lado eu decidia que, caso Jonas mudasse de idéia por medo daquele meu “sogro”, o noivado estaria terminado e certamente faria um aborto pois agora quem teria planos para o futuro seria eu. Foi o que aconteceu, embora ele continuasse a insistir desesperadamente para que nos casássemos.
Se os cruzamentos de certos fios de vida fazem algum sentido, a morte trágica da irmã de Jonas, uma de minhas melhores amigas, poucos anos depois, ao menos serviu para alguma coisa. Paulete que, como já contei, eu adorava pela vivacidade, elegância e personalidade, desapareceu com o seu marido num desastre de automóvel deixando filhos pequenos, como para dizer ao pai que ninguém pode se arrogar a onipotência divina. Ele, que havia planejado tão rígida e arrogantemente a vida do filho a ponto de rejeitar um futuro neto, por ironia do destino fora obrigado a curvar-se justamente à dor do mais funesto imprevisto!
Sem bebê e sem casamento, portanto, sofri a minha primeira e terrível decepção amorosa e humana. Fiquei muitos meses perambulando em meio a uma dor difusa como se, à minha revelia, tivessem finalmente me empurrado ao remoinho da vida adulta. Gica tentava me distrair enquanto estava na cidade, levando-me às reuniões na casa de Marina e Cláudio Barbosa, antes que eles se mudassem definitivamente para o Rio de Janeiro. Marina, uma das moças mais lindas que tinha visto, era uma espécie de inseparável irmã caçula de Gica. Pela idade, ficava entre eu e minha mãe, sendo que nós três mantínhamos grande cumplicidade como se a nossa diferença etária não existisse.
Cláudio, seu marido e pai de três dos seus quatro filhos, era teatrólogo e naquele momento começava a ganhar a vida escrevendo novelas para a televisão. Era um homem atraente apesar – ou talvez por causa – do defeito físico que o obrigava a andar de muletas. Quiçá fosse desde o dia em que perdeu a perna num acidente que de seu humor e inteligência saía um esgar. Bastava alongar-se no sofá empunhando um copo de uísque para que o escárnio viesse à tona. Porém, eu gostava imensamente de Cláudio porque, além de ser atento e brilhante observador, detrás de uma certa e cerebral perversidade, eu percebia também um lado desolado e frágil, digno de compaixão.
Na casa deles, próxima ao Ibirapuera, sempre cheia de artistas de teatro e televisão, os risos e alegria soavam-me como se estivessem contidos numa redoma de plástico. Surdos e impermeáveis ao usufruto. Vendo-me assim, a dupla Gica-Marina se esforçava. Sheila, você está linda! Sheila, venha aqui que queremos te apresentar... Sheila, que sorte que você escapou daquele burguês!!! Você tem a vida pela frente!
A vida, eu só via a dos outros. Ficava num canto como um animal selvagem e espreitava. Da mesma maneira como fazia nas classes de primeiro ano das três faculdades às quais me havia inscrito depois de ter sido admitida entre os primeiros colocados: Comunicações, Ciências Sociais e Advocacia. Comparando a vida social e os estudos, para mim, não havia grande diferença. Ambos eram penosos e, pela igual falta de compensação intelectual, provocavam a mesma pergunta: “O que estou fazendo aqui?” Eu teria preferido escolher amigos e eventualmente professores que me fossem condizentes mas, sobretudo, adquirir sozinha aqueles conhecimentos. Deve ter sido por esta razão que, mais tarde, dei outro sentido à vida mundana, enveredei o autodidatismo, escolhi meus próprios mestres e deixei algumas sábias pessoas orientarem o meu trabalho.
Mas foi na casa de Marina e Cláudio que conheci Totó, o célebre ator Luís Cristóvão, personagem principal de um grande sucesso do momento: a novela “Joca Gates” de Cláudio Barbosa que, todas as noites, alcançava os mais altos picos nas pesquisas do Ibope! Verdade que o Cláudio tinha colocado quase toda a minha família, e eu mesma, como personagens de “Joca Gates”. Até a minha estória com Jonas estava lá! Mas eu que já não sorria, comia cada vez menos e não bebia uma gota de vinho, bem que estava precisando de tal aventura. E que aventura! Acompanhei o Totó em todas as turnês que ele fez pelo interior de São Paulo como se fosse protagonista desta vez, não de uma novela de rádio ou televisão, mas de um road-movie caipira! Até as fãs de Presidente Prudente queriam me arrancar os olhos.
A estória com Totó terminou quando tranquei todas as matrículas nas universidades e resolvi visitar minha mãe em Paris. No início ele enviou várias cartas quadriculadas e perfumadas com vetiver, que eu lia com deleite no terraço coberto e abafado da casa na rue du Parc Montsouris. Como eu não respondia, não voltava e ele tinha que continuar se apresentando nos estúdios de televisão como o eterno Joca Gates, por final as mensagens pararam. Para mim, tanto fazia. Os meus únicos interesses naquele momento eram aperfeiçoar o francês, passear com Gica e descobrir Paris.
Com ela conheci alguns de meus futuros amigos, vi o Concorde sobrevoar a Champs Elysées, visitei uma extraordinária exposição de flores. Fiquei sabendo que a casa vizinha tinha pertencido a Georges Braque, que as pombas daquela rua tinham sido modelo para as formas cubistas que estavam nos quadros dele, que o “Mercado das Pulgas” não era de pulgas. Com Gica e a pequena Fiat dela, percorri a cidade inteira, visitei exposições, olhei vitrinas, comprei lenços indianos, boina branca e boá de plumas cor-de-rosa, comi fígado de vitela com uva passa olhando o Louvre pela janela de um restaurante do quai Voltaire e sentei no Café de Flore! Isto, e não sei a razão, junto com um conhecido diretor do “cinema novo”, um famoso correspondente de jornal paulista e... Buñuel!
Luís Buñuel tomou café, falou de cinema, olhou-nos daquele modo atravessado, o olho direito semicerrado, e a sua expressão de cansaço marcou-me tanto quanto os duros vincos do seu rosto. Ele discorria entortando um pouco a boca e notei que os dois dentes da frente tinham uma pequena separação. O fato de analisá-lo assim impediu-me de prestar atenção ao que ele falava. Naquela época eu era obrigada a dar prioridade a apenas um método de observação pois ainda não tinha condições de “ver bem” e “ouvir bem” ao mesmo tempo. Aí está um homem que viu demais! Pensei. E, como eu o examinava a partir da minha experiência, acreditava que era por isso que Buñuel também parecia não “ouvir bem” o que os outros diziam. Pergunto-me se estava sendo injusta quando o cineasta se levantou para ir embora e imaginei que, bem mais do que outras celebridades, ele devia ser blasé ou simplesmente indiferente a tudo que, em minha inocência, eu ainda julgava uma "maravilha da vida".

Quando Gica decidiu ir embora de vez, acabei por ficar. Apenas dois meses depois da minha chegada, ela devolveu a casa alugada ao proprietário e me colocou num pequeno hotel alí mesmo, perto da Cidade Universitária. Deste modo, segundo ela, “eu teria algum tempo para achar um quarto de estudante ou um estúdio para alugar”. Deixou-me umas louças, panelas, o carrinho que as pessoas chamavam de “pote de iogurte” e se foi.
Era julho de 1969. Lembro-me até hoje quando eu, com a minha recém-tirada carta brasileira de habilitação, voltava do aeroporto de Orly aonde a tinha levado assim como todas as malas dela. Quase não conseguia enxergar o caminho de tanto que as lágrimas corriam pelo meu rosto. Estava sozinha no mundo pela primeira vez. Lembro também que passei na loja Nicolas e comprei uma enorme garrafa de plástico de vinho ordinário, antes de ir para o meu quarto de hotel. Foi o primeiro e último verdadeiro porre que tomei em minha vida. Acho que nunca me senti tão mal! Hoje, os jovens não querem mais sair da casa dos pais. Para Terence, que veio em seguida estudar em Londres e para mim, isso era uma questão de “honra”. Por isso ficamos independentes tão cedo. Depois do choque inicial do contato com a independência e a solidão, vieram as inevitáveis descobertas e desapontamentos nas relações humanas. Mas tudo correu bem, apesar do curto e malogrado namoro com o suicídio, como contarei mais adiante.
Ainda tentava me adaptar à nova situação, quando soube que a minha mãe esquecera de pagar a conta do telefone. O pouco dinheiro que eu recebia e depois também ganhava arrumando o consultório de um médico, não dava para cobrir os telefonemas todos que ela tinha feito ao Brasil. E o proprietário não era qualquer um. Tratava-se do irmão de Bóris Vian, o poeta. Por sorte, Gica encontrou uma maneira de me mandar a soma e lá fui eu com o envelope à casa de M. Vian que, pelo visto, também devia ser escritor.
Era 20 de julho, à tarde. Mal imaginava eu em que dia estávamos! Toquei a campainha e M. Vian respondeu mau-humorado: “Agora não posso, volte mais tarde”. Ao ver a minha decepção deve ter ficado penalizado pois mudou de idéia: “Bem, pode entrar. Mas aguarde um pouco, pois estamos muito ocupados”. Do hall eu via a televisão ligada e o sofá onde ele e a mulher sentavam-se. Penso que se sentiram constrangidos em me deixar ali plantada pois logo foram me convidando para sentar também. As imagens eram impressionantes e me deixaram muito emocionada. Foi assim, num gasto sofá de veludo vermelho, entre Monsieur e Madame Vian, com o envelope do pagamento da conta do telefone no colo, que eu vi - "maravilha da vida"! - Neil Armstrong, Michael Collins e Buzz Aldrin pisarem na Lua pela primeira vez.
Mas foi também naquele exato instante, do outro lado do oceano, que Gica, Felícia e a caseira Madalena arregalaram os olhos diante da televisão na biblioteca da “Casa do Telhado Verde”, em Campos do Jordão. Madalena fez menção de sair, dizendo que aquilo era invenção.
- Venha aqui, Madalena! Chamou a minha mãe. É verdade, sim. Olha aqui eles pisando na Lua! Estão até espetando a bandeira dos Estados Unidos! Está vendo?
- Tudo “mixugui”*... Claro que estou vendo! Vejo, mas não acredito.
Hoje indago-me: que personagem faria Buñuel de Madalena? Pena que não tive a idéia de perguntar isso ao seu roteirista Jean-Claude Carrière, com quem bastante conversei 26 anos depois.
* “Meshuge” ou “Meshugener” em iídiche: lunático.
31
Embora carregados de acontecimentos externos a mim, os quatro anos seguintes a esta minha primeira viagem ao estrangeiro pareciam escoar-se de uma maneira linear. E por pouco tão congelada quanto o pôster dos Beatles que fora colado à parede em cima do criado-mudo. Exceto um e outro episódio romântico ou político, as saudades recorrentes de minha mãe e meu irmão - e as vindas periódicas deles - a vida na rua Guadelupe transcorria sem grandes percalços. Docemente eu iniciava a minha luta para me fazer respeitar como "indivíduo", sem que a imagem da minha pessoa enquanto jarrão de porcelana chinesa pudesse interferir em demasia. Nada mais restava daquela época da adolescência, por exemplo, em que eu era obrigada a freqüentar, quase todas as noites, a luxuosa casa do meu tio Mehlson, no bairro do Pacaembu, para estudar matemática. Sim, porque aquilo me traumatizou!
Ao passo que minhas pequenas primas dormiam e os adultos divertiam-se no salão de piso de mármore preto e branco quadriculado - encimado por lustre e móveis em puro e vermeeriano estilo flamengo - eu ficava confinada no quarto dos fundos diante de problemas que julgava insolúveis, para os quais o meu tio artista, com a barba cheirando a tabaco e tinta, vinha de tempo em tempo me mostrar que havia uma solução. Eu me perguntava porque Mehlson era tão bom nas relações lógicas e abstratas da matemática e tão quimérico e extravagante com a arte dele. Porque não ficou engenheiro e empresário como o meu avô preferira? Porque, fora da sinagoga, ele nunca mais usara terno e gravata? Quando meu tio se afastava, eu me atirava, invariavelmente, na caixa de chocolates que a bela eslava Kuka, artista de teatro e primeira esposa dele – de quem fui dama de honra no casamento – esquecia sobre a cômoda. Isto, quando eu não atravessava a porta que dava para o jardim para ir brincar um pouco com os gatos dela.
Enquanto desenhava os números e sentia a madeira facetada do lápis maltratar meus dedos, eu ouvia a música, os risos e conversas daqueles atores, pintores e boêmios de toda ordem, lembrando do sonhado dia em que me levaram à loja Célia na rua Augusta para comprar o vestido de fustão branco bordado, com uma fita de veludo azul na cintura que terminava em laço detrás. Dama de honra! Aos 6 anos, como ninguém havia me explicado, não conseguira pegar no sono de tanto pensar no buquê de flores que chegaria da floricultura pela manhã e que, na minha imaginação, eu deveria, ao invés de segurar com simplicidade, "empunhar" publicamente atravessando a sinagoga inteira enquanto todos exclamassem: “Olha a Sheilinha! Que coisa linda o buquê da dama-de-honra do casamento!”
Talvez porque ele não gostasse de gatos e Kuka não apreciasse a vida boêmia, as lembranças tanto da cerimônia na sinagoga Beth-El - com o pequeno Terence de pajem e eu de dama de honor - quanto daquela festa com os lampiões coloridos e as mesas cobertas de flores e toalhas engomadas na rua Guadelupe, duraram (já que aprendi com ele a fazer cálculos matemáticos) cinco vezes mais do que o casamento do meu tio Mehlson.
Calculo também que nos quatro anos que se sucederam à minha volta dos Estados Unidos, subi e desci a rua Augusta cerca de 150 vezes, lamentei o golpe de 64 durante 1460 dias, viajei para Campos do Jordão e Guarujá em pelo menos 16 ocasiões, ouvi perto de 500 vezes I Want to Hold your Hand, mudei uma vez do Colégio Rio Branco para o Brasil-Europa, ganhei um Fusca cor de chocolate de Felícia, vi uma vez pela televisão os americanos marchando no espaço e os soldados brasileiros participando da tomada do palácio do governo na República Dominicana onde eu havia estado durante a pane do avião; protestei muitas vezes na escola quando a PM invadiu a Crusp e os americanos atacaram Hanói; no Brasil-Europa escrevi um primeiro trabalho político sobre a Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung; testemunhei inúmeras atividades clandestinas da minha querida Marion Sabsay e seus irmãos; vi Amélia derramar algumas lágrimas quando ela soube que Elvis Presley se casara e a minha avó reclamar repetidamente contra os médicos franceses que tinham “matado o pintor Antônio Bandeira”; pedi umas dez vezes para a Marion não ir ao congresso da UNE em Ibiúna; outras dez para ela não participar da reunião de medidas drásticas contra o CCC (Comando de Caça aos Comunistas) que havia espancado o elenco da peça Roda Viva; pela televisão assisti a vários Festivais Internacionais da Canção onde vislumbrei Geraldo Vandré quem, mais tarde, eu encontraria em Paris; passei 50 noites de segunda-feira indo aos festivais de música brasileira no teatro Paramount, em cuja platéia cantei São São Paulo, Meu Amor junto com Tom Zé, vi Edu Lobo cantando Ponteio, Sérgio Ricardo quebrando e atirando o violão no público e muito, muito mais!
E só depois de decidir que não namoraria intelectuais, grã-finos e estudantes reacionários do Mackenzie que brigavam com os vizinhos da filosofia da Usp, escolhi um noivo "certo". Foi para o meu presente de noivado que Gica teve a idéia de encomendar o meu retrato.
Retrato de Sheila Leirner
Flávio de Carvalho, 1968
Quando Flávio de Carvalho desenhou-me, em 1968, eu nem sonhava que um dia poderia escrever sobre a sua arte. Ela ainda era, para mim, um mistério insondável que nenhum esforço de minha parte teria a virtude e sequer o direito de questionar, quanto mais trazê-la ao universo das palavras! Além disso, eu tinha apenas uma vaga idéia de sua multiplicidade criativa e da excentricidade genial de caráter, que o levaram a ser, segundo a definição de Sérgio Milliet aquele prolífero "intelectual do Renascimento". Um artista que parecia dispersar-se, mas aglutinava grande força na totalidade de sua obra fragmentária.
Portanto, naquela época, na minha visão, todo esse empenho visionário, essa convicção tão gratuita, obsessiva e mística daquele que foi um personagem mítico, uma espécie de "Fitzcarraldo das artes", desembocava sobretudo no desenho e na pintura. E talvez eu não estivesse assim tão longe da verdade. Mas o fato é que os seus trabalhos faziam parte de um repertório de objetos e imagens que estavam tão incorporados ao meu cotidiano quanto qualquer parte da natureza ou das conquistas modernas que geralmente não nos detemos para analisar. Logo, também eram aceitos, naturais e, simultaneamente, misteriosos.
No entanto, Flávio deve ter intuído o que eu haveria de iniciar cinco anos depois e, que, como todos os objetivos e ambições, também foi fruto de um estado subjetivo, uma vontade profunda de conhecer esses caminhos. Afinal, "a penetração no estado psíquico dos modelos que retratou", como escreveu um famoso historiador, "foi uma das preocupações fundamentais do artista". O que ele realmente queria - pude perceber isso com clareza - era dissecar sua personagem, fazendo-o, mesmo em silêncio, de maneira quase telepática.
É verdade que o artista não foi fiel àquela realidade externa e superficial que, antes de tudo, invariavelmente nos apresenta como máscaras. E isso nunca é muito lisonjeiro para uma mulher... Não que eu me sentisse assustada, como Mário de Andrade que, "quando defrontava o retrato feito pelo Flávio, via nele o lado tenebroso de sua pessoa, o lado que escondia dos outros". Mas esse retrato sempre foi para mim uma espécie de espelho como o de Lewis Carrol, com o qual continuo a dialogar.
Todavia, o artista articulava e construía seu traço de modo não apenas a transcender a aparência "convencional e decente" dos retratados, aquela que segundo Mário de Andrade "se apresenta em público". Ele o fazia de modo a realizar também uma composição plástica que lhe aprouvesse em equilíbrio e expressão. Apesar do traço rápido e do aparente desprendimento, buscava com meticulosidade cada pormenor que pudesse transportar para o papel e que finalmente servisse como amálgama do trabalho e do retratado, tomando-os uma coisa só.
Assim, Flávio intuiu-me. Fui retratada de maneira premonitória, e no fundo benevolente, pois o artista quis dotar-me apenas de olhos e mãos, os instrumentos vitais do trabalho crítico. Como se essa ênfase expressionista não bastasse, no desenho do dedo indicador de minha mão, excessivamente alongada, ele fez sair uma letra A maiúscula. Exatamente como sempre se deve iniciar a escrever a palavra Arte, quando ela se abre à nossa compreensão.
Mas os sinais não param aí. Do lado oposto a essa letra – também simbolicamente, a primeira do nosso vocabulário - há um A invertido. Certamente desejoso de equilíbrio, Flávio desenhou um contraponto que pode muito bem representar a ponta aguçada de um lápis.
Tudo isso e poucas palavras foram trocadas! No clima denso, obscuro, impregnado de ozônio, do ateliê da Avenida Ipiranga, eu posava inocente, sem imaginar o drama que iría se abater logo depois sobre a minha vida. E naquele inesquecível cenário futurista, a irreverência dele desaparecia em reclusão. Ali, Flávio entregava-se inteiramente ao circunspecto ritual criativo. Sóbria como seu próprio semblante, a nossa amizade limitava-se a uma troca desigual, na qual eu só tinha a oferecer o meu silêncio e admiração.
30
Abe e Gica, nos anos 50.
O apartamento de Gica em Nova York tinha um cheiro delicioso de roupa nova que eu associaria para sempre àquela cidade. Desde que a minha avó me fizera obedecer à regra de “sentar dois minutos calmamente, antes de sair de casa, para pensar se não esqueci de botar alguma coisa na mala” tinham se passado mais de 24 horas e eu mal podia acreditar que estava lá! Já no trajeto do aeroporto eu “observava os Estados Unidos” com os olhos arregalados enquanto contava à minha mãe como fomos parar na República Dominicana por causa daquela pane no avião. Ela não escondia o desespero que foi permanecer todo aquele tempo sem saber onde eu me encontrava e ainda enxugava as lágrimas quando atravessamos a 5ª avenida para entrar na rua 51, entre a Lexington e a 3ª, onde ficava o seu prédio.
No instante em que estacionou o Fusca, olhei para cima e vi Terence acenando da janela. “Faz horas que ele não sai de lá, disse Gica”. A alegria de rever o meu irmão era maior do que a de viajar a um país estrangeiro pela primeira vez. Ele veio correndo ao nosso encontro e, à medida que eu desfazia a mala e ia pendurando as roupas no armário aquecido e atapetado do corredor, ele – que normalmente propendia a ser taciturno e introvertido - falava sem parar. Embora a sua experiência se resumisse à Milford e mais precisamente à escola onde estava internado, Terence mostrava-se excitado com a idéia de me dar a conhecer a cidade e os hábitos daquele país que ele parecia entender melhor ainda do que a nossa mãe. Naquele momento exato começou a nevar. Creio que o arrebatamento que me causou a visão dos arranha-céus sob a neve, junto com o meu irmão, naquela mesma janela onde me esperou, só se compara aos doces momentos da infância que passamos lendo e conversando, em nossas redes, debaixo das árvores do sítio de Interlagos perto do Golfe Clube.
Nova York tinha sobre mim o mesmo efeito da bola de cristal com a qual Mané Katz fizera o meu retrato. Pura felicidade e exaltação! Mescla de inquestionável fascínio com apreensão, uma espécie de desejo abstrato e impaciente que eu não conseguia discernir e que me causava até mesmo desconforto. Eu seria capaz de mergulhar e divagar infinitamente naquela paisagem urbana de sonho à procura das estórias que imaginava existir dentro de cada janela que para mim nada mais era do que uma bolha de luz! Não fazia idéia do pesadelo em que a cidade se transformaria trinta anos depois, quando fui obrigada a viver algumas semanas confinada na bolha obscura da doença, medo e desamparo, onde os mesmos arranha-céus tornaram-se obstáculos, os sons ficaram assustadores e as distâncias infindáveis.
- Você quer descer para ver a neve e conhecer a cidade? Perguntou Terence.
Até hoje guardo os cartões Hallmark que compramos no caminho para a 5ª avenida onde ele fazia questão de me apresentar a Catedral de Saint Patrick. Conservo também a lembrança dos primeiros passos na neve, sensações, cheiros, e do primeiro contato com o inverno do que considerava ainda, “primeiro mundo” no qual eu podia usar, sem ser notada, o meu casaco bege de castor. Num dos cartões está um sapatinho de cristal, salpicado de purpurina, de onde sai o focinho de um gato que diz: “I can feel your shoes”. Esta foi a frase fetiche da minha estada em Nova York. Dai em diante repeti-a sempre que pude, da mesma maneira como Gica proferia a sua eterna “Never put bananas in the refrigerator”, expressão “mágica” aprendida quando veio a Nova York pela primeira vez. Ainda bem que esse tipo de mote não define a personalidade das pessoas. Caso contrário, eu não saberia o que dizer de minha mãe...
Naturalmente, as nossas aventuras turísticas não escaparam à regra: museus, biblioteca, Empire State, Cloisters, Central Park, hambúrgueres, TV diners, Times Square no primeiro dia do ano, coffee shops, pancakes, patinação no Rockefeller Center, musical na Broadway, Metropolitan Opera House, grandes lojas de departamentos, Hallmark na 5ª avenida, etc, etc. Mas algumas coisas me marcaram especialmente talvez porque não fossem turísticas.
Acompanhar a minha mãe a H.L. Purdy, onde ela mandava fazer os seus óculos, por exemplo. Foi lá que descobri como o formato dos aros era capaz de modificar um rosto e porque os Ray-Ban iam tão bem ao meu pai, como naquela foto dos anos 50 onde ele estava com a minha mãe num Buick conversível. Tentei imaginar a forma diabólica dos óculos de Lyndon B. Johnson que esquentava de vez a guerra fria do Vietnã, iniciada nos anos 50. Eu que adorava Kennedy, como é que podia suportar o nariz de batata belicosa daquele L.B.Johnson que o substituía depois do horrível assassinato enquanto eu estava no cabeleireiro Chez Moi? E enquanto Gica experimentava as armações de tartaruga, eu lembrava da foto de Jean-Paul Sartre no jornal poucos meses antes, quando ele ganhara o prêmio Nobel. “Deviam inventar óculos especiais para vesgos...”, pensei.
O restaurante King of the Sea também me marcou. Não tanto por causa do avental que os garçons enfiavam nos clientes e dos enormes e vermelhos caranguejos e lagostas que serviam, mas pelo que aconteceu naquela noite. Gica nos contava como costumava desmaiar na rua, explicando o que era a hipoglicemia descoberta pelo médico americano, coisa da qual só se sarava comendo proteína. “Jamais doces”, dizia ela, quando ouvimos um burburinho. Era Ravelstein, o próprio Herszek Ravelstein em pessoa, um dos maiores violinistas do século que atravessava o salão com a mulher dele, Bela Ravelstein, dirigindo-se à mesa... vizinha à nossa!
Foi a primeira e última vez que acompanhei com os olhos cada bocadinho de comida que uma pessoa levava à boca. Não era para menos. Jamais tal celebridade havia comido a dois passos do meu garfo. Mas, por ironia do destino, vinte anos depois, quando a já viúva Bela esteve no Brasil, fui membro instituidor da Fundação Ravelstein sendo que na festa oferecida pelo seu presidente, Felícia e ela tornaram-se grandes amigas, corresponderam-se e minha avó chegou a freqüentar o seu famoso salão mundano da avenida Foch em Paris, onde iam, entre outros, Marcel Pagnol, o barão Guy de Rothschild, Chagall, Picasso, Poulenc e Jean-Louis Barrault. E, 30 anos depois de eu ter fixado o músico comendo lagosta com aquele rosto de anjo velhinho e guloso, tive a infelicidade de ouvir a sua filha Neva, pintora abstracionista que empregava apenas o preto e o branco, importunar o meu terceiro marido que – frustrada por não tê-lo conseguido como amante - ela tomou enquanto confidente para contar como sofrera os assédios do pai incestuoso.
New York World's Fair 1964/1965 - Photo © By Max Mordecai
Eu tinha 16 anos, portanto, quando comprei o pôster dos Beatles na sétima avenida, com o qual decorei o meu quarto na rua Guadelupe; fui a um bar chamado “Serendipity” entre Greenwich Village e Gramercy Park, na época em que Internet ainda não existia e achava-se o inesperado, procurando-se por outra coisa completamente diferente, na vida mesmo; passeei de carro esporte na ponte de Brooklin com um gordinho, filho de uma amiga de minha mãe, sem conseguir trocar mais do que seis palavras, isto enquanto Terence se aborrecia de pensar que eu tivesse encontrado um namorado; e compareci ao jazz do Village Gate desconhecendo que ouvia John Coltrane. Portanto, nada – nem a New York World's Fair 1964/1965 com o seu (para mim “fantástico”) símbolo da Unisfera - comparou-se à visita que fiz à primeira e grande exposição da Arte Pop no MoMA.
Antes de eu chegar em Nova York, o governador Nelson Rockfeller e o “curador” da exposição universal Robert Moses tinham censurado o famoso “Most Wanted Men”, mural de Andy Warhol onde ele retratava 13 fugitivos procurados pela FBI. A obra estava instalada justamente na fachada do pavilhão de Nova York projetado pelo famoso arquiteto Philip Johnson, junto com outras de Roy Lichtenstein et Robert Indiana, o que exprimia a nova tendência Pop e uma certa impertinência da arte americana daquele tempo. Rockefeller, que certamente não entendia coisa alguma de arte, deu 24 horas para Wharol retirar o trabalho pretextando que os tais criminosos já não estavam mais sendo procurados pela polícia e que portanto não havia razão para exibir os seus retratos. Como se vê, os Estados Unidos também são um país de piada pronta! Warhol deve ter compreendido isto, pois propôs a substituição dos delinqüentes pela imagem de Robert Moses. Enfim, como ninguém ficou de acordo com aquela proposta subversiva, quando cheguei, lá estava a solução que o artista tinha encontrado para denunciar a censura: uma pintura monocromática de alumínio com a qual cobriu os retratos dos 13 bandidos.
Assim, com a minha pouca idade, testemunhei, ou captei sem saber precisamente, certas revelações do contexto artístico da época, como a emergência daquele ismo numa conjuntura marcada pela herança do expressionismo abstrato, a emancipação de uma imagética associada à cultura do consumo, o questionar do lirismo da pintura monocromática, a reabilitação do Dada e do modelo duchampiano e, do ponto de vista específico de Warhol, o recurso às técnicas de reprodução mecânica, reciclagem de imagens fotográficas, a predileção pelas iconografias funestas e... o glamour!
Verdade que não senti qualquer emoção quando vi Rauschenberg, Oldenburg, Jim Dine, Rosenquist, Wesselmann, Lichtenstein, Indiana, Jasper Johns e outros ainda naquela exposição do Moma. Mas a achei interessantíssima! Apenas chorei quando, na visita à coleção do museu, deparei com “O Cigano Adormecido” de Henri Rousseau – o Douanier, artista primitivo que me emociona até hoje e cuja tela eu conhecia apenas em reprodução de livros. Penso que foi como encontrar pessoalmente um velho e virtual amigo.
Terence espiava tudo, mas permanecia impassível. Devia estar se perguntando porque as mulheres choram tanto, pois Gica também teve o seu acesso. Foi quando passou por um empregado negro que, com um carrinho de limpeza repleto de produtos, lavava o chão do museu. Ela olhava para o homem e nós para ela. Gica deve ter ficado com pena, pois parou para observá-lo melhor até que percebeu que ele não se mexia. Assustamos quando vimos a nossa mãe soltar um grito dando um salto para trás:
- É uma obra! É uma obra! Exclamou ela, aos prantos, provavelmente emocionada com o choque socioestético daquele trabalho soi-disant “hiper-realista”.
- O que vocês acham de irmos embora? Isso aqui já está virando uma novela mexicana, resmungou Terence enquanto passava pelo mural Suicídio coletivo de David Alfaro Siqueiros e ia colocando o pé na escada rolante.
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Meu irmão e eu, adolescentes, em novembro de 1963
Copyright © Giselda LeirnerOnde estava eu quando JFK foi assassinado? Uma das leitoras do meu blog Quando, Onde e Como "era espermatozóide", alguns não se lembram, outros corriam atrás de balões e soltavam pipas, brincavam de boneca, jogavam bola; recordam-se da foto de Lee Oswald em O Cruzeiro. Outros, ainda, estavam às voltas com alguma chupeta, no colo de alguém ou mamando. Uma amiga estava na casa de um colega, estudando matemática. Para ela, assim como para uma outra que varria a casa, a notícia foi um choque pois ficaram com medo de uma Terceira Guerra Mundial, "nem mais nem menos!" Eu... estava no Chez Moi. Um cabeleireiro que ficava na rua Oscar Freire, quase esquina com a Augusta. Não que fosse excessivamente vaidosa. Apenas cumpria as ordens da minha avó que julgava um absurdo o nosso método, meu e de minhas amigas, de colocarmos respectivamente os nossos cabelos embaixo do ferro de passar roupa para os alisar. Então, a ordem era cortar à la garçonne para que os frisados desaparecessem e sobretudo para que não restasse nada para a taboa de passar. Deve ser por este mesmo motivo que várias meninas da minha idade apareciam de vez em quando na escola com o mesmo cabelo de moleque desta foto ai em cima. Mas eu adorava o Chez Moi por um único motivo: a manicura, que era uma pessoa maravilhosa e cujo nome lembro até hoje. Ela levava horas cortando cutículas para poder contar as histórias tristes com o marido chofer de caminhão que a traía em cada cidade pela qual passava. Contava-me pormenores da vida íntima dela com tal confiança que esse devia ser o único momento da minha adolescência, exceto quando estava com Julieta, em que me sentia realmente adulta. Ah! se a minha mãe soubesse que esta manicura foi tão importante para a minha formação psico-sócio-sexual-feminista-libertária futura...
Mas eu falava sobre o assassinato de JFK. Ora, naquele sábado, 23 de novembro de 1963, o salão estava repleto. Algumas senhoras com as cabeças cobertas de bobes, outras com elas debaixo dos secadores imensos em forma de nave espacial e outras ainda com elas deitadas na grande pia coletiva do xampu. Eu estava sentada na frente do espelho, com uma toalha sobre os ombros enquanto a cabeleireira se preparava para atacar os meus cachos com a tesoura. Contava a ela que tinha uma festinha de aniversário à noite, quando ouvi um berro e uma agitação. Nunca vi tantos bobes, aventais, cabelos e toalhas alvoroçados correndo para tudo que é lado. As pessoas gritavam, punham a mão na cabeça ou faziam o sinal da cruz. Alguém aumentou o volume do rádio que ficava na sala do xampu e todas dirigiram-se para lá. Levou algum tempo para eu compreender o motivo daquele abalo. Talvez porque que, em cabeleireiro, qualquer comoção fica mais histérica do que em outros lugares... Logo senti medo e fiquei tão penalizada que quando me olhei no espelho, vi que estava com lágrimas no rosto.
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Dez anos antes. Festa na rua Guadelupe: da esquerda para a direita, entre outros: Yolanda Mohalyi, tia Clara (mãe da minha querida prima Jeanine), Abe, Gica, Mané Katz, Lasar e Jenny Klabin Segall, meus avós Isai e Felícia, a escritora Maria de Lourdes Teixeira. No fundo, a escultora Moussia Pinto Alves e o crítico - Sérgio Milliet. Nas paredes, ao fundo à esquerda vê-se uma tela de Samson Flexor e à direita, uma pintura de Lasar Segall.- Alô ? Marion, não posso falar agora. A casa está cheia de gente e a vovó pediu para eu não demorar. Reunião da UNE? Com o José Serra? Quem é esse? O que é que a gente tem a ver com a UNE? Sei... o teu irmão... Que agora em 63 o Brasil está uma bagunça, ah isso parece que está mesmo. Sei...gente do PSD indo para o PTB, e daí? Perigo de golpe? Golpe do que? Olha Marion, antes da política, tem coisa demais para eu entender. Hã? Não, amanhã não dá. Tem visita à Bienal com a Julieta que vai explicar expressionismo abstrato ao nosso grupo. É, eu sei que não te interessa. Ok, no final da semana vamos subir a Augusta, mas agora tenho que desligar tá?
Deixei a cabina e aventurei-me ao salão. Engraçado como, quando conversam com alguém, certas pessoas que lhe conhecem não conseguem nem ao menos fazer um sinal com a cabeça. Conservadores de museus e críticos de arte especialmente. Não é por falta de polidez. Fingem que não lhe vêem talvez para não precisarem executar duas tarefas ao mesmo tempo... O senhor Quenino de Barros era um deles. Mesmo desdentado e barrigudo, parecia um aristocrata dentro de seus ternos impecáveis e perfumados, com a sua imutável gravata borboleta de “pois”. Ele gostava muito de nós, principalmente Terence de quem mais tarde publicou os poemas. Tanto que nunca nos divertimos às custas dele, como fazíamos com a maior parte dos convidados de Felícia. Até hoje não sei se foi um bom crítico e também nunca entendi como era possível ele ter casado aos 90 e ainda por cima ficado pai!
Naquela época, eu tinha a impressão de que o mundo da arte compunha-se apenas de duas trincheiras opostas, sendo que na primeira estavam fortificados os artistas e na segunda, os críticos. Era uma batalha estranha, onde os primeiros não hesitavam em sair de seus abrigos para ir lisonjear o “inimigo” que, por sua vez, nem se dignava a afastar-se do buraco. Desta situação - certamente exagerada, própria da minha inexperiência adolescente - a única que não se enquadrava era Gica. Quando passei por ela, para ir ao jardim, ouvia-a conversando em inglês com um célebre comissário estrangeiro:
- Gostaria de conhecer os seus desenhos, dizia ele. Se quiser, podemos marcar uma visita ao seu ateliê esta semana...
- Vamos deixar isto para outra vez, respondia minha mãe, mudando rápida e altivamente de assunto, como se aquilo fosse coisa íntima ou como se o moço estivesse lhe passando uma cantada.
“Não. Decididamente, ela não obedece às regras desses combatentes da arte. Não tem trincheira. Não quer ficar famosa” pensava eu, enquanto me aproximava do terraço. Cantadas não faltavam naquele ambiente. Era um tal de maridos esquivando-se pelas saletas e detrás das plantas, e de mulheres olhando feio, que muitas vezes eu me perguntava se, antes do dinheiro, prestígio e cultura, não era esse o esporte predileto da sociedade paulista. Mais tarde soube até mesmo de casamentos que nasceram daí. Não foi o meu caso com o artista Isaac Hakam, que conheci no final da noite.
Minha avó, para variar, me pegou pelo braço:
- Deixe eu apresentar você a alguns prêmios. Era assim que ela se referia aos artistas laureados. E foi assim que eu decidi, mais tarde, ser completamente contra a premiação na Bienal de São Paulo.
Nas rodas de conversa havia pelo menos uma dúzia de “prêmios trocando idéias”. Enquanto um deles acenou à Felícia, Amélia cochichou em seu ouvido o grave problema ocorrido com o assado da Benedita. Sem saber a quem se dirigir primeiro, a minha avó pôs as mãos na cabeça e aproveitei para escapar. No terraço, sorridente como sempre, estava a minha doutora Julieta:
- Sheilinha! Que bom que você está aqui! Venha sentar perto de mim, disse ela ajeitando o colar de pérolas sobre o jabô da blusa colorida.
Em qualquer ocasião ela vestia aquele tailleur de tweed leve no qual invariavelmente prendia também um grande broche de ouro. Julieta não tinha nada de uma “intelectual”. Era o oposto de um daqueles “prêmios”, a antipática e arrogante Carla, herdeira de imigrantes italianos de grande fortuna, moça alta de rosto eqüino e expressão desdenhosa e amarga, cujos gestos masculinos combinavam bastante com a falta de asseio e o desgrenho sombrio de suas roupas. Julieta era doce, redonda, feminina, zelosa consigo mesma e seu coração rejeitava a maledicência e o menosprezo como se fossem os piores de todos os pecados. Ela, em sua cadeira de rodas, deficiente física por causa de um acidente em Trento, no qual, ainda criança, foi atropelada por um motorista bêbado, era uma flor. Mesmo tendo perdido parte de sua família em campos de concentração e compreendendo profundamente as mais intricadas e funestas vertentes artísticas da modernidade e do pós-guerra – e talvez justamente por causa disto - mantinha a delicadeza, o frescor e uma certa inocência de quem aceita e respeita o ser humano, desculpando-o, acima de suas torpezas. Não fosse a